Uma Biografia Literária

Uma Biografia Literária
Helena Barbas

Publicado no jornal Expresso

Ainda há autoras discretas, que não se promovem nem deixam muito que as promovam. Não caem nas malhas das estratégias de mercado a caminho do «best-seller», não aparecem em «cocktails» literários nem embarcam em «capelinhas». Ana Teresa Pereira é exemplo de tudo isto.
Imagine-se que, lá na sua ilha da Madeira, se limita a escrever, e a enviar-nos os livros para que individualmente os descubramos nas livrarias. Nasceu no Funchal, em 1958, deixou o estudo da Filosofia para se dedicar à prática das Letras, tem já uma longa e variada carreira.
Estreou-se com um romance policial – Matar a Imagem – premiado pela Caminho em 1989. Nele encontramos irrelevantes ecos biográficos. A heroína chama-se Rita e abandonou um curso de Filosofia para assumir a tarefa de escrever: «Havia nela um medo feroz da escrita, de cair no poço sem fundo que era ela própria. O medo não era muito intenso nas semanas em que escrevia o livro na mente e as cenas e as personagens se formavam e desfaziam, e nem sabia se tinha um livro ou não.» (pág.11). Rita vai casar com David, apesar das animosidades: «Sentiu naquele instante que o detestava profundamente. A ele e ao que representava: um caminho certo, traçado, paralelo aos outros.» (pág.15) – uma recusa que definirá todas as suas heroínas. Para o evoluir desta história de morte e amor, com vampiros e anjos, vai ser fundamental uma casa antiga, o mar, e o nevoeiro. Para todas as outras também.
Na obra de Ana Teresa Pereira repetem-se os cenários, e ainda os gestos, situações, sentimentos. Há obsessões que se vão misturando, se tocam e trocam refazendo-se noutras histórias, ou contando outra vez a mesma de outra maneira – como a questão do duplo, mais evidenttte em As Personagens de 1990 (Caminho). O processo denuncia-se principalmente pelos nomes – vão surgir Marisas, Dianas, Miguéis, vários David e Tom ou Charlie. Em A Última História diz-nos sobre Patrícia: «Como se fosse escrever um livro e precisasse de inspiração, de entrar num mundo oculto, desvelar a realidade por detrás da pele das coisas. Tom ensinara-lhe que para escrever era fundamental afundar-se, descer à cave. E não forçar nada, deixar o livro acontecer, formar-se por si. Começar a escrever cedo de mais poderia originar um aborto. Uma massa informe e repugnante na qual não se podia mais tocar.»(pág. 9) A metáfora da massa a moldar associada à escrita será mais um «leitmotiv», que se expande e inverte em textos posteriores.
Quanto aos nomes, não respeitam géneros. Repetem-se numa colecção juvenil editada entre 1991-92 (Caminho) que tem por base de título A Casa. São cinco: dos Pássaros, dos Penhascos, do Nevoeiro, das Sombras, da Areia. Aventuras de um pequeno grupo de cinco heróis – a invocar a famosa Enid Blyton: os irmãos David e Cristina, a prima Mónica, o amigo João, e o cão Charlie. Os miúdos desvendam mistérios por vários locais da ilha da Madeira. A mãe, Carla, escreve livros. Em A Casa do Nevoeiro parece que se apaixona por um pintor de anjos de nome Miguel.
Tom é o protagonista de A Cidade Fantasma, passado em Londres (Caminho, 1993). Um escritor de policiais que vai casar com uma Patrícia. A mulher é sempre «a mãe, a bruxa, a amante, a filha pequenina» como a psiquiatra de Num Lugar Solitário, que lá mais para a frente se descobre chamar Patrícia, ter uma irmã-duplo Micaela, e por paciente um pintor chamado Tom. Uma história com capelas, a passar pelo Paul do Mar, como A Casa do Nevoeiro.
O registo policial vai ser preterido nos livros seguintes. A Noite Escura da Alma (Caminho, 1997) é o nome do terceiro e último conto que compõe o volume. Juntam-se-lhe «O Anjo Esquecido» e «Sete Anos», a evoluírem para um romance pautado pela música das Variações Goldberg. Personagens principais – um Tom, aspirante a escritor, e Marisa, herdeiros de uma casa antiga: «A presença da casa. A casa que os rodeava como uma concha, observando cada um dos seus movimentos, ouvindo cada palavra.» (pág. 54). A casa anima-se diante da paixão de Tom por Marisa. Esta tem um(a) duplo chamado Patrícia. No conto final, uma Marisa-filha transfere a paixão pelo pai-Tom para um namorado David.
A envolver tudo em crescendo sub-reptício, o romantismo inglês e o universo pré-Rafaelita naquilo que recuperam de medieval. Mas os ambientes sinistros e atmosferas inquietantes evidenciam marcas e vestígios do gótico, às vezes transportados para território nacional e tempos modernos, contaminados pelos filmes mais recentes. Reveladas em epígrafe há as inspirações em Jorge Luis Borges, Henry James, Truman Capote, Iris Murdock, Hitchcock – este último ironicamente reinventado em «O Ponto de Vista das Gaivotas», um dos contos de Fairy Tales (Black Son Editores, 1996), reeditado junto com Ghost Stories em A Coisa que Eu Sou (Relógio d’Água, 1997). Uma experiência interessante embora menos feliz, pois aqui, as redundâncias negativizam-se podendo tornar alguns dos textos em rascunho de romances futuros. É demasiado evidente a semelhança entre a anónima heroína de «Forget-me-not» e de As Rosas Mortas. Para elas, e para Ana Teresa Pereira, escrever é «como mergulhar as mãos em argila (algo de sensual e assustador), criar formas que depois voltavam à massa amorfa, ao caos, ao início; e surgiam de novo, durante algum tempo, revelavam-se, e desapareciam…» (pág.17).