Quando a ficção vive na e da ficção

Quando a ficção vive na e da ficção
Anabela Sardo

publicado na ciberkiosk

Resumo: Este artigo esboça uma questão chave da obra de Ana Teresa Pereira: nos seus textos, a ficção vive dentro da ficção e as histórias vivem de imagens literárias (e artísticas) que condicionam a sua construção.
Os dois últimos livros, A Linguagem dos Pássaros e A Dança dos Fantasmas, continuam sendo exemplo disso mesmo.
Ao processo pictórico de inserir um quadro dentro de um quadro, corresponde, nas letras, o de interpolar uma ficção noutra ficção.
A criação literária e os labirintos verbais e temáticos (a própria escrita, o jogo literário, a(s) história(s) dentro da história) são temas subjacentes dos livros de Ana Teresa Pereira. Em O Rosto de Deus, Ana Teresa Pereira insere um conto com título homónimo escrito por uma das personagens. A Última História conta-nos a aventura fantástica de uma mulher que mata o homem com quem vive, um autor de romances policiais, que a impede de ser livre. O crime não tem testemunhas e a protagonista, finalmente liberta, começa a escrever as suas próprias histórias. Porém, dada a ambiguidade, a pouco e pouco, sugere-se ao leitor que o assassínio é somente a intriga de um dos livros do marido e que ela mesma não passa de uma personagem comandada, até ao mínimo gesto, pela vontade do autor, o único que tem, afinal, o poder de dar a vida e a morte. Em As Personagens, acentua-se toda a labiríntica ambiguidade do texto literário com as referências da própria leitura: “Viu-se a si mesma, como multiplicada em espelhos, lendo As Ficções, dentro do nevoeiro, dentro de espelhos que se sucediam num nevoeiro opaco” (1). A alusão às Arabian Nights e a Xeherazade (“Você terá de ser Xeherazade esta noite” (2)) recorda-nos que essa obra extraordinária duplica e reduplica, até à vertigem, a ramificação de um conto central em contos adventícios, provocando o efeito de um tapete persa. Por analogia, as histórias de Ana Teresa Pereira parecem abarcar todas as outras de forma infinita e circular. Conta-se, “para sempre”, a mesma história.
Nestes livros, para além de encontrarmos histórias dentro das histórias, sentimos que cada história vive de outras histórias. Por isso, a intertextualidade é uma constante. Numa acumulação de planos distintos de uma mesma realidade, os textos aludidos, e aduzidos, passam a constituir o próprio texto, resultando o enunciado de leituras, de experiências e de estéticas que a escritora interliga. As influências admitidas, a recorrência a intertextos e a repetição de nomes são elementos fundamentais da arte de Ana Teresa Pereira. Contudo, devemos perceber que a leitura que a escritora faz dessas obras é absolutamente pessoal o que lhes confere uma dimensão que não está, muitas vezes, presente nelas. Em consequência, para ler as histórias, é necessário ter em conta uma “teoria hermenêutica” peculiar enunciada pela narradora de um dos seus livros: “à tarde ficavam na biblioteca. Ele fazia-a ler durante horas, e depois ensinava-a a representar. E à noite fazia-a ver os seus filmes, todos os que ele amava, forçava-a a amá-los também. Mostrava-lhe as histórias paralelas, invisíveis, que eles escondiam.” (3)
Os sonhos e a vigília são, segundo Arthur Schopenhauer, folhas de um mesmo livro. Lê-las, por ordem, é viver, e folheá-las, sonhar. Os livros de Ana Teresa Pereira são livros com histórias que vivem de outras histórias, como se, num ápice, folheássemos outros livros, visualizássemos instantes cinematográficos, escutássemos excertos de grandes composições ou contemplássemos quadros famosos. Por isso, as narrativas assemelham-se, acima de tudo, a sonhos magicamente delineados pelos universos que a escritora mais ama e nos leva a amar: a literatura, o cinema, a música e a pintura. Assemelham-se a sonhos (ou pesadelos) que moldam o seu (e o nosso) imaginário.
Nestes livros labirínticos, nada poderia assentar melhor do que as palavras da escritora, citando Fernando Savater, quando assevera que “a narração é algo da ordem da magia, do íntimo e do religioso.” (4) A Dança dos Fantasmas e A Linguagem dos Pássaros (5) trazem de volta o universo mágico que interliga labirinticamente todas as realidades, aquela que se vê e as que estão para além dessa. E, também, a procura do conhecimento da intimidade das coisas, o que atribui um fundo poético a toda a sua criação. (6) Da mesma forma, numa espécie de inocência primordial, que sentimos nos textos da escritora, encontramos, também, uma melancolia insistente de regresso a um tempo em que se retomasse a ligação com o mundo.
Ana Teresa Pereira afirma, também no artigo já citado, querer falar de “narração pura, de contos”. Mais do que falar em contos, reaparece, retomando, em A Dança dos Fantasmas, essa forma de narrativa curta que se transformou no meio de expressão privilegiado que permite dar vida aos seus mais íntimos pensamentos, ao “material de que são feitos os [seus] pesadelos”. (7)
Por muito valorizada que possa ser a construção de um texto, como fruto da inteligência e da lógica (e os de Ana Teresa são daqueles para serem lidos devagar, hesitando em cada frase, procurando-lhes, fundamentalmente, o sentido), as suas histórias vivem de uma intuição que domina cada frase, atribuindo-lhes o estatuto de uma experiência muito própria, irredutível a explicações pura e simplesmente racionais, onde mundos se interligam.
A Dança dos Fantasmas junta, num mesmo livro, duas narrativas. A primeira tem o nome que dá título ao volume e a segunda, “O Vale dos Malditos”, havia saído já, em livro, no final do ano 2000 (8).
São ambas narrativas de enredos simples, estruturalmente caracterizadas por uma concentração da intriga, do espaço e do tempo, por um número reduzido de personagens e por uma certa economia de elementos descritivos, afigurando-se, o primeiro, como um ‘conto policial’ e, o segundo, como um ‘western’. A Dança dos Fantasmas parece um conto policial, porque esse facto nos é sugerido, ao longo do texto, como foi sendo ao longo da obra da escritora, criando, no leitor, a expectativa desse género literário. Deparamo-nos com os tópicos, em abstracto, ouvimos referências (pela boca das próprias personagens, que lêem, também elas, contos policiais) a livros e escritores famosos: “Byrne levantou os olhos do livro. Era um romance de John Dickson Carr (…).” (9)
Alguns escritores escrevem contos fantásticos mas que, ao fim e ao cabo, têm uma solução policial.” (10) Ana Teresa Pereira escreve contos que parecem fantásticos (chamamo-lhes fantásticos, porque nos falta uma expressão mais adequada para os caracterizar). Mas a ‘hesitação’, que caracteriza esse tipo de textos, é, nos de Ana Teresa Pereira, entre o sentido e os símbolos e não entre o natural e o sobrenatural. Parecem, também, policiais, mas faltam-lhes alguns elementos que definem o género em questão. Por outro lado, da mesma forma, não têm nunca uma solução policial.
O território que a obra da escritora ocupa, e que é explorado de um modo obsidiante, criou um universo literário muito próprio, à sua imagem e semelhança, no qual o género policial, a par de outros, parece impregnar o seu mundo obsessivo. Contudo, e apesar de quatro dos seus livros terem sido editados numa colecção policial (11) e se sugerir, na contracapa de A Dança dos Fantasmas, que os dois textos que o compõem são um ‘policial’ e um ‘western’ a que “não falta nenhuma das regras habituais”, não podemos afirmar que esses textos sejam, verdadeiramente, policiais ou westerns. Surgem subvertidos pelo universo extraordinário, peculiar e dificilmente classificável de Ana Teresa Pereira, que escreveu um policial e um western para homenagear esses dois géneros (sobretudo, na versão literatura de ‘cordel’) e os escritores que, desde cedo, povoaram e preencheram o seu imaginário. (12)
A Dança dos Fantasmas, como as demais obras de Ana Teresa Pereira, é, antes de mais e para usar as palavras dos próprios textos, “uma velha história (…) talvez… É acima de tudo, literalmente um pesadelo.” (13) Na ‘história policial’ dos quatro assaltantes que se refugiam na cabana do bosque, onde há cinco anos vivia sozinha uma mulher com a “sua beleza de ossos (…) um fantasma numa casa vazia” (14), não sabemos claramente quantas personagens existem (“naquela noite em que abrira a porta e vira os dois homens, que depois eram quatro, que de alguma forma tinham sido um só” (15)), parece-nos que todas podem ser apenas uma e que talvez só exista um sonhador naquela casa, ou talvez não exista ninguém.
A diegese, simples e leve, encerra, paradoxalmente, uma certa carga nublosa. A simplicidade e a leveza fazem-na pairar numa fímbria mágica que nasce da ocorrência do familiar e do estranho, do comum e do imaginário e, ainda, da coincidência dos mundos ficcionais, que moldam o universo literário da escritora, e das esferas oníricas que a envolvem. A carga nebulosa deriva do ambiente estranho em que vive a personagem principal e da sua natureza longínqua, carregada de medos, fantasmas e solidão.
O que torna singulares as personagens principais, dos textos de Ana Teresa Pereira, é a forma como vivem, diferente da do comum dos mortais. Jenny é uma dessas criaturas, “andava como se não tocasse no solo, como uma deusa ou uma criatura dos bosques” (16), e teve a capacidade de seduzir os homens, que casualmente, ou talvez não, dela se abeiraram, não para os amar, mas para os destruir. Porque Jenny vivia obcecada pela imagem de Tom, ausente fisicamente na história, mas sempre presente no texto.
Tom é a personagem mágica que perpassa a obra da escritora e reaparece, agora, na sombra do escritor morto, desaparecido de forma suspeita, “de origem russa, que escrevia os seus poemas em russo (…) um dos escritores mais importantes do seu tempo.” (17) É ele que dá sentido à existência de Jenny: “Tom apossara-se dela definitivamente (…)” (18). Por ele estudara russo, por ele acendia todos os dias uma lamparina e queimava incenso à frente de uma reprodução da Santíssima Trindade de Andrei Rublev.
Tom dissera-lhe que um ícone era uma oração, e os poemas dele também o eram. E a forma que Jenny encontrara de rezar era traduzir, escrever e dizer os seus poemas em voz alta. E, se calhar, esta é também a forma que Ana Teresa Pereira encontrou de rezar, e que é uma forma muito sua de o fazer: ler (adorando os seus santos “que são feitos de outra matéria (19)”) e escrever, buscando-se no fundo dos textos, como Jenny se procurava “a si mesma no fundo daqueles poemas” (20), porque Tom “pegara nas suas entranhas, no seu corpo, na sua alma e fazia-a surgir de vez em quando nos seus livros (…)” (21).
Como nos livros anteriores, sente-se a dificuldade de saber quem são, efectivamente, as personagens: Jenny e Tom. Onde começam e terminam. Jenny e Tom, Jenny/Tom (/Ana Teresa Pereira?), que se procuram e se encontram, com horror e paixão, no fundo daquilo que escrevem: “a loucura e a violência que existiam no fundo dos dois. Mas claro (…) era difícil saber onde terminava um e começava o outro (…) e nada era tão bom como perderem-se na noite um do outro, no sangue um do outro, num lugar onde só existia prazer e dor, um lugar muito antigo, e a inconsciência de si mesmos…” (22)
Se procurarmos destrinçar o material de que são feitas as personagens (e nos lembrarmos da recorrência obsessiva de determinados temas), parece-nos, acima de tudo, que são construídas de pedaços da própria escritora. São feitas do mesmo material dos seus sonhos e dos seus pesadelos, e das imagens (literárias) que a preenchem diluindo-se, num todo que se confunde, autor, narrador e personagens, ou melhor, derramando-se nas personagens a essência de que é feita a escritora: “todos os livros são eu própria, o material de que sou feita.”(23)

Notas
(1) Ana Teresa Pereira, As Personagens, Lisboa, Editorial Caminho, 1990, p. 77.
(2) Op. cit., p. 99.
(3) Op. cit., p. 132.
(4) Ana Teresa Pereira , “I Desired Dragons”, Público, Mil Folhas, 01/12/2001.
(5) Esse universo mágico, íntimo e religioso revela-se, de uma forma avassaladora, em A Linguagem dos Pássaros.
(6) De acordo com o que afirma Gaston Bachelard na sua obra La Terre et les Rêveries du Repos, p. 11.
(7) A T P, A Dança dos Fantasmas, Lisboa, Relógio D’ Água Editores, 2001, p. 9.
(8) A T P, O Vale dos Malditos, Lisboa, Black Sun Editores, 2000.
A propósito deste livro, cuja história é reeditada na segunda parte de A Dança dos Fantasmas, leiam-se os artigos de Anabela Sardo, “Ana Teresa Pereira: histórias de solidão e amor”, de Rosário Gamboa, “A Irredutibilidade da Imagem” e de Rui Magalhães, “As palavras de Tom”.
(9) A T P, A Dança dos Fantasmas, p. 41.
(10) Chesterton, cuja influência também se sente na obra de Ana Teresa Pereira, era, segundo Jorge Luis Borges, um desses autores. Cf. Jorge Luis Borges, “O conto policial”, in:Obras Completas, vol. IV, Círculo de Leitores, 1999, p. 205.
(11) Matar a Imagem, A Última História, A Cidade Fantasma e Num Lugar Solitário foram editados na colecção Caminho Policial.
(12) Ana Teresa Pereira dedica A Dança dos Fantasmas a Francisco González Ledesma : “para Silver Kane, que criou o material de que são feitos os meus pesadelos”, p. 7.
(13) A T P, A Coisa Que Eu Sou, p. 144.
(14) Ibidem.
(15) A T P, A Dança dos Fantasmas, p. 98.
(16) Op. cit., p. 41.
(17) Op. cit., p. 36.
(18) Op. cit., p. 72.
(19) Ana Teresa Pereira, “Porque só eu vou morrer”, Público, Mil Folhas, 04/03/2002
(20) A T P, A Dança dos Fantasmas, p. 73.
(21) Ibidem.
(22) Op. cit., p. 74.
(23) Manuel Halpern, “A Imagem no Escuro”, Jornal de Letras, 12/01/2000.