Para Além do Possível

Para além do possível: o poder criador da palavra em António Ramos Rosa e Ana Teresa Pereira
Rui Magalhães

Publicado originalmente in Luís Machado de Abreu (Coordenador) Diagonais das Letras Portuguesas Contemporâneas. Actas do 2º Encontro de Estudos Portugueses. Aveiro, 1996

COLOCAÇÃO DA QUESTÃO
A abordagem do presente tema, ainda que exija a penetração em domínios que excedem largamente o campo restrito da literatura e o afloraramento de questões de natureza quase-filosófica que a podem tornar mais árida do que seria desejável quando se trata de autores, acima de tudo, emocionantes, parte, todavia, de um ponto de um espaço absolutamente concreto: trata-se de um problema directamente colocado pelos textos dos autores escolhidos. Poder-se-ia, certamente, perante eles, permanecer numa atitude de mera leitura sem nos interrogarmos sobre os factos, remetendo-os ao estatuto imaginário da ficção. Mas não estaríamos então a defender uma concepção do literário que assumindo-o como um mero jogo lhe retira todo o potencial valor heurístico? Não é a literatura, em si mesma, uma infinita instituição de percursos à volta de um número bem restrito de sensações, e não é esse o processo literário de tentar apreender, dessas sensações, algo mais do que a sua simples ocorrência?
Há textos que vivem, na sua dimensão mais profunda, da ideia de que a palavra possui uma dimensão de constituição ontológica. Esta dimensão pode surgir e ser desenvolvida de múltiplas formas, precisamente de acordo com os terrenos em que vão buscar a sua própria natureza.
A primeira aparição do tema da capacidade de as palavras produzirem realidade remonta ao Génesis; vemos aí como a criação do mundo é o efeito da palavra divina. Pode pensar-se que a expressão: «E Deus disse: haja luz e houve luz» (Gen., I, 3) é justificada pela identidade, em Deus, da vontade, da expressão da vontade e do acto que a materializa. Tal seria o tipo de interpretação derivado da tradição filosófica de origem medieval e de raíz cristã. Porém, a tradição judaica, de facto mais próxima da natureza do Génesis, entende a passagem de um modo diferente; no Zohar pode lêr-se: «No princípio, quando a vontade do Rei se manifestou, Ele gravou sinais na esfera celeste (que o rodeava). No recanto mais secreto, elevou-se do mistério de En Sof, o Infinito, uma chama escura, como um vapor que se forma do informe…». Por outro lado, a Cabala descreve minuciosamente as letras de que Deus se serviu para criar o mundo material; segundo esta tradição Deus criou o mundo a partir da letra Beth do alfabeto hebraico, aquela que serve para enunciar o atributo do Seu nome, Barukh, e deu-lhe unidade a partir do Aleph. A marca essenciall desta interpretação reside, por um lado, no privilégio concedido à escrita na tradição judaica e por outro, na constituição de um sistema geral de criação que ocupa o lugar do princípio da identidade que preside à interpretação filosófica da passagem citada do Génesis.
Esta tradição, durante muito tempo esquecida, recalcada ou expressamente proibida, foi todavia dando os seus frutos mais ou menos indirectos, de que a importância da ideia de Livro, aplicado mesmo à natureza e o pensamento analógico que marca certas formas do neo-platonismo renascentista, constituem exemplos notáveis; o que se compreende se pensarmos que o Cristianismo começa por ser uma seita judaica, da qual se autonomiza, essencialmente, devido ao seu êxito histórico e que uma das suas características fundamentais é o recalcamento de tudo quanto é verdadeiramente secreto. É esta dimensão, afastada do cristianismo oficial, que passa a viver em círculos mais ou menos restritos e perseguidos ao longo de todo o período medieval e que depois reemerge em quadros exteriores ao cristianismo quando não mesmo à religião. É assim que a Europa redescobre a palavra por via desse movimento de recuperação do sagrado sob a forma profana e degradada que é o romantismo, e na sua sequência, o simbolismo.
O tema da palavra criadora de realidade pode quer como efeito especificamente literário, quer como efeito de sentido, no caso do discurso que ultrapassa a significação para se situar no plano do sentido. Na realidade, por mais que o sentido e a significação apareçam, normalmente, tão ligados que quase não se distinguem, é absolutamente necessário reconhecer a autonomia do sentido em relação à significação. Quando se fala, por exemplo, em sentido próprio e sentido figurado, referimo-nos a percursos possíveis de um mesmo termo, percursos possíveis, mas ao mesmo tempo reais. I. e, eles existem e podem ser ou não percorridos. Há um ponto de cruzamento em que é preciso tomar decisões, seja decisões inscritivas, seja interpretativas.
O sentido, fora de qualquer especificação, é o conjunto simultaneamente finito e infinito dos percursos e das actualizações. Ramos Rosa e Ana Teresa Pereira, para além das substanciais diferenças que marcam os respectivos percursos, representam ambos formas próprias desta dimensão constitutiva da palavra. Se escolhemos estes dois autores é porque em qualquer deles esta capacidade constitutiva depende de uma estrutura sistemática que ultrapassa, largamente, o que se poderia considerar como o plano de significação, isto é, o plano em que existe uma correspondência mais ou menos directa entre a palavra e os elementos ontológicos que ela supostamente representa. Todavia, a presente questão pode parecer absurda se a significação de «realidade» não for tomada em sentido figurado. De facto, enveredando pelo caminho da alegorização, poder-se-á admitir com alguma facilidade que a escrita seja produtora de uma realidade de natureza mental. Porém, a ideia de realidade mental está longe de ser pacífica: ela introduz, simultaneamente, o conceito de ‘realidade’ e uma determinação que nega uma das suas notas definidoras usualmente admitidas. Significa isto que, ao falar-se de “realidade mental” se está a pôr em jogo uma figura ou, em alternativa, uma categoria introduzida pela filosofia para tentar resolver os problemas decorrentes do caso de caracterização existencial (negativa) de entidades não existentes.
Como não é nossa intenção analisar este tipo de questões, deveremos voltar atrás e tentar compreender que a aparência de absurdo e a suposta necessidade de recurso ao alegórico radica no facto de, por razões de ordem histórico-metafísica, nos ser bastante mais fácil passar ao sentido figurado (o que apenas parece resolver o problema) do que efectuar discussões semânticas e ontológicas acerca de termos (e do seu uso) que, em determinadas circunstâncias, parecem conduzir-nos a situações embaraçosas ou mesmo radicalmente desprovidas de sentido. É assim que colocados perante a questão de uma hipotética capacidade de a escrita produzir realidade, se passará quase imediatamente à questão: «qual o tipo de realidade criada?», questão quase-retórica que carrega, subrepticiamente, a passagem do termo ‘realidade’ do registo literal ao registo alegórico por meio da hipótese da ‘realidade mental’. Ou seja: perante uma questão que parece contrariar a noção comummente admitida de ‘realidade’ e dos tipos de acção habituais envereda-se pelo caminho mais longo, precisamente aquele que, apesar disso, permite manter o quadro das definições correntes. O problema desta estratégia reside no facto de que se por um lado, transforma aquilo que parecia uma questão complexa ou estranha numa questão (pelo menos, aparentemente) trivial, não o faz através da aplicação da navalha de Occam, mas de uma simplificação ou recusa de encarar a fonte da perplexidade; por outro, conduz a uma verdadeira escalada de sentidos figurados quando confrontada com exemplos que de modo algum verificam a mera questão trivial. É esse, precisamente, o caso dos dois autores que escolhemos como guia da nossa análise.
Antes de prosseguir, deveremos tentar formular a nossa questão inicial de um modo mais preciso, o que pode significar também um maior grau de abstracção; ficaríamos então perante o seguinte problema: de que modo se pode conceber uma ligação entre duas ordens de natureza diferente e não análoga, de tal forma que uma delas seja criadora no domínio da outra? Este tipo de reformulação coloca-nos, todavia, perante o problema da natureza da própria questão, que sendo inicialmente literária, começa a parecer-se, cada vez mais, com um problema filosófico. Ora a diferença entre as questões filosóficas e as questões literárias – admitindo que estas últimas existem – reside no facto de as primeiras serem sempre definitivamente ontológicas e as segundas o serem apenas de forma moderada.
O problema filosófico é sempre o da consistência enquanto o problema literário é o da subsistência, o que significa que a filosofia deve procurar sistematicamente fugir ao círculo vicioso ou à auto-refutação operando através de princípios que possuem um valor absoluto; na literatura, pelo contrário, pode sempre ocorrer algo que subverta o poder desse princípio. Eis porque a literatura opõe o princípio da plausibilidade ao princípio da não contradição, adimitindo, acrescidamente, uma noção alargada de plausibilidade que a torna substancialmente mais ampla do que a própria verosimilhança ou a faz depender do universo considerado. Isto faz com que no filosófico se verifique uma maior dependência do possível em relação ao real enquanto na literatura se dá o contrário. Neste sentido, a literatura parece estar mais perto da realidade porque ninguém admite, pelo menos na prática, que o poder ser dependa do que é; a imaginação, ainda que dependa realmente daquilo que existe, é sempre concebida como autónoma. De facto, esta capacidade constitutiva depende em qualquer deles, de uma estrutura sistemática que ultrapassa, largamente, o que se poderia considerar não só como um efeito literário, como também o plano de significação, isto é, o plano em que existe uma correspondência mais ou menos directa entre a palavra e os elementos ontológicos que ela supostamente representa.
LITERATURA, MUNDOS POSSÍVEIS E A QUESTÃO DA POSSIBILIDADE
A questão em apreço não é nem uma típica questão filosófica, nem uma típica questão literária. Enquanto a questão filosófica tem que ver com a interrogação acerca da natureza dos objectos colocados em jogo e a questão literária com o seu destino, a nossa questão, anterior a essas duas determinações, diz respeito à relação entre a natureza e o destino, enquanto a primeira não é determinada por um quadro significativo e a segunda é perspectivada fora de qualquer sistema teleológico.
A literatura vive de mundos possíveis – hipótese sempre problemática em filosofia – mas um texto literário que admite (sob qualquer forma excepto a figurada) que a escrita produz realidade, está a ir muito além da plausibilidade alargada e do suposto dos mundos possíveis; dito em termos aparentemente contraditórios, está, de facto, a exercitar a concepção da possibilidade de mundos impossíveis. A poesia e a literatura fantástica são, por isso, exemplos máximos dos limites da concepção filosófica do possível. Em termos ontológicos, falar de mundos possíveis é enunciar alternativas ao mundo que é definido como real. A questão que se coloca é relativa à consistência ontológica das alternativas e seríamos tentados a usar a noção de “subsistência” para caracterizar o estatuto ontológico dessas alternativas. Porém, se a nossa questão for a da relação entre a natureza e o destino, o problema não será o do estatuto ontológico das alternativas, mas sim o da natureza do quadro geral em que essas alternativas surgem como alternativas. Não se trata de uma questão de contrafactuais, mas de uma análise dos quadros em que os factos (reais) podem adquirir o seu estatuto de realidade por oposição às opções não efectuadas. O problema dos contrafactuais só tem existência no quadro de uma realidade que é tomada como paradigma ontológico. A questão colocada pelos textos dos autores considerados não é, pois, como se poderia erradamente pensar, a dos mundos possíveis, nem sob a forma fraca própria de qualquer narrativa, nem sob a forma forte posta em acção pela ficção científica.
Trata-se antes de uma reflexão sobre os limites da nossa própria ideia de mundo. Notemos que, num certo sentido, nenhuma realidade é plenamente autónoma e completamente real; de facto, as propriedades que definem um dado conjunto de ‘objectos’ como ser real dependem de um sistema de definições que inclui definições de propriedades, de relações e, finalmente, de «real». A realidade real não é mais do que uma condensação de percursos escolhidos e de opções significativas, ou seja, é um tempo. Todas as coisas, excepto talvez aquelas poucas como electrões ou aminoácidos, são desta natureza.
A RELAÇÃO ENTRE OBJECTOS
A aproximação que fazemos entre Ramos Rosa e Ana Teresa Pereira não deve ser entendida como um simples processo comparatista; se não existem, à superfície, muitas semelhanças entre eles, diferindo tanto as suas questões filosóficas como as literárias, existe todavia um plano, formalmente exterior aos seus respectivos sistemas, em que se aproximam e que pode ser referido como uma espécie de ‘encantamento’ ou de ‘perturbação’ que determina o modo de desenvolvimento e, muitas vezes, de especificação do sistema. Este ‘encantamento’ pode ser pensado como uma espécie de retorno do não recalcado, isto é, daquilo que nunca chegou a ocupar um lugar efectivo no universo significativo. É a este nível que se pode reconhecer uma aproximação entre os dois autores, tornando-se possível a delimitação da questão sob a forma da ligação entre objectos: a palavra cria porque liga objectos e porque pode ligá-los de acordo com lógicas não pré-determinadas (1).
Toda a literatura assenta na ligação entre objectos dependendo, em princípio, do possível. Mas esse mecanismo geral pode tornar-se um objecto particular; pode ser essa também a matéria do texto. O texto pode depender do modo como esses objectos se ligam e pode constituir-se como hipótese de ligações que ultrapassam aquelas que são imediatamente previsíveis, isto é, as que estão inscritas na enciclopédia que as regista (bem como nas metáforas que autoriza). De facto, isto não é uma excepção, mas o caso geral de qualquer discurso que transcenda o universo proposicional significativo, isto é, a representação. A questão da relação entre objectos não está desligada da questão da realidade dos objectos. É a afirmação de realidade que constitui o espaço substracto de qualquer nova ligação e é a relação entre objectos que define a realidade.
Porque as ligações não podem dar-se directamente entre objectos entendidos como reais, mas apenas entre extensões dos objectos que colocam em questão aquela realidade. Se assim não fosse, qualquer aparente nova ligação resultaria ser a repetição de uma ligação já anteriormente estabelecida, porque a sua possibilidade, isto é, os elementos utilizados por ela fariam parte da definição do objecto real. O que acontece é que, por via de regra, as ligações são interpretadas desde um qualquer ponto de vista já configurado no mundo inicial, ou seja, dão-se sob a forma de extensões análogas do mundo. O problema está em que se há razões para admitir que o idealismo é suficientemente absurdo para ser real, não é menos verdade que o limite do realismo está na própria definição de real (que já não pode ser realista). Isto significa que a questão da relação entre objectos mantém, na sua base estrutural, não apenas a questão dos mundos possíveis mas também a do regime de possibilidade dos mundos, incluindo, portanto, o nosso, isto é, aquele em que estas questões emergem. A verdadeira compreensão deste problema passa, portanto, por uma reanálise da noção de possível, particularmente pela sua libertação em relação à noção aristotélica de potência que assume o possível como inteiramente dependente do acto, isto é, como a sua possibilidade no interior de um esquema teleológico (2) para uma tentativa de reconhecer que todo o campo da possibilidade é determinado pela significação que os termos adquirem num determinado espaço de sentido.
OLHAR FALA E ESCRITA
A oralidade é uma função do sistema de comunicação/comunidade, essencialmente pragmático não se constituindo assim como um sistema autónomo. O aparente sistema da fala corresponde e representa o sistema do olhar, mas este é apenas a dimensão mais superficial e restrita da acção humana. O olhar não vê representações, isto é imagens, mas representações de representações.
A imaginação não é muito mais do que o processo que tenta passar da representação da representação à simples representação (As representações podem ligar-se de modos diferentes; as representações das representações, não. A imaginação é material porque se liga mais às representações do que às imagens). Perguntar-se-á, no entanto, qual a diferença entre os termos de uma tão obscura distinção. A representação da representação é o que é suposto ser idêntico ao objecto. A imagem é o que vai além do olhar. A imagem é uma figura e a imaginação o espaço dessas figuras. A figura é um elemento do sentido e não da significação. Priviligear a imagem significa afastar o papel essencial da representação da representação que é, evidentemente, apagar-se a si mesma e deixar na luz o objecto suposto real. A escrita que não se institui como repetição da fala nasce da suspeita de que o saber é uma espécie de representação da ignorância que se desconhece como tal, isto é, uma representação mais ou menos variável de representações pré-definidas e negadas como tal.
O saber é a representação de uma representação e esta, uma substancialização de um algures ilocalizável. Escreve-se quando se torna necessário inventar tudo desde o início, retomar o saber no seu verdadeiro momento, no seu instante de génese, enquanto é ainda e só representação, sujeita portanto a todas as dúvidas e hesitações, antes de se transformar em representação da representação, tornando o real uma sua derivação. A escrita só encontra justificação como reavivação dos fragmentos e como engendramento de elementos que se tornarão, também eles, fragmentos.
A extensão ontológica do discurso não é uma situação particular de certos textos; pelo contrário, é uma característica própria da escrita. Particular é a consciência desse facto. A escrita, não sendo um sub-sistema do falar, é um modo de ligar objectos e, sobretudo, de os ligar fora do quadro do possível. Entre as ligações reais e as possíveis só há uma diferença de modo, não uma diferença de natureza; ambas estão, como se disse, pré-inscritas na matriz do universo em que se integram. Pelo contrário, a escrita permite ligar objectos cuja possibilidade de ligação não está inscrita no sistema. Essa é a diferença entre as velhas metáforas – que o não são já verdadeiramente – e as novas. Mas a metáfora é apenas a ponta visível do iceberg. Ela supõe – na profundidade – um sistema que já não é meramente associativo, mesmo que o seja criadoramente. O modo como tudo isto funciona é que pode variar.
O SISTEMA DE RAMOS ROSA
A poesia rosiana é, antes de tudo, uma exploração da palavra. Isso mesmo justifica o modo de trabalhar do autor e a sua quase excessiva produtividade. É que, embora fora dos círculos da poesia experimental, Ramos Rosa concebe a escrita como um trabalho em que o poema é o instrumento da palavra, isto é, o meio pelo qual a palavra acede a novas significações desligando-se daquelas que são habituais e que lhe configuram o uso na linguagem corrente. É por isso que é de extrema importância, nesta poesia, distinguir os efeitos dos processos, ou seja, é preciso saber reconhecer os efeitos poéticos como momentos ¾ de modo algum terminais ¾ de um processo poético. É, exactamente enquanto elemento determinante do processo poético, que a palavra pode produzir real. Vejamos o que, sobre isto, afirma Ramos Rosa, num texto intitulado «O poder e o fazer da linguagem» em que o poético e o teórico se misturam de uma forma absoluta:
«O caminho surgirá na página, um caminho há-de surgir talvez, um caminho durável, um caminho fugaz. As palavras fogem ao pensamento e ao dito, abrem um caminho no escuro. O verbo é sempre inaugural, porque desagrega e se desagrega, porque (re) começa sempre de dúvida em dúvida, de ferida em ferida, de interrogação em interrogação. Os vocábulos vivos são os que se ligam ao vazio, às margens, à ausência, ao silêncio» (…) «As palavras perdem o sentido da generalidade e do conceito, caminham no obscuro para encontrarem a vitalidade dos vocábulos. Assim encontram o seu verdadeiro corpo de sangue e sombra.» (Quando o Inexorável, p. 19)
Trata-se sempre de seguir o caminho da palavra quando esta se insere num percurso que não é pré-determinado por um conceito; daí o apelo ao vazio que é, evidentemente, o contrário do preenchimento conceptual da palavra. Nesta perspectiva, o sentido do poema é a resultante do percurso da palavra através dos seus próprios efeitos num espaço que é determinado pela capacidade de reconhecimento conferido à palavra pelo próprio poema dos múltiplos lugares semânticos visitados pela palavra numa espécie de movimento de rotação e de translação.
A figura é uma expressão da palavra sob a forma das suas capacidades subjectivas estruturais. O problema aqui consiste em saber como é possível que a palavra se insira em percursos conceptualmente descomprometidos, uma vez que cada palavra surge sempre e necessariamente, associada a uma forma e a um nível de conceptualidade. De facto, estas novas significações que o poema, enquanto máquina processual, permite constituir, não visam subsistir mais do que um breve instante temporal: em última instância, o poema, como objecto completo e terminado seria a sua própria negação. É uma questão, pelo menos formalmente semelhante à da inovação semântica, embora difira dela pelo grau de fixação temporal das novas significações propostas e ainda pelo seu grau de densidade e de rigidez. De facto, estas novas significações a que o poema, enquanto máquina processual, permite constituir, não visam subsistir mais do que um breve instante temporal: em última instância, o poema, como objecto completo e terminado seria a sua própria negação; e assim é, pelo menos em parte, na medida em que a leitura do poema é a continuação do processo, na condição de o poema se preservar da constituição de elementos epi-textuais excessivamente determinados.
O contrato de leitura, para retomar a conceptualidade de Umberto Eco, só pode existir no poema sob a forma de impulso exploratório e como exemplo. A subjectividade readquire assim uma força que parecia tender a atenuar-se enquanto categoria epistemológica e mesmo hermenêutica, na medida em que é marcada como tópica e não como instância lógica ou epistemológica.
O SISTEMA DE ANA TERESA PEREIRA
Diferentemente de Ramos Rosa, em Ana Teresa Pereira, as palavras não têm uma demasiada importância; pelo contrário, podia quase dizer-se que elas são apenas um instrumento, uma marca da oralidade necessária numa textualidade que não é feita de palavras mas de elementos radicalmente distintos que são as imagens.
Numa primeira abordagem estes textos parecem cinematográficos; mas mesmo isso é uma impressão que, embora verdadeira, não pode ser assumida como a sua natureza mais essencial. A escrita produz imagens e são estas que se tornam reais. Deveremos considerar uma essencial e funcional dualidade da imagem; ela começa por ser um esquema, um paradigma, um elemento psicológico, mas é precisamente enquanto elemento psicológico que desencadeia a passagem da significação ao sentido, mesmo quando este último é recalcado em muitas instâncias como é o caso da visão interna dos personagens.
A unidade lógica destes textos é a história. A história é tanto aquilo que acontece e que é narrado, como aquilo que é apresentado expressamente como história, ou mesmo a visão que os personagens têm dos lances fundamentais em que os seus movimentos se dão à efectividade. Neste sentido, a história surge como o efeito directo da escrita seja qual for o estatuto que esta topicamente assuma, como diz um personagem:
«”Se eu ainda escrevesse”, pensou, podia nascer tanta coisa desta porta fechada» (Matar a Imagem, p. 74) (num outro lugar diz: «Só as histórias eram importantes. (…) Porque ela e os outros eram personagens, talvez, e era criminoso não deixar que as histórias se formassem, fugir delas quando prometiam ser incríveis». (Matar a Imagem, p. 33).
De certa forma, trata-se sempre da história das histórias possíveis, isto é, da apresentação dos caminhos que a situação deixa entrever a partir do momento em que essa situação é jogada contra a complexidade do próprio personagem. A história narrada é a história de todas essas histórias sob todas as modalidades e a que é de facto o caso, muito raramente é sequer a mais importante ou mesmo facilmente deliniada. Mas a história é algo que pesa e que os personagens procuram de todas as maneiras deixar para trás, mesmo quando deliberadamente a procuram. Procurar a história, tentar realizar o possível é, antes de tudo, escapar à história na qual o personagem é apenas personagem. Livrar-se das histórias é livrar-se das representações e isso é livrar-se do universo supostamente real que as delimita e configura. Os personagens querem livrar-se das histórias: para isso escrevem, para isso tentam publicar, para isso a sua escrita envolve completamente a realidade tornando-se o seu verdadeiro interior. Este processo de duplicação, afinal a característica essencial do real (só a repetição permite assegurar a realidade) está na base da inscrição expressa do carácter ontológico da escrita. Como diz um narrador:
«As minhas personagens desprendiam-se de mim e percorriam o mundo, escreviam novelas jamesianas e desdobravam-se em monstros que as devoravam. E eu entregava-me todo à tempestade de ser deus». (A Última História, p. 162).
Este é o esquema básico, mas apenas isso. Na realidade deve ser compreendido, no interior do sistema poético da autora que engloba, nomeadamente a imagem, o símbolo e o duplo, como a suspeita de que aquilo que os olhos vêem (aquilo que todos vêem) não é a autêntica realidade (Isto não significa que a autêntica realidade seja a que é imaginada, mas antes o conjunto de todas elas) mas apenas uma imagem mecânica, uma fixação superficial. A diferença entre o real-real e a escrita é bem menor do que parece; de tal forma que a ontologização funciona como explosão do subterrâneo que desconstrói as ligações habituais e, o que é mais importante de tudo, arrasta sempre o sujeito nesse processo.
O facto de aquilo que é escrito acontecer é a enunciação de um espaço totalmente diferente, a enunciação de um outro modelo de ligação entre factos e objectos, ou seja, a ruptura total do possível com as suas raízes teleológicas. Escrever e ser escrito, matar e morrer, são actos indissociáveis, formas aparentemente distintas da relação entre o personagem e o real. É a indistinção entre ambos que constrói o facto do acto criador da linguagem. Escrever um crime e este acontecer não é algo de substancialmente diferente de ser um efeito da imagem que os outros fazem de nós e que, aos poucos se nos cola à pele. Não se trata, é óbvio de uma tese ontológica mas semiótica, se é que esta distinção tem verdadeiro sentido. A escrita é consequência da história, como o personagem é consequência do seu nome, isto é, do seu lugar no mundo; tal como a história é a imagem do que o personagem vê quando suspeita acerca da sua própria origem. Trata-se sempre de um círculo, nunca desfeito, nunca aberto para uma linearidade que permitiria indicar um ponto de ruptura entre a imagem e o objecto (3). A imagem tem uma face psicológica e uma face que pertence já ao sentido. É entre ambos que se situa o mito; e é por isso que se a imagem pertence aos personagens estes pertencem também à imagem: só no interior da história da imagem podem existir personagens e imagens.
Os personagens não podem olhar sem se verem a si mesmos. E vêem-se dos mais variados pontos de vista. A escrita regista esta visão alucinante que desloca os lugares do subjectivo e do objectivo para um espaço em que não há já objectos mas emanações. É também neste contexto que deve ser interpretada a profusão de referências aos espelhos; eles reflectem uma imagem, um único ponto de vista; não reflectem, reduplicam, isto é, anulam a realidade da visão.
AS PEQUENAS DIFERENÇAS
É preciso salientar, por fim, que tanto em Ramos Rosa como em Ana Teresa Pereira o sinal de uma outra lógica é dado pelas pequenas diferenças. Não estamos, em qualquer dos casos, perante um universo radicalmente diferente que seria um mero fruto de imaginação no sentido corrente de “imaginação”. O universo normal não é nunca completamente abandonado; ocorrem pequenos deslocamentos, às vezes quase imperceptíveis. Esse é o ponto fundamental que enuncia a recusa da alternativa entre a identidade e a diferença. Estes textos sabem que a diferença é o caminho da identidade:
«E então viu uma mulher que descia lentamente os degraus (…) Esteve quase a chamá-la. Mas algo o fez conter-se. Era Marisa, e no entanto não era ela. O cabelo era um pouco mais comprido, mais selvagem. Os olhos não pareciam verdes, mas castanhos. Havia nela uma ausência de cor que o fez pensar por instantes na estátua branca». («O anjo esquecido”, inédito)
CONCLUSÃO
As relações entre o real e o possível, relações determinadas e configuradas pela ideia de oposição entre a realidade e a irrealidade, por sua vez determinada pela oposição entre a subjectividade e a objectividade, são constitutivas do real tal como se dá à experiência imediata e mesmo à experiência epistemológica. São essas relações e os seus princípios supostos assinalar a possibilidade de estabelecer relações entre objectos de natureza diferente; haverá assim relações necessárias, relações efectivas, relações possíveis e relações impossíveis, ou seja: o real, na sua máxima amplitude (de modo a incluir também aquilo que não é realidade) é uma espécie de catálogo de modalidades do ser.
Aquilo que os textos que acabámos de ter em consideração indubitavelmente permitem é um deslocamento de ponto de vista, o abandono dessas catalogações pré-determinadas e, sobretudo, a relativização ou topificação da modalidade. Não se trata de anular o facto da modalidade nem de desmontar o plano da possibilidade, mas de ver a possibilidade como um reflexo, uma espécie de extensão da realidade de tal forma que se quisermos pensar algum tipo de ruptura com o real, isso não possa acontecer sob a forma do possível. O não real, isto é, o não idêntico ao real inicial, que nasce da escrita não é uma sua extensão, prolongamento, mas um caso de reversibilidade, um caso de encontro com alternativas que, por razões várias, não eram imediatamente disponíveis.
Aquilo que os textos que acabámos de ter em consideração indubitavelmente permitem é um deslocamento de ponto de vista, o abandono dessas catalogações pré-determinadas e, sobretudo, a relativização ou topificação da modalidade. Não se trata de anular o facto da modalidade nem de desmontar o plano da possibilidade, mas de ver a possibilidade como um reflexo, uma espécie de extensão da realidade de tal forma que se quisermos pensar algum tipo de ruptura com o real, isso não possa acontecer sob a forma do possível. O não real, isto é, o não idêntico ao real inicial, que nasce da escrita não é uma sua extensão, prolongamento, mas um caso de reversibilidade, um caso de encontro com alternativas que, por razões várias, não eram imediatamente disponíveis.
Estes textos enunciam, pois, o fracasso e os limites de qualquer enunciação em que a conceptualidade imediatamente lógica (i.e., determinada por uma lógica inerente ao universo da afirmação) e a discursividade se estabelecem e desenvolvem sob a forma de uma coerência termo a termo. A nossa questão só pode, portanto, receber uma resposta de certo modo oblíqua; é que, tal como já salientamos, ela colide com a própria matéria que procura analisar em razão do seu ponto de partida: o mundo real como paradigma ontológico. É apenas num determinado universo – aquele em que o fisicalismo (e o espaço como seu derivado) é o paradigma – que a escrita e o real são necessariamente não análogos. Fora desse paradigma nada exige que o real e o ideal – para usar uma terminologia clássica – não possam ser pensados como profundamente interligados. A conclusão essencial a que se poderá chegar é a de que há uma lógica labiríntica e que essa lógica pode estabelecer-se sob diferentes tipos de elementos, mas que em qualquer caso, quando o discurso se projecta contra e para além do real imediato, não se está necessariamente perante um quadro de possibilidades. A passagem da significação ao sentido implica o abandono da modalidade, pelo menos geometricamente pensada.
A dimensão fundamental, aquela que permite construir lógicas de facto explicativas, é o tempo. O tempo não como algo diferente do espaço nem tão pouco como a sua quarta dimensão. Que pode haver para além do espaço e do tempo? Um espaço não geométrico, ou seja, um espaço que é, antes de tudo, lógico, mas onde a lógica não é uma forma de determinação do espaço, mas a sua própria forma de emergência. Onde a lógica não é deduzida mas constituída a partir de situações, de casos, que recusam qualquer heteronomia, qualquer homogeneização. O tempo do sentido começa com uma opção, com o início de um percurso. Não existe um tempo que englobe todos os percursos porque um tal tempo teria de ser infinito. O que engloba todos os percuros é a eternidade. A resposta dada à nossa questão inicial parece, todavia, limitar-se a deslocar o problema que passaria então a colocar-se em relação ao universo que determina o físico como paradigma em oposição a outros possíveis que assim não procederiam. É a reacção inevitável que nasce do interior do paradigma que tentamos limitar (e que pode, inclusivamente, surgir no interior dos textos como questões colocadas pelos personagens). Para ter pertinência deveria então ser reconstruída a partir de bases temporais e não espaciais; mas isso seria todo um outro problema.

Notas:
(1) Em Ramos Rosa: o levar até ao fim uma isotopia. O fim de uma toca o início ou um ponto de qualquer outra. Sobre esta questão, cf. o nosso artigo «António Ramos Rosa – O caminho da materialidade». Revista da Universidade de Aveiro – Letras, nº 4-5,1987/88
(2) E sobretudo não toma em consideração a dimensão temporal, a não ser na forma de uma temporalidade linear). A questão teórica central desloca-se então do domínio da determinação da possibilidade a partir do possível, como o faz Aristóteles (Cf. Metafísica, Livro 1).
(3) Em Ana Teresa Pereira a história constrói-se à volta de um certo número de imagens: é a viagem entre os modos como as imagens emergem topicamente nas personagens ou nos lugares. A história é ainda a narração dessa viagem através do espaço e do tempo. Os próprios personagens e lugares são encarnações de imagens, arranjos momentâneos de uma energia que advém da imagem. A vida dos personagens e dos lugares depende assim da história, isto é, do modo como aquela viagem acontece.

Novembro/95

Bibliografia:
Pereira, Ana Teresa:
1989 — Matar a Imagem. Lisboa, Caminho 1990 — As Personagens. Lisboa, Caminho 1990 — «Imagens». Vértice, IIª série, nº 29 1991 — A Última História. Lisboa, Caminho 1993 — A Cidade Fantasma. Lisboa, Caminho 1993 — «Entrevista» ao Jornal da Madeira, Funchal, 22 de Maio 1995 — «As Asas». Vértice nº 66, Maio /Junho 1996 — Num Lugar Solitário. Lisboa, Lisboa [no prelo]
Magalhães, Rui
1992 — «O jardim da sombras inquietas. Para uma leitura logo—semiótica de Ana Teresa Pereira», Vértice nº 50 — Setembro/Outubro
1995 — «Símbolo, sistema e interpretação. Uma leitura de Ana Teresa Pereira». Revista da Universidade de Aveiro – Letras
Ramos Rosa, António
Dada a vastidão da bibliografia de/sobre o autor, refiro exclusivamente dois artigos em que desenvolvo aspectos que não podem ser abordados no presente texto:
1988 — «António Ramos Rosa – O caminho da materialidade». Revista da Universidade de Aveiro – Letras, nº 4-5, 1992 — «O equilíbrio excêntrico — Aproximação à poética rosiana». Prefácio a Pólen-Silêncio, Porto

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