Histórias de Solidão e Amor

Ana Teresa Pereira: histórias de solidão e amor
Anabela Sardo

publicado na ciberkiosk

I – Narrativas labirínticas

Há características fundamentais que marcam a obra de Ana Teresa Pereira, a saber a sua unidade, coerência e indivisibilidade, pelo que, quando falamos num livro da autora, somos impelidos a passar obrigatoriamente pelos outros.
Cada livro novo reafirma a ideia de que, no conjunto insólito desta obra, as histórias se revelam recorrentes, como se vivessem umas das outras, numa peculiar circularidade que faz com que as personagens se entrecruzem e misturem, transitando de livro para livro com nomes que se confundem.
Do mesmo modo, obsessivamente, se vão retomando temas e tópicos que surgem desde o primeiro livro, Matar a Imagem, que, por esse motivo, se revela como o início de um percurso, por certo labiríntico, jamais abandonado, apenas progressivamente aprofundado.
O labirinto é a imagem feliz que Rui Magalhães escolheu para definir os textos de Ana Teresa Pereira. Chamou-lhes, na obra que escreveu, o labirinto do medo.(1) Pegando nas suas palavras, atrever-nos-íamos a dizer que, com este labirinto, se entrecruzam outros, o que torna a leitura destes livros numa aventura fantástica. É labiríntica, numa constância de sonho ou pesadelo, a forma como se aborda o tema do amor, mas também os outros temas recorrentes, a maneira como as personagens sentem o tempo ou se perdem nos espaços obsessivos e confinados, contudo sinuosos, de uma casa numa ilha, e também o modo como o leitor mergulha no nevoeiro das histórias acabando por se perder, inevitavelmente, em dédalos de intertextualidade e significações.

II – Intertextualidade e significações

A intertextualidade condicionou, desde sempre, as narrativas de Ana Teresa Pereira. Diluem-se, nos textos, citações e evocam-se, continuamente, discursos, mais ou menos ocultos, de literatura, de cinema, de pintura. Numa constante associação, somos assaltados por alusões a poetas e escritores, a narrativas e filmes, a situações e personagens… Com o mesmo sentido de harmonia com que a aranha constrói a sua teia, o pintor junta as cores ou o compositor as notas musicais, a escritora liga e tece enunciados, leituras e estéticas, num jogo plurilinear que nos leva, obsessivamente, às obras e aos autores que as personagens amam e que são, afinal, aqueles que moldam o universo literário de Ana Teresa Pereira e a quem, directa ou indirectamente, dedica os seus livros. Por isso, os protagonistas das narrativas se parecem nostalgicamente com heróis de livros ou filmes, se assemelham a figuras de quadros de pintores famosos e vivem situações que o leitor é levado a filtrar através de um sedutor, mas apenas aparente, jogo de “déjà vue”.

III – Um especial horizonte feminino

Nestas narrativas, Ana Teresa Pereira cria um especial horizonte feminino. As personagens centrais (a personagem) são sempre figuras femininas. O seu corpo, a sua luz e a sua sombra, o esplendor das suas formas obsessivamente descritas tornam-se uma presença constante que anima as trevas com as quais se interligam de forma ambígua.
As personagens femininas convocam, diabolicamente, sombras secretas para meândricas acções perturbadoras que se situam, quase sempre, no plano do símbolo sem que isso diminua a sua mágica sensualidade e um certo poder de ressonância poética.
A figura feminina está, portanto, no centro de todo um mundo de sensações e tem um relacionamento especial com a água, arquétipo da intimidade das substâncias. Surge, normalmente, como uma espécie de deusa, sacerdotisa ou feiticeira, ligando-se às secretas e primordiais forças da vida e da transformação. Os textos sugerem, ainda, um outro papel, (2) o de artífice de intrigas que percorrem enigmas prolongando-se para além dos textos, num tempo sem fim. Nas sua mãos se prendem, por isso, os fios do tempo: “Percebeu de repente que era muito mais velha do que ele, muito mais profunda. Que era ele que passava, que passaria muitas vezes, enquanto ela ficaria ali (…). Uma aranha.” (3); “— Na sua idade… é estranho. Ela riu sem vontade. — Eu sou uma mulher muito velha.” (4)
O desejo manifesta-se na nudez das formas sensuais, meio veladas, num mundo de sensações que criam atmosferas que parecem revelar os sortilégios e as dádivas do Cosmos.
A noite surge como um manto de trevas que envolve as personagens numa luz especial e propicia a intimidade das substâncias, numa procura das energias cíclicas e renovadoras que deverão funcionar como um antídoto para o fatalismo destrutivo do tempo.

IV – Histórias de solidão e amor

Um sentido secreto faz animar as imagens que, em Ana Teresa Pereira, surgem entre o silêncio, a música e a “transfiguração” e fazem emergir a consciência de um nível profundo do inconsciente. Por esse motivo, as palavras dos seus textos são como o tactear de um mistério que anseia por dispensar as palavras. A metáfora amorosa, que se revela na obra, foi ganhando, com o decorrer do tempo, uma maior evidência que acrescenta brilho ao seu enigma. Daí podermos afirmar que o tema do amor é central mesmo quando parece não estar presente.
Perpassa a ideia do amor eterno e também a convicção de que nem sequer a morte pode afastar aqueles que se amam. As personagens sentem que existe uma espécie de pré – determinação à qual é impossível escapar. E esta fatalidade, que as atinge e causa pesar e sofrimento, acrescenta aos textos uma sensação de tragicidade jamais abandonada.
Ao conceito de amor eterno liga-se a intensidade do amor – paixão, metaforizada numa espécie de “fome”, um desejo enorme e mal definido que move a procura da Unidade. A fusão dos dois amantes, num todo, surge como a metáfora de algo que está para além do entendimento e mantém-se, ao longo das narrativas, especialmente até Se Eu Morrer Antes de Acordar.
Controversamente, a par do “desejo sem fundo” (5) que consome as personagens (a personagem), atinge-as, também, uma incapacidade de amar o outro e uma penosa, contudo sempre procurada solidão. Por esse motivo, a vida das personagens acaba, mais cedo ou mais tarde, por ser dominada pelo medo, pelo silêncio e pela solidão.
Pelas suas características intrínsecas, as personagens de Ana Teresa Pereira habitam sempre num universo muito próprio, moldado por uma peculiar leitura da vida, do mundo e do Cosmos. Um universo onde “todas as realidades” (6) parecem confluir, uma vez que a realidade surge, na sua essência, contingente e, por esse motivo, impossível de ser apreendida como um todo.
Vivendo num mundo muito seu, as personagens centram-se em si mesmas e organizam a realidade dentro de determinados esquemas de significação. Este facto impede-as de observar o que as rodeia. Recusando o real, são puxadas, fatalmente para o centro imaginado, numa espécie de perversidade que é aquela que as leva a negar o mundo e o outro. O que atrai fatal e diabolicamente as personagens é o outro de si. A insistência no mesmo surge nos pares de gémeas que aparecem sistematicamente e na personagem que ressurge em cada livro (Tom), acompanhando a obra como uma sombra fugidia.
Cada livro reafirma a ideia de que o que está no centro desta obra é a alma, a interioridade humana em diálogo com a intimidade das coisas. Não admira, portanto, que os textos pareçam, por vezes, auto-retratos e que a mulher se perfile junto a horizontes que se adivinham infinitos.
A escrita de Ana Teresa Pereira situa-se na esfera do desejo e na paixão do invisível no limiar do visível. Os seus textos, horizonte de silêncio e contemplação, vivem animados por imagens que despertam alquimicamente um universo especial que o leitor terá de “desvelar”, como acontece com os últimos livros publicados nos finais do ano 2000.

V – Até Que a Morte Nos Separe e O Vale dos Malditos

“First we dream, then we die” (Primeiro sonhamos, depois morremos), o lema criado pelo “poeta das sombras” William Irish parece guiar a produção literária e, quem sabe, a vida de Ana Teresa Pereira, cujos livros, numa aparente simplicidade, transcendem a limitação do género, interligando universos em histórias de solidão e amor que funcionam, como afirma Rui Magalhães (7), como utensílios de corte do real, do que pensamos ser o nosso real, mas também do que supomos ser o imaginário. Assim, a palavra “encantamento”, que surgia diversas vezes no livro O Rosto de Deus, utilizada para definir a sensação que provocava a escrita de Tom, personagem recorrente, descreve, na perfeição, o efeito que continua a provocar a escrita da autora sobre os seus leitores. É um fascínio absoluto que nos transporta ao longo das narrativas, cuja leitura desperta sensações contraditórias que misturam os mais íntimos desejos e acordam sensações primordiais que vagamente se recordam.
O lançamento de Até Que a Morte Nos Separe, em Novembro de 2000, bem como o Vale dos Malditos, em Dezembro do mesmo ano, quebra, de certa forma, o círculo mágico que fazia a autora escrever, numa espécie de ritual, um livro por ano e que havia sido completado, em Maio, com o lançamento de Se Eu Morrer Antes de Acordar.
Preenche a capa, do primeiro, uma fotografia, a preto e branco, de Cary Grant e Ingrid Bergman em Notorious (Difamação) de Hitchcock. Altera-se, também aqui, a tradição que fazia com que os livros de Ana Teresa Pereira tivessem, em pretexto, reproduções de quadros de pintores que funcionam como referências inultrapassáveis da sua obra. Contudo, só aparentemente esta mudança se revela significativa dado que a Literatura, o Cinema e a Pintura são universos nos quais a escritora se move com à vontade e paixão e são, também, aqueles que, surgindo constantemente interligados, delimitam os horizontes das narrativas, preenchendo a vida e os sonhos das personagens, “E os filmes tinham sido tão importantes na sua vida. Talvez porque não tinha mais nada. Só os livros. Mas os livros também eram filmes (…)” (8), modelando as suas características, ” — Mas eu sei que foste pintada por um pré-rafaelita.” (9), matizando os espaços em que se movimentam, “— É uma casa de contos de fadas?” (10), “(…) nunca mais poderia ver uma alameda de rododendros sem se lembrar de Manderley.”(11)…
Ana Teresa Pereira dedica Até Que a Morte Nos Separe ao realizador de westerns Nicholas Ray e ao escritor William Irish (Cornell Woolrich) que paira nesta história, como noutras da autora, nomeadamente logo no seu primeiro livro Matar a Imagem: “E William Irish… Eu era ainda menina quando lera If I Should Die Before I Awake” (12) e em Se Eu Morrer Antes de Acordar, que tem exactamente o título do conto de Irish, publicado em 1937.
A ficção de William Irish estava no centro do que passou a ser conhecido, nos anos 40 e 50 do século XX, por “noir style” da literatura e do cinema. Neste tipo de trabalhos, o protagonista é intimidado por ameaçadoras e poderosas forças do mundo que o cerca. Tem de lutar para sobreviver no sinistro labirinto de um universo que tem dificuldade em compreender e controlar. Na ficção de Ana Teresa Pereira, a luta da personagem é travada constantemente com o seu próprio eu, “o outro lado”, o lado negro: “— Pareces um anjo. Um anjo negro”. (13) As personagens são ainda marcadas pela crença na existência de outras (todas) as realidades, “Tinha a impressão de estar numa outra realidade, (…)” (14), e não meramente naquela que todos vemos.
Até Que a Morte Nos Separe narra um crime impossível provocado por um outro crime do passado e transforma-se, afinal, numa novela de mistério em que a heroína, também ao gosto de Irish, é uma jovem e bela mulher. Patrícia decide vingar-se de Tom Stuart que nunca tinha querido ser outra coisa para além de detective, “Ou talvez, sim. Cowboy (…)”. (15) Conta-se um crime imperfeito que mantém, até ao final, o carácter ambíguo e indecifrável de uma parte dos acontecimentos e junta à intriga enigma e o fantástico dos contos de fadas e das lendas que criam momentos de “irrealidade” (16), mantendo o mistério indesvendável numa trajectória de sonhos, de vazios e de medos onde se esboçam os limites e os sinais subversores do eu, simultaneamente carrasco e vítima de uma misteriosa história de solidão e amor que termina num estranho e “escuro The End” (17).
É uma história de amor que mostra que o amor é maior quando a solidão é desmedida, que podemos ser apenas quase felizes, mas que o fim é inevitável … “Quando o amor acabar…” (p.13), “porque tudo na vida tende para o círculo, e nós não podemos fugir”.
Não abandonam a intriga nem o mistério nem o horror que leva duas pessoas a amarem-se para além de tudo, para além de todos os fantasmas, “até à morte” (18). Com a publicação de O Vale dos Malditos, Ana Teresa Pereira concretiza um desejo antigo, escrever um western. O livro surge como um “pastiche” nostálgico da literatura do género (incluindo uma capa “kitsch”, elaborada sob modelos da colecção Califórnia). Contudo, nele reaparecem a simbologia e uma série de obsessões que caracterizam particularmente a escrita da autora tornando-o um western peculiar.
Tom Stuart é, aqui, um cowboy/índio singular que acredita que “tudo no universo estava escrito, ou antes era uma escrita” (19), lê e recita William Blake: “To see a world in a grain of sand/ and a heaven in a wild flower” (20) e sente-se um com o mundo: “sentiu que o mundo os envolvia, as montanhas e os rios, os seres com pernas, os que têm asas, os que têm raízes, os vivos e os mortos e os que ainda não nasceram.”.(21) E Duas Balas, o pistoleiro de que se fala desde o início, é afinal Stella, a mulher que acaba por ter, nas suas mãos, o futuro das outras personagens: “— Stella. — Sim. — Quero saber porquê. — Por tua causa”.(22)

Notas

1. Rui Magalhães, O Labirinto do Medo: Ana Teresa Pereira.
2. De acordo com a lógica do imaginário estudada por Gilbert Durand na obra Structures Anthropologiques de l’Imaginaire.
3. Ana Teresa Pereira, A Noite Mais Escura da Alma, p. 153.
4. Ana Teresa Pereira, Até Que a Morte Nos Separe, p. 24.
5. Ana Teresa Pereira, As Rosas Mortas, p.180.
6. Ana Teresa Pereira, O Rosto de Deus, p. 191.
7. Rui Magalhães, O Labirinto do Medo.
8. Até Que a Morte nos Separe, p. 53.
9. Idem, p.46.
10. Idem, p. 47.
11. Idem, p. 53.
12. Matar a Imagem, p. 22.
13. Até Que a Morte Nos Separe, p. 31.
14. Idem, p. 47.
15. Idem, p.34.
16. Idem, p. 72.
17. Idem, p. 100.
18. Idem, p. 97.
19. O Vale dos Malditos, p. 58.
20. Idem, p. 52.
21. Idem, p. 75.

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