Entrevista Jornal de Letras

Jornal de Letras, Artes e Ideias
Ano XXVIII / N.º 988
13 a 26 de Agosto de 2008

 

Ana Teresa Pereira
O outro lado do espelho

Maria Leonor Nunes

 

No Outono sairá O Verão Selvagem dos Teus Olhos, o novo livro que está a escrever e que agora “contamina” os seus dias. E até esta entrevista, feita por mail, como adianta, também ela implicada na ficção, resposta a resposta, ou no constante jogo de espelhos que é o mundo de Ana Teresa Pereira. Entretanto, publicou O Fim de Lizzie, duas histórias, o mesmo cenário, as mesmas personagens para um ponto de vista sobre a obra de uma das mais fantásticas escritoras contemporâneas.

 

Repetidas vezes, as personagens entram em cena nos seus livros, passando algumas de história para história. A sua escrita é um fabuloso teatro. De duplos, de identidades, de obsessões, de lugares comuns como a casa antiga, o mar ou o nevoeiro. Ana Teresa Pereira, 49 anos e mais de duas dezenas de títulos publicados em quase duas décadas, pensa mesmo em determinados actores quando cria as suas personagens. Os seus livros são cada vez mais feitos à imagem do cinema e inevitavelmente do seu próprio mundo. Nunca separou a sua vida do que escreve. Duke Ellington é a banda sonora do seu próximo romance, que se vai chamar O Verão Selvagem dos Teus Olhos, seguindo o verso do poeta irlandês Yeats.

O mundo de Ana Teresa Pereira não é, de resto, isento de qualquer coisa de insular. Nasceu em 1958, no Funchal, onde vive, afastada dos centros literários. Não vai em alardes promocionais, não é uma presença constante, nem sequer sazonal, nas páginas dos jornais e revistas. Não figurará no rol dos escritores mais ou menos malditos que se recusam a ser entrevistados e fotografados, mas não se livra de uma certa fama de bicho-do-mato. E a sua escrita é verdadeiramente uma ilha na ficção portuguesa. Estreou-se em 1989, com Matar a imagem, que ganhou o Prémio Caminho Policial, mas a sua obra cruza também o fantástico ou o western. Até mesmo uma incursão na Literatura Infantil, experiência qu hoje parece não rever com agrado. É sem falsas modéstias que afirma que o que escreve é em si “um género”. E assiste-lhe a razão.

Feliz o instante em que decidiu largar o curso de Filosofia para se dedicar inteiramente à escrita.  E nunca quis outra coisa que não fosse escrever. Ao correr do tempo, criou uma obra singular e inquietante, um estilo claro e reconhecível, um lugar único na Literatura Portuguesa. As personagens, A Última História, Num Lugar Solitário, Fairy Tales, A Noite Mais Ecura da Alma, A Cidade Fantasma, A coisa que eu sou, As rosas mortas, O mar de gelo, O rosto de Deus, Quando atravessares o rio, Até que a morte nos separe, Se eu morrer antes de acordar são alguns dos seus livros. Recentemente acrescentou-lhes O Fim de Lizzie, uma edição da Relógio d’Água (144 pp, 8 euros), em que juntou duas histórias já anteriormente publicadas. Liga-as o mesmo elenco, o mesmo cenário e o mesmo clima de todas as narrativas de Ana Teresa Pereira que, aliás, já anseia voltar ao Kevin e à Lizzie, personagens dessas histórias, como a Kate ou o Tom, que vêm de outras, nesse eterno retorno de que se faz a sua literatura. E pelo caminho, quem sabe, poderá também escrever um livro sobre cinema. A epígrafe será de Truman Capote: “Gosto de ti porque és tonta e só sabes da vida o que aprendeste nos filmes.” Mas não faz planos, assegura, porque “cada escritor tem os livros contados”, como já escreveu num dos seus romances.

 

Jornal de Letras: Ao fim de 20 anos de Literatura e de duas dezenas de livros publicados, construiu um universo ficcional raro, singular, inquietante e reconhecível: Qual o seu mistério?

Ana Teresa Pereira: Há escritores que tentam reproduzir o mundo exterior, outros que têm um mundo próprio. Eu acho que sempre tive facilidade em aceder ao meu mundo interior. O outro lado do espelho. O tempo, o espaço e a identidade não têm qualquer consistência. As leis são as do inconsciente, a omnipotência do pensamento, a compulsão à repetição. O efeito pode ser “unheimlich”, algo que deveria ficar escondido mas vem à luz. Nunca separei a minha vida da escrita. Acho que o escritor deve dissolver-se naquilo que escreve. Nenhuma separação, ainda que se torne perigoso.

 

Em que sentido?

O livro que estou a escrever, O Verão Selvagem dos Teus Olhos, (um verso de Yeats), contamina a realidade, os meus sonhos, esta entrevista.

 

O escritor volta sempre ao local da criação, das histórias, das personagens que cria?

Sempre voltei aos livros e aos filmes. O vale maldito de Enid Blyton, a casa na árvore de A Harpa das Ervas, o banco de madeira que surge em vários contos de Henry James. A rua escura onde Lillian Gishe Robert Mitchum cantam o mesmo hino, a casa de Londres onde Ingrid Bergman enlouquece aos poucos, enquanto Charles Boyer se afasta no nevoeiro, o hotel de S. Francisco onde Kim Novak volta de entre os mortos para os braços de James Stewart. Acontece o mesmo com os meus livros.

 

O que a faz voltar sempre aos lugares da sua ficção?

Eu estava apaixonada por O Mar de Gelo, as personagens, os lugares, a atmosfera, e tinha de voltar. Estava apaixonada por Tom, queria vê-lo mover-se, agir, falar. Sentia a falta de Kate, a sua forma de andar, a sua paixão, até o seu perfume. E voltei àquele mundo em Quando atravessares o rio. Já tinha acontecido antes.

 

As duas histórias de O Fim de Lizzie já tinham sido publicadas? Por que razão as quis juntar neste livro? São a mesma realidade, a mesma história?

Gostava muito de Numa manhã fria. O prazer de contar uma história, na verdade duas histórias que se excluem uma à outra: se Kevin tem razão, a história de Lizzie é falsa, e vice-versa.

 

A questão é do ponto de vista?

Há duas realidades possíveis e nunca sabemos qual delas tem a ver com o mundo exterior. Eu mesma não o sei, ainda que tenha uma ideia. Como em A Volta do Parafuso, de Henry James, temos somente o ponto de vista de uma personagem, e não fazemos ideia do que está realmente a acontecer. Depois, escrevei O Fim de Lizzie. As mesmas personagens, o mesmo cenário, e de novo o ponto de vista de Kevin. Não sabemos a partir de que momento ele começa a alucinar. Mesmo se alguém está a enlouquecer, essa é a sua realidade. Posso continuar a escrever estas histórias indefinidamente. Também me interessa a fragmentação da identidade. Há quatro personagens, mas talvez sejam só três, ou duas, ou talvez Kevin esteja sozinho em Wistaria Hall e tudo o mais seja o seu sonho. Sozinho num mundo povoado pelas suas criaturas. Um mundo sem fronteiras visíveis entre a realidade e a alucinação.

 

O que lhe interessa na desdobragem ou na ideia de duplo, muitas vezes presente nos seus livros? A questão da identidade é para si central?

O duplo, a fragmentação da identidade, estiveram sempre lá. Nos meus últimos livros, O Mar de Gelo, Quando Atravessares o Rio, quando as personagens não estão a representar, não estão a escrever, não fazem a menor ideia de quem são. É quando estão a trabalhar, quando fingem ser outra pessoa, que têm um vislumbre de quem realmente são.

  

A impossibilidade do amor, é sobre isso que essencialmente falam as suas histórias? Ou na mesma medida da impossibilidade da realidade e da compreensão do mundo?

Eu não sei (não faço a menor ideia) de que falam as minhas histórias. Não me diz respeito. As personagens existem, e caminham, e perseguem-se, e procuram alguma coisa, a identidade perdia, a redenção, talvez. E depois há o inconsciente do livro, o livro é algo de vivo, com uma existência própria, atravessado por correntes subterrâneas. Eu limitei-me a escrevê-lo.

 

Tudo se joga sempre entre a realidade e o sonho? De outra maneira, entre a realidade e a ficção?

Orson Welles disse que um escritor é como um actor, entra na pele da sua personagem e alimenta-a por dentro. Quando estamos em total sintonia com o livro, a realidade começa a ceder. É de magia que estamos a falar.

 

Um jogo de máscaras

 

Há personagens que deambulam pelos seus livros, passam de história em história, e sendo as mesmas são outras e sendo outras são as mesmas? Porquê?

Em especial nos últimos anos, os meus livros são muito cinematográficos. Tenho um pequeno grupo de actores, e eles representam as personagens, de certa forma são as personagens. Kevin é Kevin Bacon, Lizzie é Michelle Pfeiffer no tempo de Os Fabulosos Irmãos Baker. Um pequeno grupo de actores que passam de um livro para o outro, como se trabalhassem num teatro, sempre o mesmo; de vez em quando lembram-se da peça que representaram antes; como o velho actor de The Dresser, pintam a cara de negro para representar o rei Lear. E vão continuar a representar, mesmo quando eu não estiver aqui. Talvez repitam as mesmas peças, noite após noite, após noite.

 

Será por acaso que tem um livro chamado As personagens? As personagens são fundadoras do seu universo literário? Que relação mantém com elas?
É uma relação estranha, a que tenho com as minhas personagens. Nos últimos anos conheci dois actores que são actores nos meus livros. Gabriel Byrne e Jeremy Irons. O primeiro de uma forma muito estranha, ficámos ao lado um do outro num teatro de Londres, quando eu estava a escrever Se Nos Encontrarmos de Novo, em que ele era o protagonista. E Jeremy Irons estava a representar Embers quando escrevi Quando Atravessares o Rio. O livro já existia, a trama não mudou nem um pouco, mas eu não consigo imaginá-lo sem o encontro com “o meu Tom” na vida real.

 

Transfere para elas alguma coisa de autobiográfico?

É um lugar-comum, mas tudo o que escrevemos é autobiográfico. E se não temos os actores para representar os outros papéis, arrancamo-los de nós mesmos. É um jogo de máscaras e de espelhos, e é sagrado.

 

Qual foi a primeira personagem da sua escrita? Ainda a visita?
Um homem velho numa biblioteca; uma rapariga que se perde nas ruas numa noite de nevoeiro e encontra uma loja ainda aberta.

 

Há outras “personagens” que atravessam os seus livros: a casa, o nevoeiro… Porquê?

Há pouco tempo reli Rebecca, de Daphne du Maurier, e tive, mais uma vez, a impressão de voltar a um lugar que conheço muito bem: a alameda de rododendros, o quarto fechado onde alguém  muda as flores das jarras todos os dias, a enseada com a casa de barcos. Acontece o mesmo com alguns dos meus contos. Há lugares que já existem dentro de nós, Gaston Bachelard escreveu sobre isso, nós subimos sempre a escada que leva ao sótão, descemos sempre a escada que leva à cave, o quarto no fundo do corredor tem sempre três degraus…

 

Em que medida são reflexo da sua geografia pessoal?

Estes lugares têm a ver com a infância. Se há neve, e nevoeiro, e casas misteriosas na nossa vida e nos nossos primeiros livros, ficamos marcados para sempre.

 

A ideia de criação é também muito presente: por que razão muitas das suas personagens escrevem, pintam? É um outro jogo de espelhos?

As minhas personagens fazem aquilo que me interessa, aquilo que compreendo melhor. E de certa forma criam-se umas às outras e ao que as rodeia, “they do it with mirrors”. Estão apaixonadas pela beleza das superfícies, mas conhecem profundamente o lado escuro das coisas.

 

É certo que se deve “amor” ao que se cria? É essa a relação com a sua escrita?

Quando era criança, só me interessavam os livros em que o autor gostava das personagens. O que me fazia gostar muito de Enid Blyton e detestar a Condessa de Ségur. Eu não mudei muito. É um dos motivos porque amo os “meus” escritores e desprezo quase toda a ficção portuguesa. Mesmo quando escrevemos sobre um criminoso ou um monstro, teos de sentir alguma ternura por ele, alguma compreensão, afinal ele está em nós.

 

Aprender com Borges

 

Por que é que a pintura ou a música são tão fortes no seu universo?

Pintura, música, cinema. Sempre foram.

 

Também pinta? Qual a sua relação com a pintura?

Não tenho qualquer talento. Mas quando o faço sou ainda mais obsessiva do que ao escrever.

 

A pintura de Kokoschka representa bem a sua atmosfera literária?

Gosto muito de Oskar Kokoschka. Acho que a mente de Kevin se parece com aquelas pinturas. Rothko, a certa altura. Whistler. Uma personagem de Quando Atravessares o Rio viajava para ir ver os quadros de Van Gogh em Amesterdão, os quadros de El Greco em Madrid. Eu compreendo isso.

 

E a música? Variações Goldberg são da sua preferência? Bach? Os outros? Ouve música enquanto escreve?

Nos últimos tempos, quando imagino os meus livros, é como se estivesse a preparar um filme. Há os actores (e quando um actor substitui outro, tudo muda à sua volta), os cenários e a banda sonora. Muitas vezes, são bandas sonoras de filmes. Em O Mar de Gelo a banda sonora de Million Dollar Baby, em Quando Atravessares o Rio a de Pride and Prejudice. No livro que estou a escrever agora, Duke Ellington.

 

Nos seus livros também há um rasto permanente de outros escritores.

De certa forma, queremos reescrever os livros que nos tocaram. No meu caso, A Aventura no Vale, A Intrusa, A Volta d Parafuso, A Árvore da Noite…  E os filmes, A Noite do Caçador, Matar ou Não Matar, À Meia Luz, Vertigo… E como não é possível, a não ser que nos transformemos em Pierre Menard (e mesmo ele não conseguiu), criamos um mundo que nunca existiu antes, onde nos podemos oerder de novo, e ser felizes, ou infelizes, como fomos uma vez.
O seu lastro literário é essencialmente anglo-saxónico: porquê?

Borges dizia que tinha nascido numa biblioteca inglesa. Eu também. Não sei se é visível a importância que Borges teve para mim, aprendi com ele a escrever sobre livros que não existem, sobre filmes que não existem. Uma vez escrevi uma crónica sobre ele e mencionei um livro que não existia, e creio que ninguém deu por isso.

 

Já experimentou o policial, o fantástico, a literatura infantil: sente necessidade de experimentar diferentes registos? Qual aquele em que se sente mais à vontade?

Pode parecer pretensioso, mas acho que os meus livros constituem um género.

 
Há quem detecte uma marca «gótica nos seus livros. Concorda?
Talvez. No filme Sunset Boulevard, quando William Holden segue pela alameda que leva à mansão, está a passar para um mundo diferente. Acho que isso acontece nos meus livros. Uma velha casa com um lago (ou uma piscina) à frente, duas casas iguais em frente uma da outra, uma biblioteca com uma lareira acesa, duas ou quatro personagens…
 

Também há quem a considere sobretudo uma escritora de policiais: assenta-lhe a classificação?

Eu gostava muito. Mas nunca poderia escrever um livro tão com como O Enigma da Cripta, de John Dickson Carr, A Mulher Fantasma, de William Irish, A Máscara da Desonra, de Minette Walters.

 

Livros feitos de tempo

 

Quando começou a escrever? Ainda na infância?

Não me lembro de um tempo em que não escrevesse. Comecei a ler muito cedo e escrevia aventuras, histórias policiais, westerns. Era um jogo como os outros.

 

O que a levou a estudar primeiro Filosofia? E depois a trocá-la definitivamente pela escrita?

Compreendi que tinha de fazer muitas coisas diferentes, ter experiências diferentes, antes de ser escritora. Mas sempre quis escrever.

 

Escreve sempre, todos os dias?

De forma alguma. Marguerite Yourcenar disse que o essencial não é a escrita, é a visão. Mas para merecermos a visão é preciso muito tempo. Os livros são feitos de tempo. Temos de ler, ver filmes, amar alguém ou alguma coisa, viajar, quem sabe encontrar as nossas personagens… e, acima de tudo, esperar. É preciso descer muito fundo para chegar ao lugar onde o livro se forma. Quando me sento para começar a escrever, o livro já está terminado mentalmente.
É a literatura que a ajuda a «atravessar a noite?
Os livros, os filmes. Quando comecei a escrever, pensava que os meus livros iam ficar, que iam ser traduzidos, enfim… Agora sei que isso não vai acontecer. O Cristopher Hampton não vai escrever uma peça baseada num livro meu, o David Cronenberg não vai fazer um filme… Talvez não passe o resto da minha vida a escrever, mas a fazer outra coisa. Mas continuarei a ler Richmal Crompton e William Irish, e a ver os filmes de Nicholas Ray e Hitchcock. Para atravessar a noite.

 

Porque escolheu viver no Funchal?

Acho que viver no Funchal é melhor do que viver em Lisboa. Na verdade, gostava de passar o resto da minha vida noutro país, a Irlanda, por exemplo.

 

Parece isolar-se deliberadamente na sua ilha, afastando-se da chamada vida literárias. Parece também avessa a todas as artes do marketing, aos lançamentos e palestras: porquê? É uma escritora enigmática ou simplesmente preza a discrição?
A vida é demasiado curta para fazer coisas que não me agradam.”