Entrevista Jornal da Madeira 2007

Ana Teresa Pereira confessa-se «Continuo apaixonada por este livro…» / entrevista ao Jornal da

«Continuo apaixonada por este livro…»

«Quando Atravessares o Rio» (Relógio d’Água 2007), é o novo título de Ana Teresa Pereira. Uma revelação em vários sentidos. Da própria escritora que diz estar «apaixonada pelo que escreve»; e do próprio livro que continua personagens e liga capítulos entre romances.

A notoriedade de Ana Teresa Pereira vem desde 1989, quando publicou o primeiro livro – «Matar a Imagem». Com regularidade, quase todos os anos, escreve romances e contos que habituaram os seus fiéis leitores a uma expectativa grande e distinguiram esta escritora (nascida no Funchal) com alguns prémios nacionais. A propósito do seu mais recente título – «Quando Atravessares o Rio» (Maio de 2007), a autora fez à OLHAR algumas considerações sobre o «ofício da escrita» e revelou aspectos do seu conteúdo.

«É um livro com o qual tenho uma ligação muito forte, talvez porque vivi com ele durante mais de um ano antes de o escrever. Faltavam algumas coisas… A cidade onde tudo começa: pensei em Paris, mas Paris não tem nada a ver com os meus livros; depois em Praga; e depois tornou-se evidente que era Amesterdão, tinha de ser Amesterdão, e naquela altura do ano», explica. «Também havia uma peça de teatro… Eu pensava em Ibsen, «A Senhora do Mar», talvez. Depois descobri que era uma peça de Christopher Hampton… Só podia ser aquela peça, aquele teatro, aqueles actores…»

A escrever ou a falar, Ana Teresa Pereira pensa as palavras, pausadamente, como se estivesse a saborear a vivência do momento e porque entende que a escrita não se compadece com simples vontades ou disciplina programada. Mais do que isso, escrever é morrer para dar vida a um livro que nasce por dentro. «É muito misteriosa a forma como surge um livro. Mesmo quando temos um plano inicial (e eu acho que é absolutamente necessário ter um plano inicial) há coisas que vão surgindo pelo caminho. Mas é necessário que o escritor esteja em plena sintonia com o livro. Que a vida e a literatura sejam uma única coisa. Não acredito em escritores que se sentam à secretária às nove da manhã e trabalham até à uma; e depois passam o resto do dia normalmente, como se nada tivesse acontecido. Escrever um livro tem a ver com paixão, com entrega. Morrer um pouco para que o livro possa existir.»

Do seu último livro – «Quando Atravessares o Rio», disse à OLHAR: «Acho que num certo sentido este é um livro profundamente religioso. É um livro sobre a possibilidade de redenção. Não é por acaso que um dos capítulos se chama Nostalgia, como o filme de Andrei Tarkovski. Tarkovski, como outros escritores russos, acreditava que toda a arte é religiosa. Que um filme, um poema ou um quadro podem ser uma oração. E isso faz sentido mesmo quando não se acredita em Deus.

É também um livro sobre arte, neste caso a literatura e o teatro, e aquilo que têm de efémero e, portanto, de infinito. É uma história de duplos, eu sempre gostei de histórias de duplos.

E é um livro que fala de outras coisas muito importantes, a chuva e a neve, as flores e os cães. Disseram-me há dias que é um livro cheio de flores e de cheiros. Como todos os meus livros. E gosto de pensar que tem muito de cinematográfico. Porque as imagens sempre me apaixonaram.»
Um livro que continua a estória de outros livros, como numa ligação umbilical, até com o próprio leitor que assim a pode ler de vários modos. «Gosto de pensar que é um livro enigmático. Que cada pessoa o lê de uma forma diferente. Enfim, penso que é visível que continuo apaixonada por este livro. Não há qualquer distância. Este livro nasceu de «O Mar de Gelo», talvez exista porque não me desprendi de «O Mar de Gelo». As personagens são as mesmas, há um capítulo que liga os dois livros… “Trabalhamos no escuro”, como escreveu Henry James.»

Vera Luza

Jornal da Madeira, Suplemento / Revista Olhar / 2007-06-30