Entrevista Jornal da Madeira 1993

Entrevista ao Jornal da Madeira, 22/05/1993
Eu escrevo contos de fadas

Desenganem-se os que esperam doçuras e palavrinhas mansas. A nossa entrevistada não gasta disso. Colecciona saberes ásperos, limados, brilhantes. Detesta o relaxado pulsar do que é supérfluo. Ambiciona o essencial. Só isso. Mas não a imaginem cerrada na torre dos humores ínvios. Ela crê que a criação desperta a gentileza e a ternura num mundo que está pouco para isso. Ana Teresa Pereira tem trinta e quatro anos. leu já duas vezes todos os livros que gostávamos de ter lido. Sabe de cor os melhores filmes que se fizeram. Escreveu nove livros, todos muito belos. Temos-lhe uma inveja de morte.

O seu último romance, «A Cidade Fantasma», chega agora aos escaparates.

JORNAL DA MADEIRA – Quando disse a algumas pessoas que a ia entrevistar, ficaram espantadas. Pensavam que você não morava cá, mas em Lisboa.

TERESA PEREIRA – Isso é bom.

J. M. – Bom porquê?

T. P. – Porque se a Madeira é um dia de Primavera como este ou um estado de quase fusão com o mar, então a Madeira é uma pátria. Como é uma pátria um quadro de Mark Rothko ou um filme de Nicholas Ray.

Se a Madeira é uma sociedade, nesse caso eu não quero pertencer a ela. E quero mesmo a maior distância possível.

J. M. – Não gosta de sociedades ou não gosta desta em particular?

T. P. – Não me dou em sociedades. Sou um lobo solitário. E desta não gosto particularmente, porque é vazia. E eu, por azar, tenho horror à superfície quando não existe nada atrás.

Anjos

J. M. – Porque é que nos seus dois últimos livros («A Casa do Nevoeiro» e «A Cidade Fantasma») fala abundantemente de anjos?

T. P. – Não me interessa a escrita como processo racional. Olho para ela como aventura no desconhecido, um afundar-se, perder-se… De algum modo sinto que os anjos têm a ver com tudo isto.

J. M. – O que é que os «anjos» trazem ao mundo?

T. P. – Luz, água, sangue. O branco, o negro. A carne, o vazio, a beleza e o terror.

J. M. – Tudo dádivas contrapostas, ambivalentes…

T. P. – Mas os anjos são ambivalentes. É impossível separar a beleza do terror, a vida da morte. Por isso é que, como Rilke dizia, «todo o anjo é terrível».

J. M. – Mas nesse verso, parece-me, Rilke está a citar os «dias (bíblicos) de Tobias» em que os anjos não são terríveis, porque portadores de «ambivalências», mas porque a sua fulgurante unidade não pode ser abarcada pela ambivalência do humano.

T. P. – (Ri-se e diz) Eu fui a primeira pessoa do mundo a ler as Elegias de Rilke. Não encontrei lá nada disso.

J. M. – Porque é que, no seu romance, os anjos nunca têm rosto?

T. P. – Simplesmente porque os anjos não têm rosto. Alguém tem rosto, porventura?

J. M. – Então o que é que em nós olha, se não temos um rosto?

T. P. – Permita-me que cite Lacan. «Tu não me vês do lugar onde te olho».

J. M. – Na «Cidade Fantasma», para falar de anjos usa um livro judaico apócrifo, «Apocalipse de Henoch».

T. P. – Uso-o porque ele é um reflexo da história que o meu livro conta. Ou o meu livro é um reflexo dele. E uso-o porque essas linhas vieram ao meu encontro. Como os quadros de Rothko vieram ao meu encontro para a novela que estou agora a escrever.

J. M. – O que é que faz com que textos, fragmentos, imagens a procurem?

T. P. – Não sei, nem me interessa. Isso é o meu mistério, a minha magia. Não me interessa explicá-los. E quando finjo explicar, é sempre para dissimular um pouco mais.

Eu escrevo contos de fadas

J. M. – Tom Stevens é um personagem recorrente nos seus romances.

T. P. – Tom não é um, é o personagem.

J. M. – E Tom é um escritor?

T. P. – Eu só sei escrever sobre escritores. Acho que não consigo imaginar a vida das pessoas que não escrevem, que não lêem.

E, também, um dos meus temas é a própria escrita, a criação literária.

J. M. – O que é um pesadelo?

T. P. – É um dia carregado de humidade e nevoeiro, como o de ontem. Quando não conseguimos sair de nós próprios. Quando estamos naquele ponto em que essa é a única imagem que nos resta e não gostamos dela. Quando o outro é um monstro e não gostamos dele também.

J. M. – Como Tom Stevens, o personagem de todos os seus romances, considera-se uma escritora de pesadelos?

T. P. – Eu?!! (finge espanto) Mas eu acho que escrevo contos de fadas.

J. M. – Flaubert dizia «Madame Bovary c’est moi». Você pode dizer o mesmo de Tom?

T. P. – E os outros personagens que há no livro quem são?

J. M. – Quase não se dá por eles. É como se tudo fosse habitado apenas por um único personagem.

T. P. – É verdade. Nos meus livros só há um personagem. Um, que, por vezes, surge dividido em quatro ou duas personagens.

Sabe, no fundo, eu acho que só é possível escrever sobre si próprio. A escrita é como os sonhos. Só se sonha sobre si próprio, consigo próprio. Depois, existem «disfarces». Mas estes «outros» têm sempre a ver com o «eu» que escreve.

J. M. – Tom escreve histórias do Oeste, literatura de cordel. Que relação existe entre a chamada «grande literatura» e a «literatura de cordel»?

T. P. – Isso é muito complexo. (pensa um pouco) Quando, no meu romance, falo na literatura de cordel, penso unicamente num autor. Até porque os outros não me interessam.

Interessa-me o mistério da escrita desse autor, que com uma economia extrema de meios consegue transmitir emoções fortíssimas. Uma escrita onde as imagens saem em bruto, com uma intensidade fantasmagórica vizinha do insustentável.

Eu acho que tenho esse desejo de concisão. Desejo transformar um romance numa novela. Uma novela num conto. Um conto numa página. Uma página numa palavra.

J. M. – E uma palavra em?

T. P. – Boares ensina-nos que no fim restam só as palavras. Porque quando se encontram as palavras verdadeiras, as coisas que elas representam desaparecem.

J. M. – Não lhe mete medo um mundo só de palavras?

T. P. – O mundo, já assim, mete medo se nós pensarmos um bocado nele.

As casas

J. M. – Este seu romance é também um romance sobre casas.

T. P. – Eu escrevo sempre sobre casas.

J. M. – Isso tem a ver com o medo do mundo?

T. P. – Estou-me a lembrar de um conto de Julio Cortazar, chamado «O Perseguidor». O protagonista é um músico. Parece primeiro que ele se fecha dentro da música para fugir ao mundo. Mas depois descobre-se que ele não foge, ele persegue.

Isto para dizer que fechar-se numa casa não é, necessariamente fugir ao mundo. Pode acontecer que seja exactamente o contrário. Refugiar-se numa casa pode ser perseguir, explorar…

J. M. – Debaixo das casas o que há?

T. P. – Água, sempre.

J. M. – Água negra?

T. P. – Depende. Por vezes é água negra. Por vezes é água límpida com nefúfares, e com música lá dentro.

J. M. – O que é uma casa abandonada?

T. P. – É uma imagem interior. Uma imagem que me agrada.

Agrada-me viver a vida por dentro. Ver o mundo por dentro. É sobre isso que eu escrevo. Mesmo a criação literária gosto de vê-la por dentro.

J. M. – E o que é um amor abandonado?

T. P. – Só tenho um amor. E, como o Drácula, atravessaria oceanos de tempo para reencontrá-lo.

Sobreviventes

J. M. – Você dedicou um dos seus livros, “A casa dos pássaros”, «ao Padre Edgar e às crianças sem histórias».

T. P. – Porque me toca a vida daquelas crianças. Não são, para dizer a verdade, crianças sem histórias, mas crianças com outras histórias. Histórias terríveis.

São crianças que começam a brincar aos adultos demasiado cedo. E perdem as histórias felizes. Mas elas têm muita força. Não são coitadinhos, são sobreviventes.
Acho que elas têm mais dignidade humana do que os que estão sentados no café a falar de futebol e da vida dos outros, daqueles que estão a permitir a destruição da Madeira e vão para a televisão falar de ambiente. Aquelas crianças são mais autênticas. Mesmo que mintam. Mesmo que roubem. São gente. Não são simulacros de qualquer coisa.

Dedicar-lhes o livro foi um gesto de afecto.

J. M. – Foi um gesto político?

T. P. – Também.

J. M. – Porque é que não faz parte da Associação dos Escritores Madeirenses?

T. P. – Porque deveria fazer? Não faço parte de qualquer tipo de Associações. Gosto de estar só. E esta é também uma escolha política, se quiser.

Entrevista de Tomás Maço
Jornal da Madeira. Revista, 22/05/1993