Ana Teresa Pereira: O ponto de vista dos demónios

Ana Teresa Pereira: O ponto de vista dos demónios

21 Agosto 2008

O Ponto de Vista dos DemóniosAna Teresa Pereira é um caso único na literatura portuguesa. Ao longo de quase vinte anos, de vários livros de crónicas e contos, romances e histórias policiais, aquilo que poderia inicialmente ter sido confundido com um sistemático recurso às mesmas soluções literárias, inclusive à repetição objectiva de enredos e personagens, pode afigurar-se como um denso e grandioso projecto literário, possivelmente sem par na literatura contemporânea portuguesa, ainda que a sua escrita seja despretensiosa, acessível, de uma simplicidade ora desconcertante ora irritante, sem grandes artifícios estilísticos. Como um iceberg do qual nos primeiros tempos só nos foi dada a conhecer a ponta emersa à superfície da água, e cujo corpo gigantesco submerso só muito depois nos começa finalmente a ser revelado. Mas os livros de Ana Teresa Pereira não se prestam a ser em absoluto deslindados. São dotados de uma atmosfera peculiar, em que tudo se vislumbra mas nada se ilumina claramente, e por isso seguimos apaixonadamente pela perpétua recriação de cenários, personagens, sentimentos, obsessões. Ler Ana Teresa Pereira terá também necessariamente que ser um projecto de vida, que não se esgota num determinado tempo previsto, passível de ser circunscrito. É um mistério no qual o leitor não poderá evitar envolver-se, enredar-se, e que vai desvendando pouco a pouco, livro a livro. Qual é ao certo a natureza do projecto literário de Ana Teresa Pereira, ainda não sabemos. Mas pelo menos aqui, aguardamos com fascínio e entusiasmo.

Desde os primeiros livros (por exemplo, As Personagens, 1990) há temáticas reincidentes, como as personagens dúplices, frequentemente retratadas como gémeas, evocando a questão do duplo, das almas gémeas, … Há também uma história que se repete, transversal a praticamente todos os livros da autora, passível de ser reconhecida pelos nomes ressurgentes das personagens e pelo contexto em que se relacionam umas com as outras. Um homem mais velho, misterioso, com algo de anjo ou demónio, um rosto antigo, reconhecido, como o rosto de deus, que se chama sempre Tom. Uma mulher mais nova, magra e bonita, escritora ou pintora, destinada a encontrar esse homem e viver com ele um amor intenso e algo torturado, do qual nenhum dos dois sairá impune. Por vezes, a presença de uma segunda mulher, que se confunde com a primeira, que se quer tornar nela, como um fantasma que nos dificulta a distinção do que é real. O tom é o de uma história desenhada desde a criação do mundo, e que se repete perpetuamente até ao fim dos tempos.

O cenário é marcadamente romântico, com grandes influências dos romances ingleses de mistério e terror: uma casa com jardins magníficos, um castelo em ruínas, um farol, uma torre à beira-mar, umas águas-furtadas em Londres, passeios por cidades europeias onde há um rio, nevoeiro e muitas pontes, e sempre a presença de criaturas místicas como os anjos e os demónios, histórias passadas de morte e tragédia, pessoas estranhas que conhecem a linguagem dos pássaros, personagens que pintam ou escrevem e são frequentemente assombradas pelas suas próprias criações, pelas personagens dos livros que leram e dos filmes que viram. Tornam-se claramente visíveis as grandes referências literárias e artísticas da autora, com particular ênfase nas histórias de aventuras infantis de Enid Blyton, nas histórias policiais de figuras como Agatha Christie e Daphne du Maurier, sem esquecer a presença constante da referência a Iris Murdoch, ao Paraíso Perdido de John Milton, aos filmes de Tarkovski, às pinturas de Andrei Rubilev, às Variações Golberg de Bach,… A poesia, a música e o cinema são evocações constantes nos livros de Ana Teresa Pereira, muitas das vezes servindo de mote para o desenrolar da narrativa, quase como se nos levasse a pensar em histórias dentro de histórias e em como por vezes a ficção se nos torna mais próxima (mais real?) do que a própria realidade.

Quando Atravessares o RioEm A Coisa Que Eu Sou, de 1997, Ana Teresa Pereira já havia muito subtilmente levantado a ponta do véu sobre o projecto que se desenhava. Dividido em duas partes, dois contos, a segunda apresenta-nos um escritor que é convidado para uma casa onde descobre que os seus anfitriões são afinal os personagens dos seus livros. Surpreendido pelo facto de no final de contas serem tão poucos, interroga-os a esse respeito e a resposta que recebe é reveladora: afirmam que o escritor os reinventou continuamente, mudando cenários e circunstâncias, “mas éramos sempre os mesmos”. Nessa altura, porém, o leitor não se encontrava ainda habilitado para ler os sinais. A história de Tom e da(s) mulher(es) irresistível e irremediavelmente atraída(s) para ele, com a inevitabilidade do cumprimento de uma maldição, atravessará ainda diversos livros da autora, sendo que cada um nos mostra essa mesma história de um ponto de vista diferente, como se de um caleidoscópio se tratasse e fôssemos assistindo ao espectáculo maravilhoso da recriação das imagens através da recombinação dos seus elementos. Em cada um, uma pequena revelação é acrescentada. Os livros que reúnem as crónicas da autora, como O Ponto de Vista dos Demónios, de 2002, e O Sentido da Neve, de 2005, revelam-nos frequentemente pequenas incursões pelos temas e episódios que já foram ou serão ainda tratados nos romances. Encontramos frequentemente frases que se repetem, ideias e cenários criados fugazmente, como um apontamento, posteriormente amadurecidos… Na sua grande maioria, evocam os filmes, as músicas, os poemas e os quadros que povoam o imaginário da autora e ajudam a dar consistência às personagens e à(s) história(s) que alimenta há anos a fio.

Só 10 anos depois, com Quando atravessares o rio, podemos claramente entrever a teia do projecto literário em mãos. E é só, ainda assim, uma pressuposição: não sabemos onde Ana Teresa Pereira nos quer levar. Este é o livro da autora de tom mais marcadamente autobiográfico, e mais corajosamente revelador. A personagem principal é Katie, uma jovem escritora londrina, com uma história de ligações fortes a dois homens, que terminou em abandono: o pai e o ex-marido. Uma escritora que já não escreve, que sabe que “os livros de um escritor estão contados. Depois, fica sozinho com os seus demónios.”, mas que nos refere a presença constante do “actor nos seus livros”. E nos seus livros “ele chamava-se sempre Tom”.

Tom surge aqui como a figura de um actor conhecido, presente no imaginário de Katie desde menina, que regressa a Londres após muitos anos para uma representação em teatro de As Velas Ardem Até ao Fim (Sandór Márai), e que se encontra a meio das filmagens de um filme dirigido por um realizador enigmático, ap
resentado apenas como “David”, cujos “filmes seguiam a lógica dos pesadelos, a identidade, o espaço, o tempo não tinham nenhuma consistência. A qualquer instante passava-se para um quarto com cortinados de veludo onde as personagens eram as mesmas, como que vistas num espelho…”
Não nos resta sombra de dúvida: o realizador é David Lynch, o filme será Inland Empire e o actor será Jeremy Irons. Podemos perceber claramente o paralelo entre o universo mental da autora e do realizador, no que à criação se refere: a reinvenção constante das mesmas personagens de sempre na escritora, como se fossem os mesmos actores a representar papéis diferentes; o recurso aos mesmos actores de sempre no realizador, como se estes já contivessem em si as personagens a representar.

Se Nos Encontrarmos de NovoEm Quando atravessares o rio, aquilo que poderá ser a realidade e a ficção continuam no entanto a diluir-se e misturar-se, criando uma ambiência literária envolvente e fascinante, como se levasse o leitor a pressentir que está a olhar para um quadro dentro de um quadro dentro de um quadro… Como quem vê a mesma imagem repetida até ao infinito entre dois espelhos. As personagens de Katie e Tom são, durante grande parte do livro, perseguidas pelas duas personagens que os representam, autobiograficamente, nos livros de Katie os duplos de ambos. Quando desaparecem, Tom, o actor, também desaparece. Katie vê-se subitamente sozinha, e sente que pode novamente voltar a escrever. Compra um caderno de apontamentos e espera que as personagens se lhe revelem. Já tem um título: O Fim de Lizzie.

Não passará certamente despercebido o facto de que O Fim de Lizzie é precisamente o título do último livro de Ana Teresa Pereira, editado já em 2008 pela Relógio d’Água, via Biblioteca dos Editores Independentes. Sobre esse, escreverei oportunamente, como quem saboreia o próximo capítulo de uma longa e saborosa narrativa, da qual esperamos tão cedo não conhecer o fim.

por Raquel Costa

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