Todo o Anjo é Terrível

Todo o Anjo É Terrível
Maria da Conceição Caleiro

publicado no jornal PÚBLICO, 05-04-2003

“Intimações de Morte”, o mais recente livro de Ana Teresa Pereira, abre com a referência ao filme que será de certo modo seu emblema – “A Noite do Caçador” de Charles Laughton e o mote que o embala: “leaning, leaning”. Jane Frost, Jane, Janey, Jenny “apaixonou-se pelo caçador do filme quando era uma criança” e “durante anos contou histórias à sua boneca na margem do rio (…) com medo e desejo”.
As personagens: para além de Jane, Tom, a mais interessante e que melhor actualiza, a par de Jane, os mitos fundadores da autora, chegando a ganhar uma densidade singular, Michael e Byrne, ambos desdobramentos de Tom e Jane, respectivamente, e ainda o pai de Jane, figura contígua a todos eles, omnipresença velada de um passado que não cessa de configurar e deslocar o presente. O que está em jogo e se acende repetidamente nos seus romances, insistindo sem muito se desenvolver, são arquétipos, os mesmos arquétipos, desde sempre. Pulsões arcaicas, absolutas, relançadas de livro para livro, obsessivamente, sem exterior que as modalize e introduza na natureza fractal do mundo à volta. Paixões e personagens originais, de alguma forma sem nada de irredutível para as particularizar, daí a sua força cega.
Numa entrevista ao PÚBLICO, aquando da edição de “O Rosto de Deus”, Ana Teresa Pereira diria: “Os meus livros têm sempre poucas personagens, basicamente são quatro, que são dois, que são um.” Fanáticos, ou loucos de Deus, nome possível do absoluto, irresponsáveis por aquilo que os habita e que perseguem. O mesmo “pathos” sob cenários ligeiramente diferenciados, sucedendo-se agilmente. Lembra as sequências demoníacas que tornam sempre ao mesmo já outro de David Lynch em “Mulholand Drive”. Atraindo o leitor que se confunde e se deixa enfeitiçar, fatal e perversamente manipular.
O estilo da autora, como sempre, mas neste romance mais conseguido, é desenvolto, ganha velocidade, inebria. Para o bem e para o mal, é o outro lado do que seria a escrita de Tom. É imparável a leitura. A arquitectura romanesca aqui mais sólida. A chave inaugural revela-se-nos no fim, reiluminando muito habilmente o início. Vários parecem ser os pontos de vista, mas, parafraseando a escritora, são sobretudo dois, que afinal são um – a força soberana e impessoal que os guia inelutavelmente.
Tom é o escritor que parte e que regressa e que morre continuando Jane a esperá-lo: “Um dia vou matar-te, e ela encostava-se mais a ele, só quero que fiques comigo, para sempre, não é verdade que tens de voltar para o fundo do mar, passaram-se sete anos e eu quebrei o teu encantamento, o príncipe transformou-se num monstro, e és mais meu do que nunca, e amo-te mais do que nunca, és como Deus, a presença absoluta, estás nas pedras e no mar, és todos os meus dias (…) estás em tudo o que eu vi do mundo, as cidades e os rios, e as árvores e os peixes, e os pássaros, e os gatos, e os outros homens (..), nunca conheci nada além de ti.” “You have been mine before, how long ago I may not know.” Tom e Jane – metal fundente que se dissolve no inferno dos mares, insustentável à superfície da Terra.
“I’ve been here before, you’ve been mine before” é o verso de Dante Gabriel Rossetti que volta e subsume tudo o que acontece e eternamente torna a partir e a chegar, de livro para livro, dentro de o mesmo livro. Tom, d’”os olhos azuis”, como a cor de todas as cores do livro, frios e assassinos.
Tom, absorto e vinculado à canção que o revela, perdido talvez de si e de Jane, que ouvia junto à porta (como a toada da máquina de escrever do pai no andar de baixo), escutava passos da ópera “Mikado” de Gilbert e Sullivan: “Defer, defer, to the Lord High Executioner, defer, defer…” As vozes dos homens exortando à submissão e veneração do Grande e Nobre Senhor. Tom escrevia em letra pequenina nos pequenos blocos trazidos do hospital. Ela “pensou nos livros dele, (…) os contos eram pequenos quadros, terríveis e perfeitos, mas (…) os seus romances eram longas construções vazias, em que ele trabalhava a linguagem como se ela existisse por si, o efeito era interessante enquanto durava mas depois deixava uma sensação de vazio” e “Tom não gostava das suas personagens, ainda que dissesse o contrário, sentia um certo desprezo por elas, como pelas pessoas em geral; era nos contos que deixava passar a sua ternura e o seu desespero, e escrevia algo que se parecia com um poema, por vezes de uma beleza lancinante. Mas ele também sentia um certo desprezo pelos contos, que eram escritos para revistas, em muito pouco tempo, e que só por insistência do editor reunira em livros, e dizia que era nos romances que jogava a vida. Jane sorriu. Cada um de nós vive o seu sonho, (…) e ele tinha reacções terríveis quando começava a dizer algo relacionado com os livros, era melhor deixá-lo em paz”. Tom, “um monstro marinho”, chegara à superfície vindo do muito fundo do oceano, vivendo algum tempo à superfície das águas, o chão que, imponderável, ela pisava; decidindo regressar ao abismo, quando mais não conseguia escrever, continuando ela a esperá-lo à beira do mar, porque aquilo que é nosso gravita para nós e, se ela o desejara, “ele tinha mesmo de existir, era a sua versão do argumento ontológico”. Pois todos os seus dias já estavam escritos, “quando nem um deles havia ainda” (Salmos, 139).
Jane Frost, na origem estudante de Filosofia, “era algo de molhado, uma formação do vento ou do nevoeiro, ou do rio, como a bruma, talvez estivesse no fundo do mar, com as pedras e os peixes, e os cascos de navios afundados há muito tempo”. Jane, uma mulher muito bela, muito magra, irreal, fora do tempo, vinda do mito, revivendo-o sonambulamente, “uma concentração de ser”, de cabelos ruivos, longos, ondulando-se nas águas e nas camas (como Byrne, entre a promiscuidade e o ascetismo), vestindo “jeans”, calçando sandálias, viajando a viagem com a mesma mochila, tendo frio, cruzando o nevoeiro, gostando de se descalçar e de mergulhar os pés na borda do rio, e na água que sobrevoava sem peso, de pedras que traziam incrustada a memória do mar, de dançar com Tom ou Michael, isto é, de albergar em si a dança que se dança sozinha, dentro dela indiferente, gostando ainda e sempre de Rothko, de flores, de “pão fresco à noite”, abrindo por vezes uma garrafa de vinho, comendo frutos, nomeadamente tangerinas, o seu cheiro e o seu perfume, “Happy”. Também isto vem de outros livros, assim como o azul em todas as roupas, e até nas flores, nos cadernos em que escrevia e desenhava e abandonava, esquecida. Seria o mar azulando o mundo vindo dos fundos junto ao verde, “blue with green should always be seen”.
Ela escrevia ao contrário de Tom, desligada, ausente até do seu nome “próprio”, que perdia como quando esvaída pela música de Bach: “A escrita fluía, a linguagem era límpida, ela anotara numa margem ‘a linguagem viaja com a alma’, e isso era na verdade o seu caso, a alma e o corpo, a escrita era sensual, quando falava de corpos, de pássaros e de peixes, de folhas, de água, de pedras, havia ali um olhar atento, uma atenção constante, mas de certa forma quase inconsciente, talvez ela não visse as coisas porque já estava dentro delas, talvez não fosse um olhar mas sim um habitar as coisas.”