Selecção de Contos

Selecção de contos de uma das autoras mais interessantes da narrativa portuguesa

por Sara Figueiredo Costa, publicado em http://www.canaldelivros.com

No âmbito da colecção ‘Contos’, a Relógio d’Água edita agora uma parcela significativa da obra de Ana Teresa Pereira. O volume reúne textos já publicados em diversos livros da autora e ainda dois contos editados nas revistas Bíblia e Invista. Aparentemente, a dispersão da origem dos contos aqui reunidos levar-nos-ia a esperar uma simples antologia, sem nenhum elemento a traçar uma linha comum entre os diferentes momentos. Ora, tratando-se de Ana Teresa Pereira, a ausência dessa linha comum constitui, em absoluto, uma impossibilidade, e o resultado final é uma antologia muitíssimo recomendável para uma aproximação consistente ao trabalho da autora de uma das obras mais interessantes da narrativa portuguesa contemporânea.
Cada um dos contos de Ana Teresa Pereira desencadeia de modo constante a possibilidade de uma leitura cruzada, jogando com as referências e os elementos presentes nos outros contos e construindo uma teia de significações que funciona como um espelho, movendo-se a cada momento para permitir a leitura de situações e personagens de um outro ângulo, sempre mais inesperado do que o do conto anterior.
As personagens são recorrentes, embora em cada texto assumam uma outra forma de recriar o seu próprio passado, deixando à narrativa o trabalho de lhes desenhar o espaço onde se movem e o modo como se precipitam para o seu destino individual. Por outro lado, a recorrência é também uma realidade no que aos elementos espácio-temporais diz respeito: a antiguidade das casas, a presença de torres, labirintos e jardins obscuros ou a constância de memórias fortes e intangíveis são disso exemplo claro. Ora, estas duas características, estruturais, fazem da colectânea em questão um exercício de leitura fora do comum no que a uma antologia diz respeito, permitindo um percurso fragmentário mas necessariamente global pelo conjunto dos contos e conferindo a este livro uma unidade forte e inesperada num volume de dispersos.Para além dos vários níveis de recorrência já referidos, uma outra característica percorre os contos de Ana Teresa Pereira. As referências ao cinema, à literatura, à música e às artes em geral situam-se num plano de intimidade com o texto que faz delas elementos narrativos imprescindíveis para a compreensão do que se lê. A linguagem cinematográfica, por exemplo, pode mesmo ser considerada como inerente à forma de escrever de Ana Teresa Pereira nestes contos, na medida em que podemos definir planos ao nível da descrição de situações e em que conseguimos aperceber-nos de temas e topoi característicos de diferentes cinematografias. É o caso da linguagem poética para além da técnica, como em Tarkovsky, ou das ideias inerentes à construção de outras ‘personas’ ou de um ‘duplo’, como em David Lynch ou, de um modo diferente, em Hitchcock: “Tom dissera que The Crying Game era uma versão de Vertigo de Hitchcock (mencionara quase a medo as cenas
repetidas, os nomes das personagens que se ligavam entre si). A história de um homem que tenta reconstruir uma imagem, que força alguém a transformar-se numa outra pessoa, para sempre.” (pg. 218)
Como se o ofício da escrita engendrasse memórias, umas reais, outras dolorosamente forjadas, os contos de Ana Teresa Pereira situam-se num universo onde o perceptível não equivale ao real (sendo este uma categoria difícil de delimitar no trabalho narrativo da autora), e onde cada pessoa se desdobra entre a imagem que pensou ter e a imagem que nunca alcançará, num jogo de diferentes perspectivas em que o trabalho da linguagem se define como uma constante construção de imagens e labirintos, nem sempre com necessidade de saída.