Os Mundos Paralelos

OS MUNDOS PARALELOS
Jorge P. Pires

LER Livros & Leitores, N. º 54 – Primavera 2002

Uma mulher, sozinha, numa casa perdida a meio de uma floresta. Um espaço retirado, ermo, embora relativamente perto da fronteira. Uma fronteira qualquer. Memórias de alguém na casa. Com essa mulher, em tempos idos. Gestos ritmados, para ajudar a cimentar o quotidiano: fazer o pão, comer o queijo, o vinho tinto. Uma noite de chuva, um carro, quatro homens que batem à porta. Assaltantes, foragidos, e ela, inocente, que abre a porta e convida-os para entrar, se precisam de telefonar. E eles entram e ficam. Dias, depois semanas com George, Madsen, Johnny e Byrne. Inventam novos rituais, vêem televisão, lêem romances de John Dickson Carr, ouvem música de Brahms – sempre a mesma música. Por vezes ela afasta-se para ir tomar banho no lago. Por vezes um deles tenta quebrar o silêncio, amenizar a estadia. Por vezes as paixões tomam a dianteira – e é só então que a traição se revela em todo o seu esplendor inexorável, nesse ambiente em que “Estavam muito longe uns dos outros, como se vagueassem no nevoeiro, sem se poderem tocar. Sentiam a presença dos mortos no fundo do jardim, à entrada do bosque; mesmo as folhas amarelas e vermelhas que continuavam a cair e dançavam com o vento, não conseguiam dissimular as marcas dos túmulos”.
É este o quadro em que decorre A dança dos Fantasmas de Ana Teresa Pereira (Relógio de Água), um dos dois livros publicados recentemente pela escritora madeirense que se estreou em 1989 com Matar a Imagem, e ao longo dos anos 90 construiu uma sólida obra, na qual se destaca a sequência de cinco volumes iniciada com A Casa dos Penhascos (1991-1992), ou os mais recentes As Rosas Mortas (1998), O Rosto de Deus (1999) e Se eu Morrer Antes de Acordar (2000). Sobre ela, que tem vindo a ser apelidada de nossa “rainha do gótico”, recorde-se ainda a existência de um pequeno ensaio de Rui Magalhães – O Labirinto do Medo : Ana Teresa Pereira (Angelus Novus, 1999).
A Dança dos Fantasmas integra dois textos. O primeiro, que dá o nome ao volume, é a história acima descrita de Jenny, George, Madsen, Johnny e Byrne, com um título que faz referência a “um movimento iniciado pelos índios das planícies no final do século XIX. Era uma cerimónia religiosa, em que os índios dançavam e cantavam até perder a consciência e recebiam visões. O objectivo era ressuscitar os antepassados” para que tudo voltasse a ser como dantes, o homem branco se fosse embora e o búfalo voltasse a correr nas pradarias. O segundo texto, O Vale dos Malditos, é um outro conto de amor e sangue, desta vez passado no velho oeste americano, e como que aproveitando o mote dado pelo anterior. O texto poderia ser um clássico popular da extinta colecção “Seis Balas” (e na verdade havia sido publicado há dois anos pela Black Sun, envolto numa capa atenta a todos os pormenores gráficos desse imaginário “de cordel”) – contempla praticamente todos os ingredientes do “western”, a começar pela linguagem e a adjectivação, ou pela clássica cena do linchamento interrompido. E no entanto, num como noutro caso, o leitor descobrirá que nada é exactamente o que parece – apesar de tudo lhe ter já sido apresentado claramente desde o início, embora sob uma forma da qual só mais tarde compreenderá o sentido inteiro.
O outro livro de Ana Teresa Pereira em 2001, e publicado praticamente em simultâneo com o anterior, é A Linguagem dos Pássaros, uma variação trágica (e, como é comum na autora, recheada de referências cinematográficas), em torno do tema do segredo oculto que espalha o mal sobre o mundo após ter sido revelado. Também neste caso – o de uma narrativa mais telúrica, orientada pelas oposições entre o sagrado e o satânico, o revelado e o oculto, etc. – Ana Teresa Pereira domina com mestria a economia do “suspense”, arte em que de facto não parece ter rival conhecido, e lança algumas piscadelas de olho a Enid Blyton e a Júlio Verne.

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