Os Fantasmas da Origem

Os Fantasmas da Origem
Rui Magalhães

publicado na ciberkiosk

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A obra de Ana Teresa Pereira tem-se deslocado, ao longo do tempo, de um registo do misterioso, dominante nas suas obras iniciais, para um registo que, poderíamos dizer, quase teológico, central a partir, sobretudo, de O Rosto de Deus. Isto não significa que as suas primeiras obras se reduzissem ao misterioso; pelo contrário, havia já nelas, elementos que permitiam antecipar o seu caminho posterior, no mínimo como uma possibilidade. No entanto, nessas primeiras obras, muito ligadas a textos como A Volta do Parafuso de Henry James, eram marcadas por uma ambiência de indecidibilidade, onde o tema do duplo, por exemplo, permitia organizar as múltiplas experiências romanescas. A hesitação que, segundo Todorov, é a marca do fantástico, estendia-se à própria compreensão do texto pelo texto, erguendo-se, ela mesma, a um plano dúplice.
A partir de um certo momento, esta hesitação ou indecisão começa a dissolver-se numa tentativa de compreensão de carácter eminentemente teológico. O tema do anjo, presente quase obsessivamente desde o início, perde o seu carácter essencialmente misterioso para começar a tornar-se um elemento chave da tentativa de explicação do universo romanesco. Se, de alguma forma, é ainda do anjo de Rilke que se trata, o anjo começa a ser algo de muito diferente: não apenas um elemento de ambivalência que desempenha uma função paradoxal, mas uma presença articuladora e justificadora da impossibilidade de os personagens obterem uma existência pacificada.
A trama existencial dos livros de Ana Teresa Pereira organiza-se sempre à volta de uma estrutura ternária: o mundo real e a vida no interior e de acordo com esse mundo; um nível de existência em ruptura com o mundo e onde o amor constitui o elemento determinante, sempre ligado a alguma forma de arte ou pensamento; finalmente, um nível totalmente exterior que parece entrar numa espécie de concorrência com o anterior mas que sempre acaba por negá-lo, anulando todas as possibilidades salvadoras do amor. Este último plano não é já de ordem natural, ou pelo menos não o é inteiramente; no entanto, num outro plano ou perspectiva operatória, este nível, tal como o anterior, são ambivalentes. É nele que encontramos, sistematicamente, a figura do anjo decaído que, se se sente atraído pela personagem que vive no plano 2 e que tenta, às vezes, adaptar-se a esse projecto de vida, acabando sempre por não conseguir adaptar-se requerendo, em última instância, a destruição do objecto do seu amor.

2

Há, em Ana Teresa Pereira, uma fractura original que se reactualiza em cada uma das suas obras. É preciso sublinhar que isto não significa um abandono do psicológico mas sim a emergência de um fortíssimo plano de auto-interpretação que penetra mais profundamente no universo metafísico. No entanto, antes de qualquer outro passo é desejável, do ponto de vista da compreensão, determinar a natureza daquela fractura, sem o que as interpretações posteriores correrão o risco de se autonomizarem em relação ao sentido profundo da obra.
A história dos últimos livros de Ana Teresa Pereira é evolução da consciência da fractura que inviabiliza qualquer relação de amor e mesmo a vida tout court, para uma tentativa de explicação da fractura recorrendo a uma natureza especial de que os personagens emblemáticos da autora participam, ainda que de modos distintos: «Um anjo vestido de azul e um anjo vestido de verde. Ambos altos e solitários, penso que as pessoas nos acham estranhos, sempre acharam, como se pertencêssemos a outra espécie. Mas não à mesma, cada anjo é uma espécie, foi ele que mo disse quando ainda éramos miúdos» (p. 11).
E, no entanto, de alguma forma, a explicação é todo o contrário de uma explicação. Em vez de clarificar, pelo contrário, introduz uma dimensão de complexidade porque o psicológico permanece, explicado, mas essa explicação pode, ela também, ser explicada psicologicamente; constitui-se, assim, um círculo de que dificilmente se poderá sair e de que a ficção de Ana Teresa Pereira não quer, obviamente, sair.

3

O tema da fragilidade do amor – que vem já de obras anteriores de Ana Teresa Pereira – torna-se o tema central deste livro, dir-se-ia mesmo, o único. Há um conflito essencial entre aquilo a que o amor permite o acesso e uma espécie de maldição que o personagem masculino carrega consigo e de que não consegue livrar-se. O amor de Marisa é apenas capaz de suspender, durante algum tempo – o inevitável. Por mais vontade que Miguel tenha de ficar com Marisa isso é-lhe, de todo, impossível sobretudo a partir do momento em que um velho poeta russo lhe diz que sentia a presença de Azazel quando está perto dele.
A questão que pode pôr-se é esta: porque é que o amor não é capaz de suster a destruição – paradoxalmente sempre representada como busca do saber, da linguagem absoluta, pré-babélica…?
Digamos que do que sempre se trata em Ana Teresa Pereira é de uma luta entre o divino e o diabólico, entre o bem e o mal. Mas a fractura não é a comum: situa-se muito para além do comum. Num ponto singularmente imperceptível.
O amor surge como algo de superficial na medida em que é coisa pertencente a este mundo. O conflito dos personagens nunca é entre realidades deste mundo, mas entre naturezas distintas.
O Bem representa a criação divina e enquanto criação é, por natureza, algo de maléfico. O pecado original (entendido como a ambição do saber absoluto) abate-se sobre toda a realidade criada, sobre todos os homens. E o amor é apenas uma sombra de Deus, nunca residindo nele a possibilidade de redenção. O outro lado, representado pelos anjos decaídos, mantém uma certa divindade, o dom do conhecimento absoluto, simbolizado pela linguagem dos pássaros. Mas, ao mesmo tempo, carrega a marca da desobediência, do desvio do caminho traçado por Deus e, por isso, as consequências últimas são sempre maléficas e trágicas. É por isso que, no caso de Marisa e Miguel, os problemas nunca são interiores à relação: «Não se tratava deles, entre eles sempre tudo fora muito claro, não havia mais nenhum homem, mais nenhuma mulher. Era outra coisa, que estivera sempre nele, o pressentimento de algo obscuro, com que não podia viver, mas que não consegui deixar de procurar» (p. 67).
A Linguagem dos Pássaros, fala-nos dessa demanda do misterioso e essencial, uma procura das origens que são intuídas como longínquas, de certo modo ignorando uma dimensão que poderia ser também entendida como original, a do amor, ali tão próximo. Por isso Miguel parte, deixando Marisa só e desesperada:

– Foi por isso que deixaste de fazer amor comigo?
– Era… quase um crime. Tu… que és toda luz…
Marisa riu na penumbra.
– Luz… em mim não há nada de solar.
– Luz da lua, então. Da prata. Como podia trazer-te comigo para as trevas? Como podes continuar a amar-me?
(…)
– Eu amar-te-ia nem que fosses Lúcifer em pessoa.
– Não sabes o que dizes. Mas eu amo-te demasiado para ficar contigo. Amanhã mesmo vou-me embora (p. 89/90).

O que é de extrema importância é que o amor não representa, simplesmente, um amor humano. Marisa não representa o lado normal das coisas oposto à procura de Miguel. Pelo contrário, trata-se de duas vias, poderíamos dizer, igualmente diabólicas.
Qual o sentido da busca longínqua de Miguel?
A sua recusa do amor é justificada na passagem citada. Miguel sente o seu destino como nocturno enquanto vê Marisa como solar. Mas entre o solar e o nocturno escolhe, inevitavelmente, o nocturno, que está na sua natureza, a que não pode escapar.
É por isso que sempre as histórias de Ana Teresa Pereira relevam do trágico. São tragédias em que o leitor sensível representa o papel do coro trágico. O amor, quase se poderia dizer que não apenas é incapaz de deter a busca desesperada como a agudiza; porque há nele, também, qualquer coisa de misterioso, no entendimento perfeito entre Miguel e Marisa, nessa espécie de quase-paraíso adâmico que os dois constituem. Perante esse quase-paraíso, Miguel sente, talvez mais profundamente, o apelo do longínquo, a chamada da sua própria origem no mistério dos versos de Tarkowski.
Mas Marisa não é também – como ela própria diz e de que Miguel dificilmente se apercebe – nada de solar. Há nela algo de tão profundamente nocturno como em Miguel, porque Miguel habita o interior mais profundo de Marisa.
Toda a escrita de Ana Teresa Pereira é a narração de uma impossibilidade: a da síntese pacificadora. Não são, no entanto, as histórias de Ana Teresa Pereira, apenas ou sequer essencialmente, as aventuras de um eu torturado. Mais do que a dimensão psicológica, é a metafísica que aqui está em questão. É a natureza do ser que o eu representa. As suas vicissitudes no desenrolar mundano, nesse entre sempre indecidível.
A relação entre Miguel e Marisa vem desde a infância, desde sempre, dir-se-ia. Desse sempre que é a forma temporal da eternidade e da unidade. Por isso, quase se pode dizer que a procura de Miguel é, também, a da diferença, daí a distância onde essa busca necessariamente se desenvolve.
Noutros casos – como em Se eu morrer antes de acordar – é um encontro longamente esperado, portanto, também nesse caso, desde o início, desde sempre. O carácter decididamente ontológico é sublinhado, muitas vezes, pela repetição trans-temporal. A memória que passa de geração em geração numa cadeia infinita de repetições em que os indivíduos representam, são, um modo de ser, diríamos, o único possível aos seres dotados de alguma capacidade de sentir, aos que não são asfixiados pelas imagens do ser (pelas falsas cópias, diria Deleuze).
Os dois lados (Marisa e Miguel) competem pela verdade do ser, segundo um sistema dualista, quase maniqueista, mas em que, devido à origem identitária, há algumas passagens de um ao outro. São duas visões do mesmo, dois modos de perseguir a mesma realidade, a mesma autêntica realidade, original que, inevitavelmente, se apresenta como fantasmagórica.
O que há em Ana Teresa Pereira é a impossibilidade de lidar com a dualidade, de se manter na dualidade e de achar (ou tentar achar) uma síntese. Daí o carácter trágico das suas histórias.
Qual o papel que a tentativa de explicação desempenha no sistema? Uma função de ampliação das perspectivas, nomeadamente, metafísicas. A tentativa de explicação surge como uma necessidade de compreender e justificar a impossibilidade de dar-se, a solidão intrínseca. É preciso notar-se que o primeiro alter ego do autor é Miguel e não Marisa. Marisa representa o desejo do amor.
A única chave para a compreensão de tudo reside nas palavras de Marisa quando diz: «Ela pensou que era mesmo dele, encontrar muito longe o que sempre estivera ao seu lado, fazia sentido, ele era assim» (p. 59).
A Linguagem dos Pássaros constitui, no conjunto da obra de Ana Teresa Pereira, uma espécie de fechar o círculo, mas apenas na condição de sabermos que existe um número infinito de círculos paralelos e coincidentes, simultaneamente. De modo que fechar o círculo significa apenas o esgotamento momentâneo da tensão essencial, que depressa se reiniciará numa estonteante busca do impossível onde a distância nunca é outra coisa do que a ilusão da possibilidade de um verdadeiro início. Cada livro ensaia essa hipótese, esquecendo-se, momentaneamente, de que está condenado ao círculo infernal sem princípio nem fim.

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