ONDE MORA XERAZADE?

ONDE MORA XERAZADE?

Um livro curioso, este que temos sobre a mesa: As Personagens, de Ana Teresa Pereira. E também intrigante. Vejamos: o autor, o narrador, a personagem, constituem uma tríade infernal, cada um deles deixando a cada passo de ser quem é para ser quem não é, ou, afinal, talvez seja.  Porque, inclusivamente, a personagem que é, também, além de o ser, escreve e inventa as histórias nas quais entra, e delas também é possível que saia para dar lugar a outro inventor de histórias, que será igualmente narrador (e personagem!) numa história, inventada por essoutra primeira personagem, a qual previamente saíra do enredo para poder inventar a história…

Dito de outra maneira: uma personagem lê um livro, no qual se conta que uma segunda personagem está a ler um segundo livro, no qual se conta que outra personagem está a ler outro livro, que é talvez o livro da primeira personagem que estava a ler um livro, no qual… Um círculo irremediavelmente perfeito. Ou não? Seja como for, é toda a fascinante ambiguidade do texto literário que está em causa, é o mundo da imaginação e do imaginário que nos é revelado, conservando, todavia, todo o seu mistério, toda a sua labiríntica irresolubilidade. Claro, pensamos logo em Jorge Luis Borges e nas suas Ficções. Pois pensemos. Também em Xerazade e as suas arabian nights, claro! São referências da própria leitura. Como Henry James, aliás. Embora não referenciado, também por lá paira e estende a sua sombra tutelar um Ray Bradbury de fantasmática inquietação.

Se o leitor, durante ou após a leitura, se predispuser ao devaneio decorrente, poderá admitir que Xerazade, contadora e inventora de histórias que alguém por (para) ela escreveu, resolve desvairadamente entrar nelas e transfigurar-se em personagem, em Simbad, por exemplo, O qual, logo ali começa a contar a sua história, que é a história de Xerazade ela-própria a contar a história de Simbad o Marinheiro.

Todos nós somos personagens, afinal, cada um de nós não passando de mera projecção da imaginação de alguém no pérfido deserto da esquálida realidade. Existiremos nós porventura fora desse engenho matricial chamado Imaginação? Que o leitor, ao entrar neste texto-labirinto, deixe de fora a esperança de quaisquer certezas. Quem nasceu primeiro – a galinha ou o Ovo? Onde mora Xerazade?

Ana Teresa Pereira, que subscreve a presente obra, já foi por duas vezes laureada. Pensamos que bem mereceu.

F. B.

(Ana Teresa Pereira. As Personagens. Lisboa. Caminho, Col. O Campo da Palavra. 1990.)

Recenseado por Fernanda Botelho. in: Revista Colóquio/Letras. Livros sobre a Mesa, n.º 115/116, Maio 1990, p. 175.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s