O Verão Selvagem dos Teus Olhos

Manuel de Freitas
EXPRESSO, Actual n.º 1896, de 28 de Fevereiro de 2009

O Verão Selvagem dos Teus Olhos
Ana Teresa Pereira
Relógio d’Água, 2008, 130 pgs.

ROMANCE: A paixão de Rebecca segundo Ana Teresa Pereira, naquele que é um dos seus melhores livros.

Este romance de Ana Teresa Pereira não se adequa a epítetos teóricos tão estafados como palimpsesto, dialogismo ou intertextualidade. Em rigor, “O Verão Selvagem dos Teus Olhos“ será antes um livro que nasce literalmente de um outro livro, sem que por isso se possa considerá-lo uma sequela. Se é verdade que não se perceberá, em toda a sua dimensão, este magnífico exercício de A.T.P. sem a leitura de “Rebecca” de Daphne du Maurier (ou, pelo menos, sem o conhecimento do filme homónimo de Hitchcock), não é menos evidente que estamos perante um acto extremo de criação. Embora o cenário e o enredo sejam fielmente respeitados, verifica-se uma mudança radical de perspectiva. Os “mesmos” factos são-nos, afinal, relatados pela voz de Rebecca, podendo-se até falar de uma tentativa de resgatar “a linguagem áspera do mundo dos mortos”. E não faltam, nessa aspereza com que a morta (ou a morte?) se torna audível, momentos de intenso lirismo: “A noite chegou sem que me desse conta. Não consigo ver as minhas mãos. É melhor voltar para casa”. Contudo, e para além da destreza com que faz da ausência original de Rebecca uma presença central, a autora adensa o que, no texto de Daphne do Maurier, já existia de fantasmático. Acentua-se também, “numa encenação de pesadelo”, a sugestão demoníaca que o romance, tal como o filme de 1940, diferentemente veiculavam. É como se desta vez ninguém, nem mesmo Rebecca morta, pudesse vencer e, num palco chamado Manderley, anjos caídos e demónios se limitassem a actualizar o diálogo de Cristo e Lúcifer à beira da falésia. Os nomes, aliás, são o que menos importa, o que tenuemente se desvanece entre as azáleas e os rododendros que são e não são os mesmos que Daphne du Maurier descreveu. De um modo magistral, A.T.P. ancorou este seu livro no invulgar anonimato da sucessora de Rebecca: “Ela não tinha nome, era apenas um segundo eu, uma segunda Mrs. De Winter.” Mas também aí as coisas se podem inverter, contrariando qualquer maniqueísmo. A inexaurível Rebecca, fragilizada e reabilitada nesta sua outra vida, acaba por perceber, “com uma sensação de horror”, que “não se lembrava do seu nome”. “Aprende-se a morrer, num jardim” – será essa talvez a escura lição que nos traz este livro cimeiro numa obra que, de abismo em abismo, nunca deu um passo em falso.