O Universo Mágico de Ana Teresa Pereira

O Universo Mágico de Ana Teresa Pereira
Pedro Teixeira Neves

AGENDA CULTURAL – Fevereiro de 2002

Um «outro» Ana Teresa Pereira. Um «outro», sim, mas não apenas mais um. Vertiginoso poder-se-á dizer, sem dúvida, do ritmo editorial de Ana Teresa Pereira, mas não devendo jamais pôr-se em causa a qualidade da escrita que lhe assiste. Em 2001 mais dois livros, duas brilhantes incursões no seu muito peculiar mundo, no seu muito característico universo. Desta feita, falemos de «A Linguagem dos Pássaros», breve texto (104 páginas, Relógio d’Água) onde se relata a atribulada história de amor entre Marisa e Miguel, que «aprendeu russo para descobrir o que acontecia aos lábios do menino num poema de Arsenii Tarkovski».Entre pássaros e anjos decorrem as suas vidas, a magia do encontro de dois seres numa ilha onde tudo é cor, água e distância. Assim as suas personagens, como se num quadro de Chagall, plenas de cor e mistério, real e sonho enredando-se num torvelinho de aromas, cheiros, sensações e emoções. E como sempre na escrita de Ana Teresa, um fortíssimo travo ao onírico, uma capacidade de nos fazer pairar acima das palavras e nos levar pelos meandros sibílicos das suas personagens. São assim as suas mulheres, sempre vestidas de anjo, divinatórias, belas e estranhamente apelativas. Uma literatura dos elementos, da terra, das pedras, das árvores e das flores, eis o que também se poderá dizer desta escrita, matérica e sensitiva e por isso convocante. Quanto ao mais, e a exemplo da generalidade do seus últimos livros, regressam as menções aos universos predilectos da autora: o tributo sempre presente ao cinema, desta feita a Tarkovski, à pintura, toda a sua escrita ressuma cor e densidade plástica – Chagall, claro, uma vez mais –, ao universo da infância, revendo-se o leitor bastas vezes nos mundos aventurosos de Enyd Blyton, estes pejados de referências a um fantástico cheio de túneis, passagens subterrâneas, cavernas, casas ou torres abandonadas batidas por «rajadas de vento, as gotas de água do mar, os gritos das gaivotas».
Por fim, registe-se a tranquilidade e inteligência desta escrita, fácil sem incorrer no facilitismo, agradável sem se confundir com o básico, fluída mas absolutamente consistente no modo como agarra o leitor. Assim: «Miguel fizera um escritório no quarto de cima da torre. Levara para lá uns quantos livros e cadernos, uma secretária, colara na parede reproduções de Rothko e fotografias a preto e branco, havia uma de Andrei Tarkovski, sentado na sua cadeira de realizador, algumas de Veneza em manhã de nevoeiro, e no lugar de honra, perto da janela, o seu ícone, os três anjos».