O Fim de Lizzie

O Fim de Lizzie
Manuel de Freitas

EXPRESSO, Actual n.º 1861, de 28 de Junho de 2008

 

ANA TERESA PEREIRA.
O Fim de Lizzie
Biblioteca Editores Independentes,
Maio de 2008,
138 págs.

 

NESTE VOLUME, que assinala a estreia de Ana Teresa na mais elegante colecção portuguesa de livros de bolso, deparamos com dois textos que já haviam sido publicados. «Numa Manhã Fria», entretanto reescrito, constituía o texto inicial de Histórias Policiais (2006), ao passo que «O Fim de Lizzie» foi originalmente divulgado neste suplemento do Expresso», numa versão bem mais concisa. A pertinência de reunir estas duas novelas num único volume é inquestionável. Além de as personagens principais serem nominalmente as mesmas (um quarteto implacavelmente estigmatizado pela questão do «duplo»), repetem-se também os cenários: Wistaria Hall e as charnecas circundantes, o nevoeiro de Londres, uma noite escura que «pode durar o resto da vida». Mas seria decerto redutor atermo-nos à constatação destas afinidades, pois a elas se vem sobrepor outro tipo de inquietações, como seja a inexorável despedida da infância, essa época em que «o mundo ainda não nos parecia um lugar incompreensível». Não será por acaso que em ambos os textos surgem «nursery rhymes», emblemas esparsos do «conhecimento e sinistro que têm as crianças quando estão a cantar». Pode mesmo dizer-se que nunca essa nostalgia amarga se fez notar tão intensamente na obra de A. T. Pereira. Como se esse limiar, embora já trouxesse em si «qualquer coisa de errado, qualquer coisa de partido», constituísse, afinal, o único abrigo possível para a noite interminável que se adivinha – nos corpos, nos livros, nas casas onde não voltaremos a ser crianças. À fugaz realidade da infância sucede, em suma, uma permanente ameaça de desencontro e de irrealidade, um recorrente desejo de matar o que talvez nem exista. Lizzie, apesar da sensualidade com que é descrita, é a imagem exacta dessa imaterialidade e do negrume em que surge envolta: «Talvez àquela hora da noite todas as mulheres se parecessem com Lizzie.» Acontece, porém, que outra parecença se nos vai tornando evidente, desta vez a da própria autora com frases deste teor: «Eu quis usar a minha arte como se fosse magia, e os deuses não me perdoaram»; «as personagens tinham vida própria, e pareciam muito próximas da loucura». O que não oferece dúvidas é que a magia persiste, mesmo quando observada do «ponto de vista das gaivotas» ou de outros demónios igualmente atentos.

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