O Desejo Não Resulta

O desejo não resulta, A literatura de quiosque paredes-meias com a erudição
Fátima Maldonado

publicado no jornal EXPRESSO, 20-1-2001

Ana Teresa Pereira é um caso bem interessante na literatura portuguesa, que vive de enfatizações, equívocos e tragédias e cresce quase por inteiro à sombra das instituições. Com ela passa-se tudo num plano aparentemente mais minimalista. Mas o universo literário em que se desloca é de reflexos que se interpenetram e desdobram e repartem até se estilhaçar o estanho que os conteve. Deste modo tudo se adensa, muito mais complexo do que ao primeiro relance poderia supor alguém desprevenido.
A sua estrada é recta pelo menos desde o primeiro livro que dela li, Matar a Imagem, que em 1989 ganhou o Prémio Caminho de literatura policial. Já lá estava tudo: a erudição (acaba por não irritar e até se torna bem compensatória nesta casa do mundo onde à degradação comum se chama agora divertimento), a neurose elegantíssima, a obsessão vampírica, a fixação no duplo, o snobismo wildiano. E ainda o interesse pela cultura popular, que não é incompatível com o resto, antes desejável num território tão contaminado pelas várias burocracias da escrita. «E anos mais tarde lera o mais estranho dos policiais (talvez porque não era um policial): Married a Dead Man, um jogo no qual os dois jogadores perdem. Irish, infeliz e alcoólico, fechado no seu quarto durante anos, Irish que queria escrever como Fitzgerald. Não fora um Fitzgerald mas criara um universo que não se parecia com coisa nenhuma», conta em Matar a Imagem.
Examinar o percurso desta escritora de trás para diante, começando pelo policial e acabando no que julgo ser o seu último livro, O Vale dos Malditos, Black Son Editores, surpreende. Aconteceu-me já estar um pouco saturada dos livros em que ela fazia suceder num alucinante projectar a casa eterna habitada por seres maléficos, paixões deletérias, sangue e perfume de rosas e sempre a mesma narcisíssima e anoréxica criatura. Mas quando, de repente, surge este «western» como deve ser – capa a rigor de Paulo Scavullo -, com uma citação de William Blake a abrir: (…) «Some are Born to sweet delight,/ Some are Born to Endless Night», é uma delícia. Porque a história é boa, tão boa que lembra ao longe Duelo ao Sol. Mas em O Vale dos Malditos o casal proscrito ficará junto para sempre, de certeza para sua infelicidade perpétua. Felizmente a boa rapariga morre, evitando assim que Tom Stuart, o herói, se estabeleça e integre o rebanho. E há também um bandido que não é o que se esperava e um clima de híbrida ascendência – Tom Stuart é meio índio, como convém aos bons vilões e incapaz de afectos como também é costume.
O mais interessante de tudo isto prova a capacidade de Ana Teresa Pereira renovar géneros inoculando-lhe sangue fresco. O que é entre outras uma das características que a literatura exige para não desmaiar. E nesta pretensa obra revivalista, ela consegue, sem quebrar a estrutura clássica do livro de «cowboys» que se comprava por 25 tostões nos antigos quiosques, pôr o herói/vilão a ler William Blake, invertendo-lhe o destino de rude macho e instilar já perto do fim um clima donde os corvos de Edgar Poe não estão ausentes. Ou seja, obrigar o romance popular a conviver paredes-meias com os suportes da literatura fantástica sem quebras de ritmo ou dissonância. Grande lição para os paladinos da literatura extática. E quem defende que a cultura popular é incompatível com a erudição deveria limpar-se a este guardanapo, para acabar num registo vulgar de Lineu, como se diz nos relatórios das autópsias.

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