Muito Simplesmente Contos de

Muito simplesmente contos de…
João Céu e Silva

publicado no jornal Diário de Noticias

«Sempre tinham dormido juntos. Em quartos de hotel, em cabanas perto do mar, em comboios que atravessavam noites sem fim.» Começa assim o conto As Estátuas, um dos nove que compõem a primeira parte deste volume intitulado muito simplesmente Contos de Ana Teresa Pereira.
Está tudo dito, pensam o autor, a editora e vai confirmar o leitor. Porque este é curioso e quer saber o que vai por ali em mais de 300 páginas. Se cada uma demorasse um ano a ler, teriam de ser várias vidas para o conseguir terminar ou obrigados a distribuir a tarefa por um grupo alargado. Mas, como cada página se lê rapidamente – sôfregas – basta um dia dedicado a elas.
Um pouco antes, escreve-se: «Fechou os olhos e, lentamente, deixou que a água a bebesse». É o fim do conto As Rosas, outro da mesma série iniciante destes textos recolhidos em algumas obras da escritora, publicadas (entre 1991 e 2000) e dois avulsos.
Leia-se ainda «A cabina telefónica tinha a estranheza das coisas que não estão no local certo, que não obedecem a uma ordem qualquer sem a qual a vida se torna impossível, quase desesperada», um trecho do meio do conto d’As Beladonas.
Estes três pedaços estão completos sob o título Fairy Tales e ocupam menos de um quarto do papel impresso. Mas são um aperitivo servido antes de um prato mais forte, à disposição logo de seguida: outros seis contos que preenchem mais folhas – Num Lugar Solitário até ultrapassa as 100 páginas – que mantêm um ritmo adivinhado pelos mistérios desta autora tão assombrada por filmes ainda muito a preto e branco de Alfred Hitchcock.
E, depois, andam por ali os mundos edificados pela loucura de uma sempre presente Iris Murdoch. Ana Teresa Pereira regressa periodicamente a esta senhora, como se tratasse de uma jangada que atravessa o mar entre si e o mundo e último porto de uma viagem de circum-navegação que a vida lhe exige a cada letra teclada.
Mas, regressando a Hitchcock, a páginas 282 a escritora fala de alguns filmes do realizador. E obriga o leitor a relembrar Rebecca, porque ela existe ao longo de muitas mulheres destes Contos de…; transgride com o leitor com o Bogart porque os seus homens não são baixos como ele; pactua quando os mostra belos e altos como Cary Grant; espicaça quando define Ingrid Bergman; divaga quando salta para veludo azul dos cortinados; ou no momento em que recusa entender Blue Velvet só porque é obsessivo e tem um filho e uma mãe que só servem no final. Mas, voltando ainda a Hitchcock, há o cenário de Notorious que está presente em tantos parágrafos da longa lista de escritos que Ana T. P. teima em nos referenciar biograficamente.
Ainda bem que o faz porque o mundo não é tão claro como outros colegas de escrita seus nos fazem crer. Mesmo que o homem Tom que perpassa em muitas páginas não seja mais que um tom de escrita!

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