“Inverness” de Ana Teresa Pereira

«Inverness» de Ana Teresa Pereira – Relógio d’Água

[03-06-2010]  |  Pedro Teixeira Neves PNETLiteratura

De há muito que assim é. A obra, prolífica e regular (também regularmente editada pela Relógio d’Água), que Ana Teresa Pereira vem a editar desde que em 1989 publicou «Matar a Imagem», encerra, uma e outra vez, a cada novo título, uma série de coordenadas ou especificidades que lhe conferem uma personalidade muito concreta, palpável e logo reconhecível. A chamada marca autoral. Muitas vezes, disso mesmo recorrendo, ao lermos os seus livros, julgamos estar a ler o já lido, o já antevisto, o já percepcionado. Como se as personagens voltassem ou não quisessem despedir-se da autora. O escritor, é sabido, nem sempre apenas escreve quando à escrita; andamos sempre a escrever, se calhar andamos sempre a escrever o mesmo livro, como se a vida que todos os dias vivêssemos. É recorrente em vários autores. A páginas tantas, na primeira pessoa das suas personagens deste novo pequeno romance «Inverness», de algum modo, Ana Teresa Pereira confirma o que acabo de escrever, desmontando para o leitor os seus mecanismos e modos de escrita. Assim:
«Clive não se desprendia dos seus afectos e das suas obsessões e havia coisas que tinham passado naturalmente do primeiro livro para o segundo. (…)
Têm qualquer coisa de policiais… os teus livros.
Ele sorriu.
Espero que sim.
Mesmo a linguagem, simples, sem uma palavra a mais. O que lhe interessava eram as histórias. A inquietante estranheza das histórias.»
Bosques, bibliotecas, homens e mulheres misteriosas, casas cheias de tempo, lugares frios, marítimos, nublados, lagos, lugares em ruína, atmosferas que enfermam aqueles que as vivem, as referências cinematográficas, os actores, os filmes, por aí vogam as obsessões identificáveis na escrita de Ana Teresa Pereira. Os seus livros têm sempre um pouco de tudo isso e daí, justamente, a «estranheza das histórias», o quanto baste de policiais que confere aos seus enredos. De resto, está tudo aqui, neste «Inverness», belíssimo nome de cidade escocesa vertido a título de livro.
Espaços e tempos tendem, pois, nos livros de Ana Teresa Pereira a condensar-se num universo sem nome e intemporal, como se a neblina que tolda as vidas das suas personagens confundisse igualmente o leitor, como se delas passasse para aqueles que lêem, numa espécie de convite a partilhar os seus destinos, as suas angústias e ansiedades. A vertente atmosférica, a criação de um quase levitar narrativo (como se igualmente estivéssemos dentro de um filme, portanto de uma ficção) é um outro dado fundamental na escrita de Ana Teresa Pereira, seja, neste caso, no modo como nos impregna de uma qualquer nostalgia e lonjura assente nas paisagens do Norte que nos desenha (e que passa também pela singularidade das vidas das personagens), seja ainda no capítulo do suspense que confere ao relato, assim ao jeito de «Uma atmosfera de policial negro»).
E este livro então, quê de particular no seu dizer?
« Conta-me mais coisas do teu livro.
Há uma actriz…
E a mulher de quem ela tomou o lugar.
Às vezes penso que elas são uma só… que sempre foram uma só.»
O tema do duplo preside-lhe. Esta é a história de uma actriz que toma a pele e vida de outra mulher, uma mulher que se julga desaparecida mas que, no final, se percebe não ser assim, ficando o leitor a braços com a dúvida identitária das personagens que tem em mãos. É um tema clássico na literatura, de uma forma geral explorada por todos os grandes escritores desde a Antiguidade até aos nossos dias. E lembro, no instante da memória, os casos de «O Retrato», de Gogol, «O Visconde Partido ao Meio», de Italo Calvino, ou um mais recente «O Homem Duplicado», do “nosso” José Saramago, entre muitos outros exemplos.
Sem confabular grandes teorizações sobre o assunto, sem sequer, julgo, pretender fazê-lo, o que Ana Teresa Pereira faz é contar uma história, uma história que por mero acaso ou circunstância se radica nessa temática ou dela se alimenta. É claro que aquilo que as suas linhas romanescas enunciam nos podem levar a reflectir as questões por regra subjacentes ao tema, nomeadamente a Morte ou a essência do Eu, bem como a permanência da Vida, é certo que poderia eventualmente filosofar-se em torno do assunto quando, por interposta personagem, a escritora a si mesma se desmonta nos mecanismos de escrita (numa espécie de escrita dentro da escrita), mas não é esse o desejo adivinhado na mão da autora. De alguma forma, e consubstanciando uma vez mais aquilo que no próprio livro se lê («o que lhe interessava eram as histórias»), o que em primeiro lugar interessa a Ana Teresa Pereira são as histórias. Boas histórias. Como esta.

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