Intimidações de Morte

Intimidações de Morte
Eduardo Prado Coelho

Publicado no jornal Público a 17/07/99

Parece-me que “O Rosto de Deus” traz Ana Teresa Pereira na sua melhor forma. Mas será que avaliações destas fazem sentido? Sentimos como se a crítica, e o seu papel, e as suas encenações, estivessem também a ser corroídos por essa sombra luminosa e mortal que envolve toda a matéria destes livros.

1.O livro mais recente de Ana Teresa Pereira “O Rosto de Deus”, tem na capa uma tela (belíssima, como uma velha edição na Folio de um livro de Duras) de Mark Rothko. O que não espanta, porque todos os livros da autora costumam estar ligados à pintura (embora orientados para outros períodos ou sensibilidades); porque Rothko é uma referência essencial para Tom, a personagem que atravessa as duas narrativas e desempenha nelas uma função idêntica: ponto de atracção inexorável, lugar de suspensão das contradições, vértice de um processo de absorção que é o eixo de toda a escrita de Ana Teresa Pereira, imagem do amor e da morte.
Assim: “Eu sempre acreditara em Deus, talvez porque os meus pais não tinham quaisquer convicções religiosas e me educaram num ateísmo completo. Para mim, os deuses estavam por todos os lados, nas plantas, nos animais, nos livros, nos desenhos, nas músicas, nos sonhos. E todos esses deuses eram pequenas partes de Deus, as flores que eu pintava, o meu cão, as minhas noites de amor com os meus namorados. Mesmo respirar era Deus, e as manhãs, claro, e as cores, e o crepúsculo, e o mar. Mas naquele espaço senti a sua presença como nunca sentira antes, no ar, no cheiro a flores mortas e a tinta, nos quadros que, soube instintivamente, procuravam revelar o seu rosto… E então vi Tom.”
Não sei se no fundo os critérios da qualidade literária são o que mais importam para Ana Teresa Pereira. Começou por um género aparentemente menor, o policial, sistema narrativo que foi pouco a pouco impregnando o seu mundo obsessivo. Também nisso se aproxima de Rothko, que declarou um dia ao pintor Bem Dienes: “Não se trata de pintura, a luta está para além da pintura, não é com a pintura.”
Mas noutros pontos também se aproximam e acompanham. Porque Rothko procurava uma ruptura com o senso comum. Porque também ele punha em causa a objectividade e racionalidade e optava por uma atmosfera veladamente ameaçadora. Julgo que o pintor falava em “intimations of mortality”, e a expressão está certa. Em Rothko só interessam as emoções humanas fundamentais: “trágico, êxtase, fatalidade”. Daí que, exactamente como em Ana Teresa Pereira, a psicologia seja secundarizada e as personagens reduzidas a traços arquetípicos. Daí também que o tempo se vá imaterializando até se suspender numa espécie de pura presença devastada. Daí que os objectos familiares tendam a desaparecer num processo de despojamento implacável. Daí também que se assista à emergência deesquemas primordiais: a repetição no tempo (o que ocorre na primeira narrativa: Marisa repete a história da mãe junto de Tom, atravessando a linha invisível de um indizível incesto); a repetição no espaço: as duas irmãs, Pat e Marisa, numa relação especular que apenas se suspende junto de Tom: “nele somos uma só”.
“O problema quando se vive neste mundo é evitarmos a asfixia”, dizia Mark Rothko. E aquilo que nele aparece como uma procura do vazio não desemboca numa metafísica do nada, mas no pressentimento de uma aparição sublime: o nome de Deus, precisamente. Ou então, como escreveu Dore Ashton sobre Rothko, “uma expressão sem Deus da divindade”.

2. Ainda Rothko: ele dizia que tudo o que tinha a dizer (admiremos uma expressão que significa sobretudo que um pintor não tem nada a “dizer”) se situava entre o movimento de expansão das suas telas, que parecem transbordar em sucessivos estratos de cor, e um movimento simultâneo de concentração, que nos empurra para a vertigem de uma trémula cor central, absorta em luz e infindável atracção. O que estabelece o contraste entre o que em Ana Teresa Pereira é transmissão do corpo de deus a todos os lugares. Animais, signos e objectos, e ao mesmo tempo redução desses lugares e desses objectos a meia-dúzia de elementos primordiais: a casa, o jardim, o quarto, a livraria, os jeans, as flores, as camisolas de lã, as telas, o vinho, o pão, o queijo.
Há um enigma em torno de Ana Teresa Pereira. Desde 1989, primeiro na Caminho, agora na Relógio d’Água, que publica com uma impressionante regularidade livros que cada vez mais se assemelham ao mesmo livro. Uma notável capacidade de construção literária ( que contrasta por vezes com o aspecto sumário, inacabado, pouco elaborado, de certas técnicas estilísticas e narrativas) permite-lhe manter a agilidade propícia à variação. Mas Ana Teresa Pereira possui inequivocamente um território. E explora-o de um modo que só podemos classificar de “obcecado”. As personagens transitam de livro para livro com nomes que quase se confundem. A escrita não possui nem grande elaboração sintáctica nem ampla elasticidade vocabular. Há mesmo uma espécie de tendência para o lugar-comum (exemplo: “uma boca que esmaga outra boca”).
Por outro lado, Ana Teresa Pereira quase não dá entrevistas, não habita os corredores da vida cultural, e as suas referências (múltiplas, aliás, e às vezes desconcertantes, passando pela literatura, o cinema, a pintura, a música, certos ícones da cultura de massas, certos pensadores, alguma psicanálise, alguma obsessão do fantástico: “A mulher de Branco”, de Wilkie Collins, é uma das obras mais insistentes neste livro, mas também Iris Murdoch) são deliberadamente internacionais, mesmo cosmopolitas. Tudo se passa como se a sua presença na literatura excluísse qualquer compromisso mundano e se definisse sobretudo em termos duma experiência-em-palavras que se renova incessantemente e que, pela sua insistência e invulgaridade, não pode deixar de nos fascinar.

3.É evidente que esta obra tem as suas oscilações. Eu pensara escreve sobre “As Rosas Mortas” se o livro, na sua modalidade demasiado explícita de uma vingança, não me tivesse desiludido um pouco. Já “O Rosto de Deus” me parece que traz Ana Teresa Pereira na sua melhor forma. Mas será que avaliações destas fazem sentido? Sentimos como se a crítica e o seu papel, e as suas encenações, estivessem também a ser corroídos por essa sombra luminosa e mortal que envolve toda a matéria destes livros. O que Ana Teresa Pereira diz de Iris Murdoch assenta nela própria perfeitamente: “Lera os poemas, que ela quase escondia do mundo. Os ensaios filosóficos. E os romances, com as suas personagens estranhas, que a partir de certa altura eram sempre as mesmas, como era a mesma a casa da praia e o cão… Os romances que escrevia ao ritmo de um por ano (quando acabava um livro dava uma volta no jardim e começava outro…), que se ligavam entre si, um universo que continuava a existir, que existiria sempre”.
Que leva o leitor a recomeçar? Paulo dirá que foi para saber o que estava dentro dos livros que se aproximou das duas gémeas. Mas a frase é reversível: se nos aproximamos de pessoas para entender o que está oculto nos livros, também lemos livros para saber o que envolve determinadas pessoas, essas que se recortam e separam do mundo para melhor se aproximarem dele em silêncio, que habitam numa roda de expectativa e escassez, que comem pouco, bebem e amam numa espécie de sonambulismo, e que também elas lêem livros para serem o que são e nos convidam vertiginosamente, eroticamente, perdidamente, a sermos o que ainda não somos: fragmentos de uma escrita ilegível e antiga.

Anúncios