Intimações de Morte

Intimações de morte com olhar ‘very british’
João Ceu e Silva

publicado no jornal Diário de Noticias

O livro de Ana Teresa Pereira é um romance. Não um livro de viagens na verdadeira acepção. Mas há que fazer excepções ao motivo desta página de sábado porque a escritora facilita-nos o estratagema.
Há uma enorme viagem nestas 184 páginas. A localização é Londres e arredores. O cenário é, como não poderia deixar de o ser, a neblina da capital britânica, as ruas esconsas perto das docas, as praias de vento e batidas pelas ondas do mar do Norte.
Uma peregrinação vivida por Jane Frost em busca de um homem que a faz feliz. Pelo meio, surgem outros que ela consome sem respeito e despreocupadamente. Quere-os. Nada mais. E a sua beleza permite-lhe fazer dos romances um entretenimento físico, desejado e satisfatório, enquanto a alma espera pelo dia em que acertará contas com o amor.
O amor, sempre o amor, uma guerra que atravessa os tempos e enche milhares de páginas ao longo dos tempos. Um tema que deve ter servido de móbil à maior parte dos textos escritos pelos que dedicaram a sua vida à literatura.
A Ana T. Pereira, coloca em Jane um protagonismo que raramente é dado a mulheres em romances sérios. O de exigirem o amor conforme elas o sonham. Não servem meios amores ou disfarces de paixão, a coisa tem de ser por inteiro.
A volubilidade que nos parece surgir de quando em vez apenas confirma o final. Que poderia ser de outra forma se fosse escrito por um homem, mas que é assim ao ser escrito por uma mulher.
Não é escrita feminina. Não, é determinação até se encontrar o pretendido. Ao tê-lo, faz-se o que se quer porque faz parte do desejo de ser feliz. A imagem retratada no final tem de ser relida, para que não se nos escape a verdade de quase três dezenas de breves capítulos. E, mesmo assim, ficamos com dúvidas. Porque nunca se entende o coração de uma mulher.
A Jane gosta de visitar a Tate Gallery, observar vezes sem conta os quadros de Vermeer, de deixar os cabelos louros ficarem espigados, desenhar e escrever em pequenos blocos para serem abandonados, de dormir rodeada de reproduções de Rothko, de ir ao cinema ver Charles Boyer…
Uma mulher que serve de passaporte para uma expedição até Londres e arredores. Porque as viagens também são interiores!