Eu Estive Aqui Antes

Eu estive aqui antes
Alexandra Lucas Coelho

Publicado no jornal Público a 17/07/99

Tão desprevenido como Alice a cair no buraco, o leitor pega num livro de Ana Teresa Pereira (neste caso, “O Rosto de Deus”) e cai do outro lado do espelho, onde Céu e Inferno não se sucedem, coincidem: sol e lua sobrepostos num eclipse. É aqui que o leitor se vai reconhecer: de volta à infância, ao sono, ao que dorme em si.
O que há nesse lado de lá (que é sempre dentro) são fadas que são bruxas que são raparigas ruivas a entrançar os cabelos que são raparigas morenas de cabelo curto que andam de longos vestidos e descalças que andam de jeans e sandálias, que usam velhas pedras que usam pérolas que são deuses que são demónios que são rapazes louros sem marcas no rosto que são homens grisalhos com marcas no rosto que são Rainhas dos Infernos que são o Rosto de Deus. Todos em um e um em todos.
O que há é o assombro de quem reconhece diante do outro o outro de si. Como Marisa diante de Tom, pela primeira vez, “os nossos olhos cinzentos e iguais”. Não há primeira vez, não se avança, só se regressa. “I’ve been here before, you’ve been mine before” é o verso de Dante Gabriel Rossetti que ecoa obsessivamente dentro do eclipse constante em que se passam as histórias de Ana Teresa Pereira.
Eles estão lá, à espera que o leitor caia, Tom, Marisa, Patrícia, Paulo, e seus outros desdobramentos, ora pintores, ora escritores, em velhas casas com jardins de flores e frutos exuberantes, no extremo de cidades, no topo de montanhas, sobre o mar.
Eles estão lá, vagueiam de dia por praias de cascalho, à noite por lagos ao luar, são antigos, regressam dos mitos gregos, dos rituais xamãs, das telas de Gainsborough, dos poemas de Tennyson, dos contos de Poe, dos romances das Brönté, das novelas de Henry James, da interpretação dos sonhos de Freud, dos poemas de Yeats, das histórias de Iris Murdoch, das elipses de Hitchcock, dos westerns de Nicholas Ray, das mãos de Gleen Gould tocando as Variações de Goldberg, com um murmúrio longínquo e fluído.
Eles estão lá, ora estátuas de pedra, ora bichos, frios e carnais, entre a suspensão e o salto, o sono e o renascimento: “Mas de manhã ao acordar estávamos vivos, e ele dormia ainda, e eu puxava para cima os cobertores para protegê-lo do frio e ia à janela para ver se o mundo continuava a existir”.
Eles estão juntos porque são iguais, condenados a querer ser um, como os seres do “Banquete” de Platão, arrancados de si, carne da mesma carne, sangue do mesmo sangue, regressando à tona de dentro do leitor: o eu que é no que foi.
Eles são Grimm e Anderson e todas as vezes que alguém recomeçou a contar “era uma vez”, são as guardadoras de gansos, a pequena sereia, a menina dos fósforos, os soldadinhos de chumbo a acordar de noite no quarto dos brinquedos, as verrugas no nariz comprido das bruxas, a casinha de chocolate, a loja de antiguidades, os duendes nos bosques, os pesadelos das crianças, os gritos dos loucos, os pântanos, o musgo.
São Heathcliff e Cathy, Bogart e Ingrid Bergman, Jeremy Irons e Jeremy Irons em “Irmãos Inseparáveis” de Cronenberg, têm o rosto que o leitor tiver em si, são-no em várias vidas, impregnados de flores decompostas, densas águas paradas, transes minerais. São narcóticos, criam vício, devastam, devastam-se: foram um e não conseguem deixar de ser dois: “Esfomeados de amor, ‘ […] ‘E totalmente incapazes de amar”.
Era uma vez Perséfone, filha de Zeus e de Demeter. Um dia, quando colhia narcisos (mantendo a versão grega), é raptada por Plutão, o Rei dos Infernos, que com ela casa para fúria da ciosa Demeter. Zeus intercede: Perséfone estará de Verão com a mãe e de Inverno com o marido. Assim simbolizará a semente lançada à terra no Inverno para florescer no Verão.
Era uma vez Perséfone jovem estudante de pintura, recontada por Ana Teresa Pereira na primeira parte de “O Rosto de Deus”, precisamente intitulada A Rainha dos Infernos. Um dia recebe uma carta de um pintor que admira mas não conhece, Tom, a convidá-la para ir passar o Inverno com ele. Amam-se. Conhecem-se desde sempre. Ele tem o Rosto de Deus, que é o título da segunda parte: a do Tom escritor, amante de Patrícia e Marisa, amantes de Paulo. Tom tem o rosto de Deus e no fim desaparece. “Forçá-los-ei a ajoelharem-se aos teus pés e a reconhecer que eu te amei’ – murmurou Paulo. A frase vinha nas Escrituras; atravessei as chamas para te encontrar, caminhei sobre as águas para te encontrar, destruí povos inteiros para te encontrar.
Os homens que matei para te encontrar”.

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