Contra Todas as Evidências a Alegria

Contra Todas as Evidências a Alegria*

 

João Bonifácio
Sábado, 29 de Janeiro de 2005
Jornal Público, suplemento MilFolhas
“A linguagem é uma pele: esfrego a minha linguagem contra o outro.” Há, pelo menos, duas boas razões para abrir este texto com uma referência directa a Barthes. A palavra “esfrego” talvez não pareça a mais apropriada a um livro cujo tesouro mais perene (e quase secreto) reside numa delicadeza e enlevo do dizer raras – mas a ideia, essa, não podia ser mais apropriada. Porque do princípio ao fim de “Se Nos Encontrarmos de Novo” Ana Teresa Pereira cria um pequeno mundo em que a linguagem almeja ao tacto, à sensação do tacto, um mundo em que apenas se entra pela pele. E porque, aqui, a linguagem, mais que servir a linearidade dos factos até que a ordem do tecer instale a trama da narrativa, procura uma espécie de sensacionismo, ou, para usar uma palavra cara a Ashley, impressionismo. E, se este texto se inicia com uma citação, é também por aquela que pode constituir uma das maiores razões para a adesão ou afastamento do leitor em relação a este universo: o recorrente recurso a citações e referências à pintura, ao cinema, à literatura. Mais um pormenor: “Se Nos Encontrarmos de Novo” não é (apenas) um livro sobre o amor, não é (apenas) um livro sobre a morte – é, contra todas as evidências em contrário, uma novela sobre a ressurreição.

Escreve-se “impressionismo” – e há, aqui, um duplo sentido na palavra, correspondendo à ligação entre a linguagem e a pele: “impressionismo”, porque todo o mundo das personagens Ashley e Byrne (espelhos da mútua errância) orbita em torno do mundo da arte, “impressionismo” porque Ashley era pintora e, o livro encarregar-se-á de o demonstrar, todo o seu trabalho na pintura passa pelo tratar da luz. E “impressionismo”, porque o fio e a meada (que existem) não se desvelam enquanto sequência de factos em que o posterior implica e determina o subsequente. Não, do aqui se trata é de “impressões”, marcas na pele que uma palavra, um livro, um sorriso, um momento podem deixar: “Pode-se amar uma mulher por causa de um livro, de um poema sublinhado, de um filme a preto e branco, de uma casa, de um olhar de um homem quando fala dela, da forma como o seu cão a espera. Da reprodução de um Mondrian na parede da sala.”

“Pode-se amar uma mulher por causa de”. A frase vai ser repetida vezes sem conta. Como esta: “E ele tem o teu rosto, e os teus olhos, e a tua voz, e é irlandês e tem cinquenta e dois anos.” E as frases, estas e outras, vão voltar, como uma imagem esquecida na memória e revista obsessivamente à procura da oração perfeita, da proposição original. (Como Ashley e Byrne, Byrne que queria ser santo e abandonou tudo, Ashley que queria pintar, e não sabemos ao certo o que abandonou, como Ashley e Byrne que procuraram qualquer coisa e apenas a encontraram na morte, quando se encontraram de novo – “with a smile” -, como Ashley e Byrne que parecem procurar uma pureza original, impossível.) É este o método: impressões, momentos, efabulações de cada uma das personagens que aqui se concretizam, ali se alteram.

Byrne é irlandês e tem cinquenta e dois anos. Volta a Londres (depois de quê?, Retalhos, o que temos são retalhos e os retalhos vão-se unindo e o que temos no fim é uma trama indecisa e se calhar esse inacabamento diz-nos mais sobre ele do que um relatório obsessivo de minúcias, se calhar Byrne e Ashley são esse inacabamento) para escrever um livro sobre Iris Murdoch. Ed encontra-lhe um quarto numa casa. O que Byrne adivinha em Ashley pela forma como Ed fala dela só ele poderá saber. Byrne é irlandês e tem cinquenta e dois anos e Ed tem a mesma idade, conhecem-se desde os tempos em que Byrne deixou tudo para se tornar santo, haviam estudado juntos, e há uma pequena tensão entre eles à conta de uma paixoneta da filha de Ed, Rose, pelo amigo do pai. (Rose vai tornar-se amante de Ed. Tudo aqui é, apenas aparentemente, da ordem do mundano.) Ashley, a dona da casa, não está quando Byrne se instala. Ashley não tem por hábito estar.

Isto seria o suficiente para não haver acção, mas a acção, aqui, é a possibilidade que cada uma destas personagens tem de lidar com os seus demónios (os bons e os maus), de preencher os espaços da memória com as suas ficções pessoais.

E tudo, aqui, é esse jogo de autoficção. Compreendamo-nos: um romance é sempre uma ficção, mas estas personagens ficcionam-se, não por acontecimentos (quase nada acontece, quase tudo já aconteceu, Ana Teresa Pereira escreve apenas nos interstícios do desejo, no espaço ínfimo que separa a carne do pensar a carne, escreve acerca do ponto em que a carne se torna uma outra coisa, a carne aqui é uma desculpa), mas por inquisição – a si, aos outros. Símbolos e símbolos e símbolos: uma fotografia, uma reprodução de um quadro de Mondrian na parede da sala, tudo é motivo de “construção”, efabulização – do outro, de si. “Pode-se amar uma mulher por”. Pode.

Um capítulo acompanha Byrne, o seguinte acompanha Ashley. Cada capítulo roda em torno de um acontecimento mínimo, avança um pouco, explica isto, esconde aquilo. Símbolos e símbolos e símbolos e cada novo símbolo complementa o anterior. E as menções a quadros e versos, aqui, são uma trincheira: porque não é fácil a um leitor comum (imaginem um leitor comum, não nos peçam essa tarefa, seria penosa) entender que uma frase como “I always contradict myself” retirada de um filme como “Cruel Vitória” (e para isso era preciso que o leitor adivinhasse de onde vem a frase) não é uma citação gratuita, mas sim uma forma de avançar a narrativa no sentido em que Ana Teresa Pereira entende narrativa: um deambular em torno do deambular deste homem e desta mulher.

Cada capítulo desvela o anterior, corrige-o. Vamos sabendo que Ashley tem 35 anos. Que o rosto e a voz que Byrne tem são de Tom; que Tom, o tio de Ashley, deixou obra incompleta, um livro que nunca chegou a acabar e Ashley. Ashley é a obra incompleta de Tom.

E depois há a página 72, a terrível página 72.

E Byrne toma Ashley nos braços e pode-se amar uma mulher por tudo. Byrne e Ashley dizem um ao outro: “Eu amo-te.” Barthes: “Eu amo-te: a figura não se refere à declaração de amor, à confissão, mas à proferição repetida do grito de amor.” Talvez não se ame uma mulher ou um homem, mas o amor neles. Talvez Ashley ame um amor anterior (o de um certo homem à página 72, o do marido que perdeu, o da filha que perdeu) no amor de Byrne. Mas isto são apenas impressões de um leitor comum.

Toda a linguagem é um conjunto de marcas, dizia Derrida, mas talvez não só a linguagem. Talvez: “Talvez eu seja a escuridão na qual tu tinhas de mergulhar para renasceres”, diz Ashley a Byrne – e Ashley está a morrer e Byrne sabe-o. Talvez se tenham amado para poderem morrer, talvez, mas só talvez, “Se Nos Encontrarmos de Novo” não seja uma história de amor ou de morte, talvez seja e lenta fragmentação da luz no momento da ressurreição.

“Contra todas as evidências em contrário…”

*dois versos de Manuel Gusmão: “Contra todas as evidências em contrário/ a alegria”

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