Caminhar Sobre as Águas

Caminhar sobre as águas, Uma brilhante revisitação às obsessões de Ana Teresa Pereira
Helena Barbas

publicado no jornal Expresso, Cartaz, de 23-3-2002

Mais um livro de Ana Teresa Pereira, em que a autora acrescenta algumas facetas à sua sempre mesma galeria de personagens. Conta-nos a história de um par, Miguel, com nome de anjo – como o seu homónimo de A Casa do Nevoeiro, um pintor de anjos, ou o psiquiatra, «com nome de Arcanjo» de As Rosas Mortas; e Marisa, uma jovem estudante de filosofia, que com ele contracena, à semelhança ainda da heroína deste último romance (e personagens de uns outros tantos). Mas ficam-se por aqui quaisquer semelhanças, embora sejam ainda muitas outras as igualdades.
Há o cenário da casa velha encerrada entre plantas e pássaros, junto ao mar, situada num tempo moderno – com turistas e cafés – mas isolada dele pelas atmosferas que o narrador vai conseguindo criar. E são estes ambientes suscitados pelas referências a filmes, discos, músicas e actores, que melhor vão ancorar a história num presente nosso, embora sem datas.
Também as obsessões são as mesmas: o desejo de unidade, do encontro com o outro, a alma gémea, num esforço de reconstituição, sempre frustrada – ou humanamente insuportável – do andrógino primordial; a busca de uma linguagem suprababélica, a demanda de um sentido puro e total ou, no mínimo, não contaminado pela matéria.
Todas estas similitudes se depuram em A Linguagem dos Pássaros, uma pequena novela de estrutura linear e muito simples: um par que se constrói como amoroso desde a infância (Miguel tem onze anos e Marisa nove quando se conhecem), que descobre esse seu amor durante a adolescência e que, após algumas breves separações (os estudos de Miguel, as suas viagens pelo mundo) se reencontram para se casarem aos vinte e poucos anos. E até são muito felizes.
Mas mais do que inverter a impossibilidade teórica que preside ao romance – os amores felizes não têm história – este texto reconfirma-a pela introdução sucessiva de impedimentos ao apaziguamento com que terminam as estórias: «Estavam ali agora, e as suas mãos tocavam o rosto dele como as de uma cega, e tudo estava certo, tudo estava certo, não havia qualquer estranheza, e ele disse desta vez trouxe-te esmeraldas, as pedras do inferno, e ela pensou não temos medo do inferno, continuamos a ter ‘love’ escrito nas duas mãos, ‘leaning on the everlasting arms’.// – Meu Deus, meu amor, eu estive tão longe – disse Miguel minutos depois.// Longe, do outro lado do mundo, entre quadros e livros, e mares e neve, e estrelas frias, e braços frios, braços e asas, anjos esquecidos em velhos museus, o vazio, o caos.// Ela olhou em volta, para o calor familiar dos livros, da lareira apagada, a janela entreaberta pela qual entrava o cheiro dos lilases, o som do mar, e sussurrou:// – Eu também.» (pág. 56)
Todas as ausências são fatais, todos os regressos rasuram o tempo do intervalo e da espera. Porque o impedimento primeiro a qualquer realização é a condição humana: «Olharam-se nos olhos e ela pensou que talvez fizesse sentido, talvez eles fossem capazes de caminhar sobre as águas, talvez fossem imortais. A ideia era assustadora, mas não muito, pelo menos para ela. Era Miguel que tinha medo, era sempre ele que tinha medo. Envolveu-o nos braços para lhe dar segurança, para lhe dar calor.// – Se tu estás comigo eu sou mais forte – disse./ Mas se o perdesse ficaria reduzida a nada. Enquanto que ele podia viver sem ela, solitário, perdido, mas podia viver sem ela.» (pág. 66).
A intensa relação amorosa entre Miguel e Marisa revela-se como mero pretexto para a um discurso sobre impossibilidade humana de eternizar a paixão. E porque se trata de um romance, descobrem-se alternativas à continuidade dos afectos que ultrapassam os condicionalismos impostos pelas coisas, pelo corpo, pelo tempo. E porque se trata de um romance, usam-se as palavras para ultrapassar esses limites, dando-nos Ana Teresa Pereira um texto muito próximo do encantatório, a raiar o que se imagina poderá ser essa linguagem dos pássaros que o herói procura: «…dizia palavras que ela não entendia e que não lhe interessavam, ele poderia estudar todas as línguas mas nunca conheceria a linguagem dos pássaros, essa não está nos livros, ou talvez nos de Iris Murdock e Rupert Brooke, é uma linguagem, mas é também um outro plano da consciência, um pouco como caminhar sobre as águas…» (pág. 91).

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