Branco Deserto Imenso

Branco
deserto
imenso

Ana Teresa Pereira em registo cru, desolado e incontornável

Manuel de Freitas
EXPRESSO, Actual, n.º 1790, 17 de Fevereiro de 2007

A neve
Ana Teresa Pereira
Relógio d’Água
2006, 112 pags. € 11

Este livro quase nos obriga a um começo impróprio, desaconselhável segundo todas as regras hermenêuticas, mas nem por isso menos imperioso: de facto não é irrelevante o conhecimento do “lugar” a que A Neve é dedicado. «Para a Quinta do Palheiro Ferreiro, onde nasceram tantas histórias» (pág. 7), está longe de ser quer um capricho isolado quer um apontamento turístico, numa ilha concreta e situável, onde a barbárie do betão, sob camuflado fascismo, tem conhecido extremos de que só o pior Algarve é capaz. Essa quinta, simultaneamente real e fantasmática possui ainda hoje os ingredientes fundamentais dos melhores pesadelos de Henry James e esteve na origem de muitos dos «fairy tales» com que já nos surpreendeu Ana Teresa Pereira. Dir-me-ão, com plena justiça, que “o silêncio pesado da capela» (pág. 13) poderá ter como referente muitos outros lugares, ou que não é preciso ter-se estado em Davos para perceber o torpor de Hans Castorp ou em Quaunahuac para sentir o desespero de Geoffrey Firmin. Certamente que não. Mas, sintomaticamente, Ana Teresa Pereira acrescenta: «posso continuar a escrever a vida toda sem sair deste jardim» (pág. 13).

Talvez seja assim há muito tempo; ou o tempo tenha mesmo perdido toda a sua importância face á desmemória da infância e ao absoluto poder que nela então se pressente: «Aos onze ou doze anos acreditava que era capaz de fazer nevar (pág. 18). Rose e Rose indistinguem-se, mulher e criança que se encontram furtivamente nas páginas deste livro branco que (para imitar a neve?) se faz de acumulados fragmentos, murmúrios breves. Aí, porém, nos podemos deparar com súbitas iluminações que trazem a esta escrita um modo inesperado de autodecifração: «Havia sempre um homem e um livro, pelo menos um homem e um livro, um homem que algum tempo antes desejara com todas as suas forças e que agora não passava de um estranho, um livro que desejara com todas as suas forças e que morria lentamente debaixo dos seus dedos» (pág..16). Tão improvável como a neve em Agosto — ou nesse Agosto quase perpétuo que recai sobre a Quinta do Palheiro Ferreiro — é a confissão diferida que a certa altura nos tolhe: “Nunca sentira que existisse unia separação definida entre o que escrevia e ela própria, era doloroso, quase insuportável, e era assim que devia ser, de outra forma não valia a pena» (pág. 83).

Não desesperem, porém, os que mais «diegeticamente» têm acompanhado o invulgar percurso de Ana Teresa Pereira. Existe neste livro uma surda e violenta história de amor, ou de quase impronunciado sexo, algures muna estalagem que se chamou Jamaica Inn (tributo a Daphne du Maurier ou ao filme “maldito» de Hitchcock que nesse texto se inspirou). E também não faltam, com a mesma pose nenhuma de sempre, as referências a Robert Browning, Turner, Paganini, Ted Hughes, John Dickson Carr. São, entre tantos outros, os anjos e demónios que esta escrita há muito reclama como seus. Mas nunca, parece-me, o fez de um modo tão despojado, que apeteceria até colocar sob a égide de Rothko (outra figura tutelar deste universo fechado), a quem talvez não desagradasse a extrema austeridade de uma capela onde tudo, de novo, se funde: «os livros são como os amantes, o último é sempre o primeiro. Ele é o meu primeiro amor, este é o meu primeiro livro» (p 97). E é isso, como a neve em Agosto, que se toma paradoxalmente verdadeiro a cada novo livro de Ana Teresa Pereira: a diferença entre Rose e Rose num mesmo jardim.

Anúncios