Às Vezes Basta Um Rosto

Às vezes basta um rosto, in Ípsilon, 13-7-2007, p. 44, recensão de Eduardo Pitta, de “Quando atravessares o rio”.

Nos últimos dezoito anos, Ana Teresa Pereira (n. 1958) construiu uma das obras mais coerentes e sólidas da ficção nacional. De facto, sem que quase déssemos por isso, os mais de vinte romances que publicou, oscilando entre os fairy tales, o fantástico, o policial e o western, não necessariamente por esta ordem, fizeram do seu nome uma referência incontornável. Num país que privilegia uma peculiar noção de romance, os seus, enganadoramente distribuídos por vários géneros, contrariam o discurso de “ideias” frouxas e importadas de tantos dos seus pares. Quando Atravessares o Rio, o último em data, prova que se pode fazer boa ficção sem abdicar da inteligência. Sirvam de exemplo Agustina Bessa-Luís, Maria Velho da Costa, Lídia Jorge, Hélia Correia, Luísa Costa Gomes e Clara Pinto Correia (sem proselitismo, é forçoso reconhecer o peso das mulheres na nossa ficção). Quando Ana Teresa Pereira mete Dorothy Sayers, uma sua ilustre predecessora, no fio da intriga, ou quando nos faz entrar num quadro de Whistler por uma rua muito escura, não deixa de ficcionar sem com isso fazer tábua rasa da densa rede de referentes literários, fílmicos e sociológicos, de origem predominantemente anglo-saxónica (e tão variados que vão de Enid Blyton a William Irish), que pontuam os seus livros. Tendo-se estreado com um romance policial, Matar a Imagem (1989), o rótulo de escritora de policiais só não colou porque a heterodoxia com que lida com os vários géneros torna problemático esse tipo de classificação. Mesmo quando aparentam falar de outra coisa, é da impossibilidade do afecto (entre dois amantes, entre pais e filhos) que os seus livros falam. E são sempre muito bem escritos. Parecerá redundante que isto seja dito assim de uma escritora com obra feita. Mas a ressalva é importante para estabelecer a linha de fronteira do saber fazer. Ao arrepio da escrita mimética e ininteligível — não confundir ininteligibilidade com estranhamento — de muito do que entre nós vai passando por ficção, a de Ana Teresa Pereira é luminosa e sedutora. Não sei se a filosofia (cujos estudos abandonou para dedicar-se por inteiro à literatura) ajudou. Sei que limpa as frases de toda a enxúndia e que é exímia na criação de atmosferas que a nossa memória retém, porque há detalhes que saltam de história para história, e o mesmo acontece com certas personagens e situações, como num continuum de cenas. Afinal de contas, «os livros de um escritor estão contados. E depois ele fica sozinho com os seus demónios.» Neste voltamos a encontrar Katie e Tom, ainda que as respectivas personas não coincidam com a nossa lembrança deles. Quem, entre outros, tenha lido A Última História (1991) ou O Mar de Gelo (2005), sabe do que falo. Quando Atravessares o Rio começa em Amesterdão, uma cidade que podemos percorrer em círculos. Exactamente como quando lemos os livros de Ana Teresa Pereira sem nos perdermos na malha intrincada dos seus duplos: «Então reparou na mulher imóvel em frente do pessegueiro cor-de-rosa. As árvores e a erva que crescia entre elas. […] Katie pensou que as outras pessoas iam reparar na semelhança, que de um instante para o outro estariam a fixá-las com incredulidade. […] Afinal, dias antes, encontrara o actor dos seus livros. O protagonista dos seus livros. E a mulher dos seus livros parecia-se com ela mesma…» Depois do fim-de-semana holandês, o plot centra-se em Londres (e há um entreacto em Oxford), cidade onde reencontramos a rapariga do Museu Van Gogh e, mais importante, Tom, o actor dos «seus livros» e o desconhecido de Amesterdão. Enquanto o escritor não se for embora, eles permanecem. A mnemónica de Katie é um precioso guia de leitura, e como Ana Teresa Pereira domina bem aquilo que em teoria da narrativa se chama experiencing self (cf. F. K. Stanzel, 1984), estabelece-se um equilíbrio perfeito entre o monólogo interior e a organização do tempo, encandeando com naturalidade e distância crítica factos passados e presentes. Não admira que a autobiografia seja uma tentação: «A carreira académica não a interessava nem um pouco, uma longa vida a dar aulas, a publicar pequenos ensaios, a acumular títulos.» Ou, como se diz na última frase do livro, «Ela sempre achara muito fácil entrar e sair na eternidade.» Como é seu timbre, Ana Teresa Pereira enreda-nos num permanente jogo de espelhos. «Às vezes basta um rosto, disse Poirot», e ela repete várias vezes. É verdade. Um rosto, um livro.

Às vezes basta um rosto, in Ípsilon, 13-7-2007, p. 44. Quatro estrelas e meia.

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