As Duas Casas

Manuel de Freitas
EXPRESSO, Actual n.º 1911, 13-6-2009

Ana Teresa Pereira
As Duas Casas
Relógio D’Água, 2009, 146 pags. € 10

Conto: Um reencontro com o inimitável talento narrativo de Ana Teresa Pereira

De há uns anos para cá, Ana Teresa Pereira reescreveu alguns dos seus primeiros textos. Em “As Duas Casas”, exemplo mais recente dessa prática, são retomados os contos “A Casa das Sombras” (1991) e “A Casa do Nevoeiro” (1992), que se poderiam arrumar na categoria da literatura infanto-juvenil. Detenhamo-nos, para já, no processo de reescrita a que autora se dispôs, verificando que há mudanças tão drásticas como a dos nomes dos personagens (Cristina passa a chamar-se Rita, e o cão Charlie tem agora por nome Indy) que formam um quarteto fatalmente evocador dos Cinco de Enid Blyton. Mais significativo, ainda, é o evidente desejo de depuração que assiste a esta reescrita. Onde antes estava “Tinha à sua frente um monte de páginas vazias. Sem uma palavra escrita” passa a ler-se “Tinha à sua frente um monte de páginas em branco”. Mas depuração não é sinónimo de supressão. Há frases que são acrescentadas, formulações alteradas em prol da maior exactidão possível, sinais de pontuação repensados. Os capítulos, por seu lado, merecem agora títulos tão sugestivos como “Um lugar que só existe às vezes”. Nada disto surpreenderá os leitores das obras mais recentes de Ana Teresa Pereira; é para a concisão, para uma crua e desarmante sobriedade que esta escrita parece encaminhar-se, nos antípodas do lirismo aleatório ou da pobreza confrangedora em que soçobram tantos dos nossos prosadores. Aqui, no suposto registo da chamada literatura juvenil, dão-se a ler as obsessões principais de uma escritora maior que não desiste de conviver com os seus avatares, sejam eles Swedenborg, Chesterton, Poe, Balzac, Conan Doyle, ou Rilke. Não faltam, pois, sinistras bibliotecas, passagens secretas que levam para outros livros, anjos terríveis que só na pintura se tornam reais, casas e contos que se revelam duplos e contíguos. Mas seria erróneo ver nesta “estranheza familiar” qualquer truque místico: uma aura de mistério (e “a vida é sempre misteriosa”, por mais banal que pareça) envolve locais tão geograficamente precisos como o Jardim da Serra e o Paul do Mar. Precisa e inconfundível é também a figura da escritora (a tia Carla) que em ambos os contos tutela, numa espécie de distracção criadora, as aventuras dos cinco pequenos detectives. É quase inevitável ver nela um alter ego da autora – que escreve, dentro do livro, o livro e vive fora do mundo para que o seu mundo exista. No fundo, talvez se trate apenas de preservar em nós a infância: “Ser criança é gostar daquilo que é importante, a natureza, os quadros, os anjos”.

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