Anjos Mais ou Menos Caídos

Anjos mais ou menos caídos, dois livros de Ana Teresa Pereira com sombras de Íris Murdoch
Helena Barbas

publicado no jornal Expresso

Está a tornar-se uma redundância dizer bem de Ana Teresa Pereira. E, para cumprir a regra que ela própria estabeleceu, os dois livros que aqui se referem em nada desmerecem da qualidade e experimentações a que nos habituou. Com um “senão” que adiante se referirá.
Mas comecemos pelo princípio. Em O Ponto de Vista dos Demónios foram reunidas as suas crónicas no suplemento literário do “Público”: mais uma experiência num novo “género” para juntar à multiplicidade de registos que vai acumulando na sua longa biografia. São pequenas reflexões sobre fascínios muito pessoais; meditações desencadeadas por outras obras de arte, do passado e do presente, da literatura, do cinema, da música, da pintura. Nalguns casos, re-conta-nos essas criações pelas suas palavras, pelo seu olhar, numa disfarçada “ekphrasis”. Noutros oferece-nos uma versão diferente do original, como este poderia ou deveria ter sido. Mergulha nas obras ressuscitando-nos uma personagem, um autor. Homenagens e gratidões onde perpassam as temáticas de outros livros – anjos mais ou menos caídos, “deuses animais, espíritos soltos que vagueiam no vazio”, as casas, pedras e fantasmas, mas principalmente o de Íris Murdoch.
É a esta autora que dedica Intimações de Morte, que traz como epígrafe o Salmo 139 (em inglês): “porque criaste o meu ser mais interior…”, aqui a declaração de uma poética. O romance tem por heroína Jane Frost, talvez avatar de Murdoch, talvez duplo de Ana Teresa. Uma viagem da infância à idade adulta, uma educação sentimental ponteada mais uma vez e sempre por todas as artes, por mais uns anjos, um Michael e um Tom – nomes de outras histórias a desempenhar diferentes funções.
Mas este romance belíssimo traz uma marca – o tal senão – o recurso ao “seu/sua” pelo “dele/dela”. Trata-se de uma muito nova e modernaça “normalização” imposta pelos correctores ortográficos, que se está a expandir em epidemia incontrolável nos “media”. Pode parecer chique, mas não é. E não pertence às estratégias de escrita de Ana Teresa Pereira. Veja-se, por exemplo: “Tom nascera do seu desejo, fora ela que o fizera vir à superfície, do oceano remoto onde vivia, do mundo escuro onde hibernavam os monstros, sentada nos degraus do alpendre olhava para as suas pernas nuas que o sol tornara muito morenas… “ (pág. 47) – as pernas dele ou dela?
E ainda: “Ajudou-a a despir-se e a vestir o pijama, um dos seus, pensou que o azul lhe ficava bem, a sua pele era muito macia, (…) (pág. 55) – o pijama, a pele de quem? Aqui instaura-se uma ambiguidade quanto à posse que nada tem a ver com a prática habitual e muito esmerada da autora. Na ficha aparece uma “Revisão técnica” atribuída a Raquel Dang – calculamos que a responsabilidade seja “dela”.

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