A Sedução do Diabólico

A Sedução do Diabólico
Anabela sardo

Publicado na Ciberkiosk

I – A sedução do diabólico

Dos livros de Ana Teresa Pereira se pode dizer que o que neles se pensa, se está sentindo. O eu não se objectiva em situações convencionais e as palavras não chegam para revelar a vida. Só parcialmente o fazem. Exprimir a existência que nos singulariza implica uma depuração constante da linguagem para que a palavra se abeire da verdade. Aproximar-se da linguagem que não atraiçoa, “a linguagem dos pássaros” (p.133), ou uma muito próxima, surge como um desejo na obra desta autora, que procura ultrapassar a linguagem da razão, embebendo-a de emotividade, tentando derramar o que está para além do visível.
Os seus livros esboçam o ininteligível e são, cada vez mais, enigmáticos, povoados de imagens simbólicas, obscuras e misteriosas, reflectindo a relatividade das coisas visíveis, expressando a convicção de que, em termos do universo como um todo, o visível é apenas um exemplo isolado e que outras verdades existem, latentes. As imagens sugerem mais do que descrevem e o simbolismo, por vezes irracional, aponta para o invisível, deixando espaço ao leitor para compreender, como se afirma numa das obras anteriores, “os enigmas da vida e da morte como se fosse um jogo”.
Há, contudo, um excesso do eu onde a palavra não chega e só é acessível à Arte, que não explica, antes metamorfoseia as emoções através de símbolos, abrindo espaço ao silêncio. A Arte (a pintura, a música e o cinema), associada à Literatura, torna-se a voz das profundezas, anunciando um sentir radical no eco de uma memória perdida. A visão simbólica define a magia da arte de Ana Teresa Pereira, que, através de um universo de analogias, parte e volta ao literário na forma da escrita.
No livro Se Eu Morrer Antes de Acordar, reaparece o universo obsessivo da autora dentro de um quadro de mistério ontológico. As obsessões renascem, filtradas por um onirismo suspenso que envolve os seus textos na aura mágica dos contos de fadas. A presença do esotérico, o gosto pelo non-sens e pela expressão de um erotismo constante interliga-se com um etéreo lirismo de sugestão romântica.
Belas personagens, estranhas e enigmáticas, as mesmas de sempre, seduzidas diabolicamente pelo outro lado, abandonaram definitivamente o mundo normal para viverem, ambiguamente, numa espécie de irrealidade, num “mundo paralelo” (p.125).
Os acontecimentos não são como na realidade, mas como preenchem os sonhos que não se separam dos pesadelos. Assim, a realidade converte-se em irrealidade, os anjos são demónios, e os deuses e as feiticeiras misturam-se com as pessoas normais. E, em deleitáveis e fádicos lugares, desvendam-se pormenores ameaçadores e terríveis.
As flores e os perfumes envolvem os espaços obsessivos (a casa, a biblioteca, o quarto, o jardim, o mar), que ressurgem rodeados pela magia a que textos anteriores foram habituando o leitor, e interligam os diferentes contos. Aparecem estreitamente relacionados com as personagens excepcionais e inusitadas e ligam-se a imagens íntimas, imagens de livros, quadros e filmes.
A dimensão temporal revela-se indefinida, numa espécie de tempo suspenso, tudo acontecendo desde sempre e para sempre, porque existe “todo o tempo do mundo” (p.50). Está presente uma concepção de tempo que nada tem a ver com o tempo linear e limitado de cada ser. A ideia do eterno retorno transparece em alusões, símbolos e enigmas, os acontecimentos repetindo-se numa circularidade sem fim, que as personagens sentem, ambiguamente, como a “sua condenação” e a “sua bênção” (p. 50), e que provoca, no leitor, indeléveis impressões labirínticas. A esta concepção de tempo alia-se todo um simbolismo cósmico que marca o retorno ao centro e a possibilidade de uma transcendência que admite que a morte não é mais do que uma porta por onde passa o ciclo da vida. Afirma-se a existência do ser na negação do tempo e aproxima-se o tempo humano à regularidade cíclica do tempo divino.
“As pessoas felizes não têm história” (p.90). Assim, estes textos contam histórias em que a questão do amor é tratada de forma trágica. Metaforizada ao longo dos textos pela relação entre uma mulher e um homem, e essa mesma mulher e um outro homem que não tem existência tangível, parece insinuar-se que o amor é eterno, não finito no tempo e independente de toda a contingência limitativa, a pulsão fundamental do ser que assegura a continuidade e coesão interna do cosmos. Contudo, no decorrer dos textos, fica a certeza de que as personagens de Ana Teresa Pereira vivem num mundo sem amor, limitando-se a cumprir tarefas pré-determinadas às quais é impossível escapar. E todos os relacionamentos reais, que poderiam conduzir a experiências de amor concreto, são totalmente abandonados pelas personagens que fantasmas adormecidos, entretanto despertados, perturbam e arrebatam. E, por isso, o seu mundo é de silêncio, solidão e medo. Atraídas, inexoravelmente, pelo outro lado, elas anseiam recordar “a sua história, uma só, esquecida” (p.49), numa obsessão pelo essencial e na tentativa de reencontrar a memória remota da unidade primordial.
Tom, a personagem que perpassa a obra de Ana Teresa Pereira, ressurge misteriosamente, nos quatro contos, determinando os acontecimentos. O tipo de atracção que Tom exerce, e o poder que lhe é conferido, parece resultar da teia de imagens que a personagem feminina, delineada com poderes que ultrapassam o conhecimento e a vontade, constrói à sua volta, dos desejos que nele projecta e do encantamento paralisante do outro lado, que a impede de ver para além das suas fantasias. O carácter sedutor e destrutivo de Tom, “anjo, homem, pássaro” (p.41), belo e terrível, que é um deus, que é um monstro, é explorado sob a perspectiva do fascínio irresistível do desvelamento de “todos os segredos” (p.129) e da atracção física. Ele possui um rosto antigo, um olhar cinzento e forte e envolve as personagens (a personagem), dominadas por um enorme desejo, nas suas “asas negras” (p.153). E, estranhamente, esta é a protecção de que precisam, onde se sentem bem, com medo, nos braços dos “deuses” que são “monstros”, um pintor, um músico, um poeta…
No primeiro conto, que tem como título «Anamnese», Tom convoca a ideia de fascínio, tentação e medo e é apontado como um “ser da noite” (p.49), “um anjo negro”(p.50) que proporciona a Carla ” uma felicidade feita de calor, de desejo, de sangue, anterior à pele, ao pensamento, talvez mesmo ao instinto” (p.51), afastando-a de Daniel, o seu “anjo branco” (p.48). Tal como Carla, também Marisa, Patrícia ou Iris (as personagens dos restantes três contos) representam a tendência manifesta de se centrar em si próprio e organizar a realidade, enquadrando-a dentro dos seus padrões e esquemas de significação, numa espécie de “nadar dentro de si” voltado “para dentro” (p.183).
Os quatro contos traçam os percursos da sedução obsessiva e diabólica do centro, do essencial e da unidade, inscrevendo-se numa espécie de tragicidade. E, embora se manifestem possibilidades de fuga a esse aprisionamento, elas são afastadas pelas personagens para quem o mundo, feito de imagens, visões geladas e pesadelos, é um lugar estranho e aterrador. E nem o sol consegue desvanecer o terror e a certeza de que tudo se reescreve “infinitamente” (p.128) e que, afinal, “as rosas, como as esmeraldas,” têm “origem no inferno” (p.99).

II – Os irresistíveis anjos caídos

Nos livros anteriores de Ana Teresa Pereira, as personagens debatiam-se com a impossibilidade de permanecer no aparente mundo real, o lado de cá, bem como com a de passar para o outro lado, a não ser através da morte. Em Se Eu Morrer Antes de Acordar, na sequência do que tinha sido delineado em O Rosto de Deus, todas as ligações com o mundo real desaparecem por completo e as personagens encontram-se definitivamente do outro lado.
No primeiro conto, Carla, que diversos indícios apontam como sendo uma feiticeira, tem plena consciência do lado a que pertence e, por esse motivo, aceita a sua natureza, porque ela “não pertencia ali, estava do lado das trevas, as trevas frias (e o calor das asas, de desejo), o caos sobre o qual nenhuma luz pairava. E estava certo” (p.48). O seu lado é o de Tom, repetindo a mesma história desde sempre e para sempre, porque, “de qualquer forma…das formas mais estranhas…” é sempre com ele que ela vai ter. O seu destino é o mesmo das outras mulheres, cujos túmulos encontra, porque, tal como refere o poema de William Blake, que paira no texto, «his dark secret love / Does thy life destroy» (p.44).
No segundo, «Flores para uma feiticeira», revela-se a incapacidade de escapar àquilo que funciona efectivamente como uma espécie de destino, uma teia de pré-determinação que submete todos os que procuram os segredos das palavras. Marisa, uma criatura estranha, com “aquela beleza de anjo selvagem” (p.57), cujos olhos escondem “mistérios talvez terríveis”(p.69), pertence, sem o saber, a uma linhagem de feiticeiras. Não pode, apesar do seu desconhecimento consciente, escapar ao instinto, à “coisa que ela era”, à “sua verdadeira natureza” (p.76), que Paulo (Tom) acaba por descobrir. O mesmo acontecerá à sua filha que, ao contrário da mãe tem “o conhecimento antigo, que vinha do fundo dos tempos” (p.93), que lhe permite saber quem é.
O conto «Pássaro Quase Mortal da Alma» repete e esclarece alguns aspectos que vinham aparecendo obsessivamente, ao longo dos livros anteriores, sem se afastar do esquema estabelecido pelos dois contos precedentes e pelo último que dá o título ao livro. Patrícia, uma jovem que ainda não completara vinte e cinco anos, como as duas mulheres dos contos já focados, responde a um anúncio para ir organizar uma biblioteca numa casa particular. A casa, que se chama o Castelo, fica num lugar estranho “num vale perdido entre montanhas, um lugar solitário, longe do mundo” (p.101), como todos os lugares que procuram as personagens de Ana Teresa Pereira. Um lugar dos livros, silencioso e ermo, de uma beleza absoluta, envolvido por um mistério acolhedor, “a prisão dos pássaros e das estrelas” (p.121).
Tal como na primeira história, também é com Tom que Patrícia vai querer ficar, para sempre. Tom é o dono da casa, um homem novo que é velho, que é um pássaro, que é um anjo e tem aquela beleza terrível, sedutora e diabólica, que olha para Patrícia “como se olha algo que nos pertence, que é parte de nós” (p.115) e a prende para sempre. Tom e Patrícia repetem a história ancestral que ela encontrara dispersa num livro, como uma longa pintura.
É O Livro de Henoch, diversas vezes referido ao longo dos textos da autora, que aparece subjacente e Tom é um anjo caído, detentor do conhecimento que vem do fundo dos tempos, e que ensina todos os segredos. Carla/Marisa/Patrícia/Iris amam Tom com um desejo sensual e intenso, “tornando o seu corpo um só com o dele” (p.45).
Patrícia aprende a “linguagem dos pássaros” (p.133) e sofre uma metamorfose. A linguagem dos pássaros, ou uma muito próxima, é aquela que a maioria dos humanos teria esquecido, por completo, a linguagem do mundo, aquilo que eram. E só alguns, muito poucos, ainda se vão lembrando dela, os alquimistas, os padres que negaram a existência de Deus, alguns músicos… poucos poetas (cf. p.133).

III – A nostalgia da unidade

Nestes contos, reaparece um tópico recorrente e fundamental em Ana Teresa Pereira e que remete para um peculiar conceito de felicidade, “que não é felicidade, é outra coisa”. Este estado de “felicidade” resume a busca constante das personagens: a realização da unidade. No primeiro conto, Carla recorda, do outro lado das rochas, junto de Tom, “através daquele amor que (…) vinha do fundo do poço do tempo” (p51), a sua história. Olha para dentro da sua bola de cristal e não vê “nada. Nem mesmo o seu reflexo (…). Apenas os insondáveis castelos de gelo, onde não havia nada (…) A bola de cristal inteira, perfeita, a unidade realizada. E estava certo” (p.51).
Em «Flores para uma feiticeira», Paulo é Tom que acaba por reconhecer, em Marisa, a mulher do primeiro conto e perceber que ambos se procuravam, nas noites de nevoeiro, “porque se sentiam incompletos, porque só juntos atingiriam a unidade” (p.87). E Patrícia, de «Pássaro quase mortal da alma», atinge, através de Tom, ” a unidade, a presença absoluta. Como Deus. (…) Mesmo antes de Deus (…) quando a luz e as trevas eram uma coisa só” (p.139).
No último conto, «Se eu morrer antes de acordar», não restam dúvidas de que Iris é Patrícia e de que Patrícia é Marisa que é Carla. E Tom, o mesmo Tom de sempre, o duplo, manifestação do inconsciente que, sob mil formas, se exprime apenas por enigmas. Tom é, diabolicamente, a negação do eu e o outro do eu, que impede a visão do outro exterior.

IV – A paixão da Literatura

Destes textos se desprende a inegável certeza de que nada de mais fundamental existe que a escrita, o mais importante entre os segredos revelados, “a causa de que muitos homens se perdessem desde sempre e para sempre” (p.133).
Os livros de Ana Teresa Pereira vivem de outros livros, das imagens que percorrem os tempos e forjam a existência humana. É um território onde se pode conciliar o inconciliável, realizar o inexequível. As personagens, sempre especiais, têm a imaterial consistência dessas imagens, o que lhes permite todas as metamorfoses. A sua vida depende da vontade do escritor, que se transforma num deus, ou num monstro, capaz de criar mundos dentro do mundo, dar a vida ou decidir a morte.
E é um desses deuses que a autora celebra no último conto. Iris Murdoch é uma referência constante, quase obsessiva, na obra de Ana Teresa Pereira. A forma como a escritora irlandesa emerge no texto revela a extrema admiração, quase uma forma de adoração, “—You were adored once, Iris. Tu és adorada… (p.184), por parte da autora de Se eu morrer antes de acordar. A elegia começa com a presença das citações preliminares, que servem de epígrafe ao primeiro e terceiro contos, e culmina no conto que dá título ao livro, porquanto se une, em Iris, a história de Iris Murdoch (ou a leitura que a autora faz de parte da sua vida) com as suas próprias histórias e obsessões. Iris é Iris Murdoch, mas é também Ana Teresa Pereira, na medida em que as personagens e os textos parecem revelar a imagem da escritora: “…não havia nenhum escritor vivo que lhe fizesse falta. Ted Hughes morrera, e Marguerite Duras, e a escritora que mais amava, e nenhum deles escreveria um próximo livro…» (p.170).

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