A Ordem do Caos

A ordem do caos – Um romance de amor e morte, da vingança das forças da terra e da lua
Helena Barbas

Publicado no jornal Expresso a 15/08/98

NESTE último livro de Ana Teresa Pereira, o seu primeiro romance pela extensão, e não policial pelo registo, culminam todas as obsessões e estratégias até aqui exploradas por esta autora, fértil pelo modo sempre diferente como no las apresenta.
A inspiração britânica evidencia-se logo na capa – o quadro The Day Dream (1880), onde Dante Gabriel Rossetti usou como modelo Jane Burdon, depois Morris. A influência de Rossetti prolonga-se texto adentro, num poema citado: «I have been here before» («Sudden Light») a sugerir a ligação entre os amantes vinda de vidas anteriores. E começa assim o primeiro capítulo: «É a primeira vez que nasço como mulher. Há ainda em mim um rasto de bicho, um rasto de nevoeiro.» Esta é a protagonista, pintora e modelo de si própria, também escultora: «Vesti a T-shirt branca de trabalho e sem tomar duche fui para o atelier. Ao fim de algumas horas, o ser que me saiu das mãos era o mais horrendo de todos, e ao mesmo tempo o mais comovedor. Fiquei a olhá-lo durante algum tempo e depois enterrei os dedos na massa mole até desfazer a figura por completo» (pág. 67). Pela redundância da roupa e dos gestos, entende-se que seja a figura do prólogo, onde a escultura se transforma em bruxaria, ironizadas como duplicação do acto criador genésico: «A mulher procurou qualquer coisa no bolso da camisola: uma minúscula bola de pêlos de gato e duas penas de pássaro. Mergulhou as mãos na terra, tirou um pedaço de lama e misturou-a com as folhas, as flores, os pêlos, as penas. Os seus dedos ágeis amassaram por momentos aquela matéria, e começaram a modelar uma figura» (pág. 13). Esta mulher que trabalha o barro, acaba também a modelar à sua maneira os seres humanos e os seus destinos. Chama-se Marisa. Conhece Paulo, aspirante a poeta, numa exposição sua: «Ele ficou perturbado a primeira vez que o trouxe a casa. A minha casa, no centro do meu jardim murado. Os hotéis (…) aproximam-se com uma rapidez terrível, mas ela está ali, ainda sozinha, as árvores protegem a sua intimidade. É enorme e parece-se com uma gravura antiga, com manchas do tempo, com a beleza um pouco triste do tempo e do abandono./ Um velho castelo» (pág. 26). Um castelo assombrado para uma princesa-bruxa. Paulo começa a ser arrastado para o mundo de Marisa, a mulher-elfo que se pinta envolta em nevoeiro, monstros e asas de pássaros. «Os pássaros dormiam nos seus ninhos e os monstros no fundo das cavernas, no ventre da terra. Tudo estava igual. Mas ele transformava-se, lentamente… e tinha medo, tanto medo./ E não me acreditava quando lhe dizia que devia deixar a metamorfose ir até ao fim» (pág.63). A fé de Paulo não lhe dá forças para vencer o medo nem os monstros, e recorre à ciência. Entrega-se nas mãos de Miguel, um psiquiatra com nome de Arcanjo. Mas Miguel não reconhece a diferença entre «a doença humana e o toque dos deuses» e, apesar do seu nome, não sabe falar nem reconhecer a linguagem dos anjos e dos pássaros. Marisa define-o: «o ‘sujeito suposto saber’, o ‘médico da alma’, cheio de segurança, pronto a perceber o amor e o ódio, a explicar o suicídio, a desfazer de uma palhetada a existência de Deus ou o medo da morte, o ‘sujeito suposto saber’ que tanto pode receitar um ansiolítico como electrochoques» (pág. 201). Por oposição, parte deste romance ecoa e inverte a intriga de Num Lugar solitário – em que Ana Teresa se debruça sobre a relação médica-paciente durante e depois da análise. E também aqui ataca a situação de «transfer», embora sendo outra a tónica, e mais elaborado o modo.
Miguel é casado com Helena, formando ambos o segundo par da história. Um casal burguês exemplar, com vida, filhos e uma casa exemplares. Solar. Helena: «não sonhava com répteis e serpentes, e se sonhava esquecia os sonhos, aquela mulher não tinha nada a puxá-la para baixo, para o caos, vivia à superfície, vivia na luz, na segurança» (pág. 91). E também eles vão ser contaminados pelo mundo lunar de Marisa.
O romance vai evoluindo a explorar – nunca de forma primária – a luta entre o solar e o lunar, encenando os antagonismos entre duas ordens de valor igual e sinal diferente; a impossível pretensão de o primeiro entender o segundo com regras e normas suas; a força persistente do segundo em exigir o cumprimento das suas leis inexoráveis. Mesmo a Marisa, que no final invoca de novo a tradição inglesa, identificando-se agora com a figura feminina da «Lady of Shalott» de Tennyson – a mulher encerrada na torre do seu castelo, que só podia olhar o mundo por intermédio de um espelho. Nele vê Lancelot, por quem se apaixona. Vira-se. O espelho quebra-se, e cai-lhe em cima a maldição que a prendia, e que ela própria ignorava qual era. E por aqui, o prólogo revela-se também como epílogo.
Dedicado aos gatos, o livro apresenta-se dividido em quatro partes. Cada uma delas vai buscar o nome a uma das cartas do Tarot: o Louco, a Grande Sacerdotisa, os Amantes e a Lua. Um outro espelho. Ou a ordem possível ao caos.