A Ficção de Um Absoluto

A Ficção de Um Absoluto
Eduardo Prado Coelho

jornal PÚBLICO Sábado, 5 de Janeiro de 2002

Esta literatura de anjos, ícones e fantasmas, procura dar realidade às coisas para conseguir que elas se separem do mundo. Mas à medida que escreve para se separar do mundo Ana Teresa Pereira reconstitui o mundo de que se quis separar. É por isso que nascer e morrer se confundem.
Um dos mais recentes livros de Ana Teresa Pereira intitula-se “A Dança dos Fantasmas”, e tem como data de saída Novembro de 200l. Se digo “um dos mais recentes”, a razão é simples. Tenho a impressão de que, depois disso, já saiu outro, cujo título não fixei, e que ainda me não chegou às mãos. O que significa que Ana Teresa Pereira continua a escrever com grande intensidade, e já o podíamos adivinhar pelas excelentes crónicas que durante vários meses foi publicando no “Mil Folhas”. Nessas crónicas, o universo continuava a ser fílmico e literário, profundamente obsessivo, e com aquela extraordinária marca vampiresca de conseguir apropriar-se de todas as ficções como se fossem aproximações da sua “ficção suprema”. Aquilo que de outro modo disse um poeta que não costuma citar, Wallace Stevens, quando escreveu: “encontrar o real / ficar liberto de qualquer ficção excepto uma, / a ficção de um absoluto” (“Notes towards a Supreme Ficion”)
O que caracteriza este livro que se chama “A Dança dos Fantasmas” é o facto de nele encontrarmos duas narrativas de géneros bem tipificados: a primeira é uma história de “gangsters” e intitula-se precisamente “A dança dos fantasmas”; a segunda pertence claramente ao género do “western” e o seu nome não procura a originalidade: trata-se de “O vale dos malditos”, Acrescente-se o pormenor curioso de “A dança dos fantasmas” ser inspirada numa história de Jan Hutton, “La Cizaña”, que confesso nunca ter lido.
De que se trata neste primeira narrativa? De quatro bandidos (mas um deles é um polícia infiltrado) que, depois de terem cometido um crime, se vêem forçados a fugir. O crime também não passa de uma sequência já vista e revista vezes sem fio: “Finais de Outubro, tinham marcado a data com antecedência, tinham planeado o assalto até ao mínimo detalhe, e bastara o acto de um guarda que se quisera armar em herói para que os acontecimentos se precipitassem e o que estava traçado tomasse um rumo diferente. Não havia quase ninguém no pequeno banco de província, os vidros embaciados tornavam a rua invisível, os funcionários pareciam estátuas, o gerente era um homem magro com um ar assustado que lhes abrira o cofre sem dizer uma palavra (o mais estranho de tudo era o silêncio), e as coisas pareciam correr bem até que o guarda surgira na sua frente com uma pistola em punho. Byrne perguntava a si mesmo quem era aquele homem, o que provocara o gesto suicida, mas os poucos jornais que conseguira arranjar mal falavam dele. George disparara imediatamente e atingira-o no lado esquerdo do peito, a loura bonita encostada à parede começara a gritar e daí a instantes ouvia-se a sirene de um carro da polícia não muito longe”.
Como nem sequer falta a loira bonita encostada à parede, poderíamos pensar que Ana Teresa Pereira, envolvida num daqueles processos pós-modernos de intertextualidade, entrava pelo domínio da interminável paródia: a convenção do género policial ou do “western” seria apenas a convenção da inevitabilidade das convenções. É verdade que na narrativa seguinte (onde as imagens à Johnny Guittar remetem para a canção do filme convocada na primeira história), diz a dada altura: “porque tudo no universo estava escrito”, mas corrige logo a seguir: “ou antes, tudo era uma escrita, aprendera-o muito cedo nos traços que os índios marcavam nas rochas, nos que pintavam no rosto e no peito, nas formas que surgiam do tear ou dos dedos ágeis dos fazedores de cestos. Algures no universo a sua vida estava escrita, e talvez fosse assim, um desenho parecido com uma constelação, que unia aquelas árvores todas umas às outras.” Por outras palavras, o universo de Ana Teresa Pereira não se move no sentido da pluralidade proliferante, mas na direcção de uma teia cósmica que imprime a marca de um destino às personagens, todas elas suspensas de uma irrealidade que as torna mais vincadas, recortadas e espectrais. Recorro mais uma vez a Wallace Stevens para dizer que cada personagem de Ana Teresa Pereira é “como um corpo em todos os pontos corpo, agitando / as suas mangas vazias; no entanto o seu movimento imitado / criava um grito contínuo, causava continuamente um grito / estranho a nós embora o compreendêssemos, / inumano, o de um verdadeiro oceano”.
Daí que, nesta distância em que inevitavelmente se propõem, estas personagens tenham sempre um traço comum: a intocabilidade. Faça-se um breve inventário: “havia algo de irreal na forma como era agora possível tocá-la” (p. 15), “os seus pés descalços pareciam não tocar o soalho de madeira” (p. 16), “estranhamente eles pareciam coexistir na casa sem se tocarem” (p. 33), “como se ela fosse algo de impossível que não podia roçar nem com um dedo” (p.36), “livros em que ninguém tocava há muito tempo” (p. 36), “andava como se não tocasse no solo, como uma deusa ou uma criatura dos bosques” (p.41), “os seus pés descalços quase não tocavam no solo” (p.51), “estavam muito longe uns dos outros, como se vagueassem no nevoeiro sem se poderem tocar” (p. 65) , “porque tinha a certeza de que George ainda não lhe tocara, quase não se atrevia a roçá-la com os dedos, estava apaixonado por ela como por uma imagem religiosa” (p. 66); e assim por diante.
Mas há uma outra figura que atravessa esta ficção, e que até se pode etiquetar na dependência de um nome: Tom. Digamos, se quisermos polarizar as coisas, que as histórias de Ana Teresa Pereira oscilam entre a distância infinita que separa os seres e a sua fusão devoradora. Tom é o lugar da fusão. Assim: “Se quebrasse o ramo de uma árvore Tom estaria nele, se mergulhasse mais fundo encontrá-lo-ia entre as pedras e os limos, entre os peixes que se moviam no silêncio; ele estava à sua volta como sempre estivera, se estendesse as mãos poderia arranhar o seu rosto, se começasse a correr cairia nos seus braços” (p.35). Esta figura é a figura da inclusão: coisas dentro de coisas. Leia-se na pág. 71: ” o bosque rodeava-os como uma concha, e ela voltou a pensar em coisas dentro de coisas. Ela e aquele homem dentro de água, dentro do bosque. Dentro de Tom. Estranho pensar que se fizessem amor seria ainda dentro dele, e que não saberia distinguir as suas carícias das de Tom, as sensações provocadas pelo seu corpo das que Tom lhe transmitia, acordava muitas vezes de noite com o corpo dele à sua volta, sobre ele, tornando-a plena, como se ele mesmo fosse a escuridão, o ar, o vento que entrava pela janela. A água. E o fogo também, era esse o seu aspecto mais assustador. A terra, se um dia ela morresse.” As duas grandes realidades que dominam o universo de Ana Teresa Pereira são a escrita e a sexualidade. É nelas que se trava o combate decisivo: escrever dentro de Tom (“escrevia dentro dele, como fazia tudo o mais dentro dele”, p. 72) ou escrever para manter Tom a distância. Ter amantes para fazer amor dentro de Tom ou fazer amor contra Tom: “Mas Jenny continuava a ter amantes, porque não suportava um mundo onde só existiam ele e ela, precisava de alguém entre ela e o escuro, entre ela e Tom” (p.73).
Esta literatura de anjos, ícones e fantasmas, procura dar realidade às coisas para conseguir que elas se separem do mundo: “era uma noite de luar, como as da sua infância, quando tudo estava muito próximo, tão próximo que não se podia tocar, o tempo em que ele ainda não se separara do mundo. Tudo estava dentro da placenta, o seu corpo, o da mãe, o dos companheiros da tribo… os seres de duas pernas, os de quatro, os que tinham asas, os que tinham raízes, os mortos, os que ainda não tinham nascido”. Mas à medida que escreve para se separar do mundo Ana Teresa Pereira reconstitui o mundo de que se quis separar. É por isso que nascer e morrer se confundem, como se diz na bela epígrafe de Eliot que escolheu: “We die with the dying: / See, they depart, and we go with them. / We are born with the dead: / See, they return, and bring us with them.”