A Égua da Noite

A égua da noite – Um mundo fantástico, onde os mortos renascem e os anjos devoram sobre pétalas de camélias brancas
Fátima Maldonado

Publicado no jornal Expresso a 24/01/98

É impossível ler Ana Teresa Pereira sem que Angela Carter, a americana que reinventou os contos de fadas, apareça de imediato. O Quarto dos Horrores e Heróis e Bandidos, os dois na Caminho, criam um universo fantástico próximo do da escritora portuguesa, talvez menos obsessivo, já que Ana Teresa Pereira toca sempre os mesmos temas – o duplo, a inevitabilidade de matar, literalmente, o amor, o retorno em corpos vários sempre iguais, a casa isolada, a torre -, numa constância de pesadelo que provoca a quem tenta organizar esse mundo dores de cabeça muito reais. Li A Noite Mais Escura (Caminho) e A Coisa Que Eu Sou ao mesmo tempo, e as histórias repetem-se, encadeiam-se em sequência, estranhíssima sarabanda em que os amantes se devoram, renascendo para de novo se consumirem. O perfume obsessivo das camélias sempre presente, os animais penetrando o território dos humanos, misturando-se, consanguíneos.
A primeira vez que a encontrei foi na Black Sun, Fairy Tales, reeditados agora na segunda parte deste livro. As Asas, um conto – se assim se podem chamar os textos muito curtos que vão recorrendo a outros, ou melhor, chamando por outros, como se a escritora convocasse os mesmos demónios ajudada por instrumentos mágicos – onde os anjos despertam no seu dia, 8 de Novembro, e Aramiel convida Carla a engendrar com ele feras e pássaros, inquieta como certas tapeçarias medievais. Há em Ana Teresa Pereira um génio para transformar a situação mais banal numa câmara de horrores, apenas se pressente de início, mas vai tomando conta das veias, um gás não letal feito para adormecer toda a renitência ao embarque, partida para um outro lado do mundo onde há flores de pedra, beleza convulsa e morte seduzida. Os contos têm a mesma tessitura dos de fadas, igual silêncio nos caminhos de sombra onde os jovens encontram o destino, ora anjo, ora animal heráldico, quase sempre vampiro.
Os referentes da escritora são Henry James, Cronenberg, que sofre da mesma obsessão – o duplo, os gémeos; Dante Gabriel Rossetti, cujo universo ela não cessa de recriar, as mulheres de longos cabelos ruivos, as flores usadas como se fossem armas, prenúncio de desastre, as grandes casas abandonadas aos animais nocturnos, a égua da noite à solta nos bosques. Tem também uma grande capacidade de falar de escritores ou artistas sem cair no ridículo, muito rara na prosa portuguesa. Ana Teresa Pereira mexe-se com grande à-vontade citando poetas ingleses no original, sem que pareça de forma nenhuma pretensiosa. Gosto muito dos pequenos ensaios em que fala de filmes, do culto que devota a certos mestres. «Martin Scorsese comentou a respeito de David Cronenberg: ‘Ele não sabe de que tratam realmente os seus filmes.’ Ao que este respondeu mais tarde: ‘I hope I don’t’ (…). Depois de Videodrome (‘a very heavy experience’), Cronenberg não quis escrever um novo guião; precisava de trabalhar material de outra pessoa enquanto recuperava as forças. Assim, filmou The Dead Zone a partir de uma história de Stephen King. Mas o filme para ele era sobre o rosto de Christopher Walken – todas as coisas que existiam naquele rosto.»
A escritora chamou a esta peça She Who Whispers, que é também o título de um conto escrito por Cronenberg quando ainda estava na universidade, e que depois iria ser a matriz de The Double, filme com Anthony Hopkins, em que uma vez mais o tema são os gémeos, gémeas incarnadas por Geena Davis. «Cronenberg resolveu mudar o nome da personagem, Anne, para Geena. Geena em hebraico significava as lixeiras que ardiam interminavelmente no exterior das cidades; era uma designação do inferno. Mas a palavra quer dizer também jardim, jardim murado, o que era perfeito para a personagem: ‘Tu és um jardim murado, minha irmã, minha esposa…’.» Sobre Henry James, há também no livro outro pequeno ensaio: «’Vivemos no escuro’, escreveu Henry James. ‘Vivemos no escuro, fazemos o que podemos.’»
Não é vulgar na nossa literatura esta independência: criar um universo neogótico, fantasmático, em que as personagens se movem entre túmulos, alimentam-se de água e morangos e dormem com seres híbridos de grandes olhos verdes com quem geram crias de raça semelhante; ao contrário da moda, que exige frases curtas, realismo e contenção, a escritora não teme nem a escrita nem as jóias barrocas, os mundos paralelos, a morte a comandar. Há uma sensualidade de cripta nos seus livros, aconchego na manta do sangue derramado, disponibilidade para reconhecer os guias mais negros na sombra das capelas profanadas.