A Cegueira dos Seres Apaixonados

A cegueira dos seres apaixonados
Luís Naves

Diário de Notícias, 20-1-2001

A novela de Ana Teresa Pereira, “Até que a morte nos separe”, tem o sonho e a memória cinéfila dos amores malditos. Até que a morte nos separe, novela de Ana Teresa Pereira, está para a literatura portuguesa como a doçaria para a culinária: à primeira vista, trata-se de um tipo de alimento pouco substancial; depois, quando se prova, descobre-se que teria mais calorias do que seria previsível. E não é apenas o valor alimentar que se evidencia na leitura. As sobremesas parecem simples de fazer, mas, como qualquer gastrónomo sabe, exigem verdadeiro talento.
A novela tem o ingrediente da simplicidade, mas daquela que é mais difícil de conseguir. O ambiente é do cinema negro americano, a chamada “Série B”, mas também o dos policiais de Raymond Chandler e dos diálogos poderosos de filmes como Johnny Guitar, Vitória Anarga, Cega Paixão, Ter ou não Ter, Difamação, etc. São estes os territórios em que se movem as criaturas etéreas da história, imagens a preto e branco que sustentam um livro onírico, em que o leitor é inundado de fortes e simples sugestões poéticas.
Tom Stuart, Tenente do Departamento de Homicídios, conhece uma mulher num bar e enamora-se dela: “Pareces um anjo. Um anjo negro”, diz Tom, que imagino como Robert Ryan, em On Dangerous Ground (Cega Paixão), o filme de Nicholas Ray (que a autora refere explicitamente no texto); ela, Patrícia (Ida Lupino?), também possui um segredo. Depois, há a filha cega do tenente e o mistério obscuro que envolve todas as figuras.
Enfim, o dispositivo de história policial entrelaça-se com a memória cinéfila. Esta novela melancólica encena personagens perdidas no labirinto do amor e no medo da morte dessa paixão cega. A imaginação da autora é visual, recheada de referências culturais a livros, pinturas e filmes. O excesso desses pormenores é, aliás, o defeito visível da obra. A repetição de personagens a ler livros ou a recordar películas, citando passagens dos mesmos, lembra um pouco a interferência do árbitro num bom jogo de futebol. Até que a morte nos separe é um texto suficientemente culto e sensível para dispensar metade destas demonstrações de erudição.
O defeito (que não passa, afinal, de uma impressão muito subjectiva deste leitor) torna-se quase irrelevante numa novela tão bem escrita. Os textos do prólogo e do epílogo são duas pequenas maravilhas, de grande beleza, quando se lêem em voz alta: “Agora sei que o amor existe, conheço o rosto dele, os seus olhos, o seu corpo, sei que me ama. E tenho medo dele, como sei que ele tem medo de mim, porque somos o lado negro um do outro, o rosto da morte um do outro”. Este é apenas um exemplo que mostra o cuidado da prosa. E muitas outras passagens podiam ter sido escolhidas.
Os diálogos são irrepreensíveis e recheados de frases conseguidas; as personagens possuem complexidade e espessura; a história flui e o texto lê-se sem esforço, apesar da profundidade das ideias. Enfim, o livro de Ana Teresa Pereira brilha de fantasia, num clima de fatalidade e sonho.

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