A Casa dos Espelhos

A Casa dos Espelhos
José Guardado Moreira

Publicado na revista LER nº 50 Primavera 2001

A obra de Ana Teresa Pereira tem vindo a afirmar-se desde 1989, data da publicação do seu primeiro livro como uma das mais interessantes e multifacetadas do actual panorama literário português. Utilizando a matriz policial, do fantástico, do livro para crianças, até ao mais recente, com uma incursão ao universo dos westerns, a autora madeirense conquistou um público fiel e sobretudo um território muito próprio, com temas fortes muito seus, e uma capacidade inédita de revitalizar géneros ou sub-géneros. No entanto, essa diversidade de enquadramento não retirou uma linha ao que é o veio de fundo da sua aventura como escritora, “ porque tudo no universo estava escrito, ou antes, tudo era uma escrita”, ou talvez porque “algures no universo a sua vida estava escrita, e talvez fosse assim um desenho parecido com uma constelação”.
O jogo da escrita, o prazer dos reflexos para sempre sublimados, o permanente reenviar para uma referência literária ou cinematográfica constituem-se nela como materiais de feitura de um mundo aparentemente encerrado em alguns tópicos reconhecíveis, mas que se desdobram constantemente como imagens de imagens, num número infinito de variações que só duplo espelho permite e afirma. Uma casa, um casal, uma situação nunca inteiramente clara, um sonho, um mistério, um desejo fundo e inatingível, uma reminiscência, tudo se conjuga para dotar os seus livros de uma atmosfera única, onde os ecos de histórias fantásticas, sombras animadas pelo luar cobram vida e se transformam numa paisagem sempre a mesma, mas sempre nova. É como se um olho se movesse procurando novos ângulos, ou uma câmara captando novos contornos adivinhados, perseguidos, temidos.
“Aquilo não era felicidade, era outra coisa, sentia-se plena, e vazia, era o mesmo, sentia que o seu corpo estava dentro do ovo, inseparável, de tudo o resto, e o seu corpo era também aquilo que nela não era corpo. E tudo o que ela era não tinha grande consistência, esbatia-se no resto, o mundo passava por ela como se não estivesse ali, como um sopro… e não havia distância porque não havia separação, só a unidade, a presença absoluta”. A citação é longa mas vale todo um programa, uma demanda, um objectivo que se antevê mas que dificilmente se alcança, porque a matéria humana lhe opõe resistência.
Essa resistência tem a consistência dos sonhos e do luar, por isso o que esta escrita vê no mundo é apenas um indício do que se procura e nunca o derradeiro traço que se compõe, para ser revelado noutra ocasião, quando a constelação assim o permitir. Universo onírico e fantasmático, o mundo de Ana Teresa Pereira faz despertar as páginas que escreve como se já estivessem escritas antes da inevitável solarização, é um mundo do que há-de ser porque tem de ser, um mundo que está à distância de um reflexo. E porque no mundo dos reflexos tudo é possível, eis como o engano nos aproxima da tal presença absoluta que nos espera e nos chama.