«O Verão Selvagem dos Teus Olhos», Ana Teresa Pereira

«O Verão Selvagem dos Teus Olhos», Ana Teresa Pereira – Relógio d’Água, 129 páginas

[27-01-2009]  |  Pedro Teixeira Neves PNETLiteratura

O regresso de Ana Teresa Pereira ao contacto com os leitores faz-se com a publicação do breve romance «O Verão Selvagem dos Teus Olhos». Autora de livros policiais, o mistério e o suspense, ou uma atmosfera ‘em suspenso’ são dados de sempre na sua escrita e que aqui voltam na espuma das palavras. A leitura dos livros da autora sempre teve o condão de me fazer crer entrar num outro mundo, numa outra dimensão, num universo supra-real, por assim dizer. Não que eles, e em concreto as suas personagens, evoluam ou deixem de navegar à vista do real como o conhecemos e quotidianamente respiramos, mas, de algum modo, parecem enredar-nos em mundos e enredos possíveis apenas no território da ficção – facto, de resto, a que não será alheio um outro aspecto da sua obra, a remissão para o universo cinematográfico. Por outras palavras, nós reconhecemos como possíveis, como carnais, as suas personagens, mas, por outro lado, imaginamo-las (eu, pelo menos) como aquilo que efectivamente são: personagens de ficção, tão-só porque condesam em si uma qualquer aura indefinível que as coloca a meio caminho entre o mundo à nossa volta e um outro mundo mundo além daquele. Não por acaso, a vida das personagens nesse meio termo se diz e confunde, tal como nesta revisitação da escritora à personagem Rebecca, de Daphne du Maurier.

Nas páginas de Ana Teresa Pereira encontramos sempre, como fulcros gravitacionais da acção, as casas, por regra casas velhas, ou velhos casarões, espaços habitados por memórias e ausências, locais de eternos regressos, tais como os jardins, os bosques, o mar, as cidades. E os livros, claro, grandes bibliotecas invadindo os interstícios da narrativa: «Às vezes acho que me limitei a reproduzir, numa escala maior, o que me encantava na casa onde nasci. Havia um jardim de rosas quase esquecido, os arcos tinham falhas e as flores dos canteiros mal sobreviviam entre as ervas. Mas as rosas trepadeiras invadiam tudo, com flores e espinhos, e eu gostava de sentar-me lá, nas tardes de Verão, a folhear os meus livros de botânica. Uma espécie de jardim de conto de fadas, abandonado ao sol à chuva…» Dificil não será percepcionar neste locus uma também atmosfera gótica e de toada impressionista – e daí talvez a escolha do quadro de Renoir («A Onda») para a produção da capa; nessa pintura, de resto, o mar, apesar de inundado de luz, mostra-se alteroso e brumoso, tal como o céu aí plasmado, do mesmo modo soturno e obscurecido.

Dir-se-ia pois esta uma escrita tocada pelas tempestades: dos elementos naturais e das emoções – donde que resulta sempre existir nos livros de Ana Teresa Pereira espaço reservado para o amor ou para amores diversos: amores perdidos, amores sonhados, amores excessivos, amores impossíveis, amores escarpados, amores idealizados, amores ficcionados. Que não seja simplesmente o amor pelas coisas chãs: a terra, as flores, os cães, os barcos, os livros. De todo o modo, no centro deles sempre a mulher: mulheres que imaginamos belas, misteriosas, habitando-se por dentro, como que por fora do mundo, espécie de sereias atraindo os homens para a impossibilidade de se deixarem amar por completo. E nisso reside, por último, o carácter de lirismo que a autora confere ao seu dizer. Um dizer, por conseguinte, também melódico, obedecendo a uma estrutura linear, sem atropelos de ritmo ou picos emocionais, estranhamente apaziguante, estranhamente sóbria, reconhecidamente autoral.

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