Li anteontem A Pantera, de um só fôlego. Faltou qualquer coisa, não fascinou. Há algo que me intriga e que, por impossibilidade de distanciamento, não consigo discernir correctamente: é a autora que alterna textos belíssimos com outros claramente menores, ou é o meu vício que atenua o ecanto, apagando a cintilância da sua escrita?

Neste livro, uma vez mais, é a mesma história revisitada. Os escritores e as suas personagens, os seus demónios, o perpétuo combate entre ficção e realidade. Mas pensava que depois de Quando atravessares o rio o reaparecimento de Kate e Tom seria mais inequietante, levantando um pouco mais a ponta do véu, ainda que, com isso, descobrindo as sombras de outros monstros escondidos. Este livro soube-me a pouco, e ainda que me tenha parecido mais complexo do que à primeira vista pode parecer, o facto de não me ter impressionado irremediavelmente fá-lo parecer claramente menor.

Tenho achado que Ana Teresa Pereira exercita melhor a sua singularidade, nos últimos anos, quando se desprende dessa história antiga que ameaça tornar-se demasiado familiar para que possa inquietar ou angustiar. O seu estilo é mais refinado em obras como O Verão Selvagem dos Teus Olhos ou A Outra. Tenho vontade de ver, cada vez mais, outros castelos, outros jardins, outros fantasmas. Tenho vontade de voltar a surpreender-me com o inesperado.

 

 

 

 

 

 

 

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Sobre saturnine

us people are just poems
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8 respostas a

  1. Polly diz:

    Na verdade achei A Outra, como poderei dizer, pão sem sal.. Neste não digo que seja o melhor dela mas claramente é mais complexo que A Outra, onde a história era demasiado previsível..

  2. Comprei hoje, vou lê-lo assim que tiver oportunidade. Também não li A Outra, mas comprei-o. Sinto falta de ler Ana Teresa Pereira, mas a minha pesquisa obriga a outras leituras… talvez de férias consiga fazê-lo.

  3. saturnine diz:

    Acho exactamente o contrário: “A Outra” parece-me um livro mais complexo, mais intrincado. A previsibilidade da história não se pode por em causa, uma vez que conhecendo “A Volta no Parafuso” já se saberia de antemão o princípio, o meio, e o fim de todo o enredo. O encanto está, parece-me, no ritmo e na estrutura, que n’ “A Pantera” é menos bem conseguido.

  4. M. José Ferreira diz:

    Esta escritora tem alguma obra traduzida em inglês?
    M. José Ferreira

  5. Já os consegui ler. O universo continua o mesmo e é bom voltar a ele, depois de tanto tempo. Como o regresso ao tempo primordial e suspenso a a que a sua escrita alude e que as suas personagens obsessivamente procuram, é assim que me sinto quando regresso a um livro seu. E é muito bom. Concordo com Saturnine, apreciei muito mais A Outra, a escrita é mais bem conseguida, as imagens são mais fortes. Dos mais recentes de Ana Teresa Pereira, devo dizer que os meus preferidos são Inverness e A Outra. Acho que a escrita de Ana Teresa Pereira se tem tornado, com o passar dos anos, uma escrita cada vez mais apurada estilisticamente, cada vez mais depurada em termos estéticos, cada vez mais segura do seu lugar… é esse caminho que toma também A Outra, na minha humilde opinião.

    M. José Ferreira, há alguns capítulos (ou só o primeiro?) de Se Nos Encontrarmos de Novo. Lembro-me de ter lido que há um post qualquer neste blog. Certo colaboradores? 😉 Na verdade, pensei várias vezes em tentar uma tradução eu próprio, mas nunca tive inspiração suficiente ou sequer tempo disponível… mas recentemente, pensei que talvez devesse tentar algo, com um conto, provavelmete de A Coisa Que Eu Sou. Talvez um dia tente… 🙂

  6. Anónimo diz:

    Adoro a obra de ATP. As suas narrativas nunca são previsíveis, só parecem… Universo literário único e fascinante, obessidiante mesmo.

  7. Anabela Sardo diz:

    Adoro a obra de ATP. As suas narrativas nunca são previsíveis, só parecem… Universo literário único e fascinante, obessidiante mesmo.

  8. Anabela Sardo diz:

    “Obsidiante”, peço desculpa…

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