Da experiência da leitura como um ritual

O primeiro livro da Ana Teresa Pereira que li foi A Noite Mais Escura da Alma. Não me lembro quando me veio parar às mãos, numa edição do Círculo de Leitores, mas recordo-me do que me fez despoletar a memória e pegar nele novamente.  Deve ter sido algures na primavera de 2001, depois de uma conversa telefónica numa manhã solarenga em que se falou da autora. Lembro-me também que a leitura me provocava um sentimento híbrido de atracção e repulsa irresistíveis. Esse sentimento nunca me abandonou totalmente. Reagia com alguma irritação aos clichés, às referências descaradas, às soluções literárias mais previsíveis que surpreendentes. Ainda assim, tinha noção de estar face a face com algo inteiramente novo e surpreendente, que me falva do mais fundo de mim, como a noção de ter uma voz que vinha do lugar distante da minha infância. Senti-me profundamente reconhecida naquele universo de anjos e demónios, de jardins e castelos com torres e casas assombradas, de amores trágicos e fantasmas atormentados, de homens que são sempre deuses e mulheres que são sempre bruxas… Essa é a substância do meu imaginário infantil, e a sensação de reconhecimento quase fez da experiência de ler Ana Teresa Pereira um ritual místico.

Por esse motivo, o meu corpo só me permite lê-la quando a primavera chega, salvo raras excepções. Regresso a cada livro, a cada história, a cada personagem, sempre com a sensação de um regresso a casa. Nem é só a questão do imaginário – são também as referências. O profundo lirismo de cada cenário que Ana Teresa Pereira constrói emana de uma rede complexa de referências artísticas, literárias e cinematográficas que vão sustentando e compondo o encanto das suas histórias dentro de histórias, dentro de histórias, como num magnífico jogo de espelhos, em que a própria realidade não se distingue da ficção. Esse também é o meu universo, eu que acredito que somos feitos de histórias e das nossas referências líricas, e que as composições que fazemos com elas, para traduzir a matérias das nossas vidas, são uma espécie de filosofia e metafísica do quotidiano que não deve ser desprezado.

Lembro-me que Rebecca de Daphne du Maurier se tornou rapidamente uma das histórias mais marcantes desse meu imaginário desde a adolescência. Numa época em que ler livros de aventuras e ver filmes noir era o pão nosso de cada dia e não um exercício intelectual, porque era assim que as coisas eram, e eram esses os livros que havia em casa e o que passava na televisão, e era normal crescer fascinada pelo mistério. É por isso que O Verão Selvagem dos Teus Olhos será provavelmente um dos meus livros preferidos de Ana Teresa Pereira, e também um dos que lhe considero mais refinados. Gosto da sensação de não conseguir abandonar uma história e de nos começarmos a confundir com ela, a ponto de necessitar reescrevê-la sob muitas formas. Não se lê Ana Teresa Pereira como outro autor qualquer. Só se pode ler com devoção, e é por isso que fazê-lo se assemelha a um ritual.

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Sobre saturnine

us people are just poems
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Uma resposta a Da experiência da leitura como um ritual

  1. J. diz:

    … ler os livros da ana teresa pereira na primavera e escrever textos tão bonitos sobre os livros dela no Verão…

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