Uma visão de O Fim de Lizzie

http://contramundumcritica.blogspot.com/2010/01/ana-teresa-pereira-o-fim-de-lizzie-e.html

Ana Teresa Pereira, O Fim de Lizzie e Outras Histórias

Se espacializarmos as representações verbais, é possível admitir que há textos que são um lugar onde ficar. Um espaço a percorrer sem mais motivo do que o de reconhecer o próprio espaço. Numa acepção muito ampla, a arte é a capacidade de optimizar as diferentes linguagens para produzir este espaço que se basta a si mesmo. Espaço visual, espaço verbal, espaço mental.
Um livro como O Fim de Lizzie e Outras Histórias 1, de Ana Teresa Pereira, inscreve-se nesta noção de arte como produção de espaço de experiência potencial. Um espaço que, na sua própria formulação, é uma evidente “forma de felicidade” 2 . São conhecidos os muito particulares processos narrativos da autora, o seu mundo na margem do policial e do fantástico, a reescrita das histórias, onde as situações e os personagens vão ressurgindo, num permanente reiterar da natureza ficcional da ficção.
Em O Fim de Lizzie e Outras Histórias encontramos uma escrita de uma nitidez pouco habitual na literatura portuguesa. Uma escrita que se coloca ao serviço da narrativa, num registo cuidado, mas quase linear, apenas alguns graus acima daquilo que seria a neutralidade (ou a banalidade) literária. Mérito da autora, sem dúvida.
Dos três contos que constituem a obra (e nos quais assistimos à reescrita do mesmo contexto e dos mesmos personagens, no interior de estruturas narrativas apenas ligeiramente divergentes), o primeiro, “Numa manhã Fria”, é claramente o mais conseguido. Quase irrepreensível, há nele esboçada uma reflexão sobre a passagem do tempo, a expectativa e a desilusão, que a opção por um desenlace narrativo no limiar do policial e do fantástico acaba por empobrecer. É pena que não tenha sido objecto do aprofundamento que só um maior desenvolvimento da narrativa permitiria.
Traço comum às três histórias é a presença de criadores artísticos (escritores, artistas plásticos, actrizes), que vão ressurgindo em diferentes personagens. Isto propicia aos textos uma consciente dimensão auto-reflexiva:

«O artista deve olhar para o que cria com os olhos de Deus. Com amor. Ou, pelo menos, com alguma ternura. Um pouco de ternura pode salvar uma personagem ou um quadro.” 3

A reflexão, que revela a natureza sensível da escrita da autora, surge quase deslocada no interior de um panorama criativo contemporâneo (transversal a diferentes artes e linguagens) acentuadamente marcado pelo cinismo, senão pela premeditada agressividade. Isto coloca este projecto criativo no interior de coordenadas estéticas muito específicas. Poderíamos dizer que Ana Teresa Pereira escreve no interior de um mundo que é só dela, se não estivéssemos diante de um trabalho criativo que assumidamente se inscreve numa tradição que lhe preexiste. É claro o modo como este trabalho efectua uma apropriação consciente de um conjunto de espaços representacionais exteriores àquela que seria a realidade contextual imediata, nos quais e à luz dos quais a ficção surge como da ordem do artifício assumido. Este é em parte um espaço de fuga, quase no mesmo plano de dissociação entre a literatura e a experiência contemporânea que encontramos na proliferação de romances históricos. Esta dissociação, que é característica distintiva da escrita da autora, marca de algum modo os seus limites, e talvez constitua o principal obstáculo a um aprofundamento da escrita. O assumir da natureza ficcional da ficção não pode servir de refúgio criativo face à própria realidade.

Genericamente, a modelação do espaço representacional pela literatura tende a fazer-se por referência aparentemente imediata ao mundo tal com ele é experienciado. Mas esta referência ao mundo como coisa imediata é, de facto, mais aparente do que efectiva. Em todas as formas de arte, encontramos a perspectivação do mundo não a partir de uma relação directa entre o produtor e o mundo, mas através das possibilidades abertas pela linguagem em que se inscreve. Encontramos o mundo mediado pelas representações produzidas por anteriores operadores da linguagem. Em arte, fala-se do mundo falando do modo como a arte representa o mundo. Mas fazer da arte lugar de permanente reenvio para si mesma constitui, mais tarde ou mais cedo, uma limitação criativa

1. Ana Teresa Pereira, O Fim de Lizzie e Outras Histórias, com posfácio de Fernando Guerreiro, Relógio D’Água, 2009, (226 p.).
2. Idem, 157.
3. Idem, 103.
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2 respostas a Uma visão de O Fim de Lizzie

  1. “Esta dissociação, que é característica distintiva da escrita da autora, marca de algum modo os seus limites, e talvez constitua o principal obstáculo a um aprofundamento da escrita. O assumir da natureza ficcional da ficção não pode servir de refúgio criativo face à própria realidade.”

    E porque é que tem que ser isto “limitação criativa”? ;o)

  2. Nuno Cruz diz:

    Pois é bem visto. Não tem de ser uma limitação, na minha humilde opinião. 😉

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