Onde tu estás é sempre o fim do mundo

Eduardo Prado Coelho
Público, Mil Folhas, 21 de Janeiro de 2006

Tendo começado por fazer narrativas de índole policial, Ana Teresa Pereira, foi criando um espaço, um tipo de casas, alguns lugares públicos, paisagens invernosas, uma forma de diálogo, um modo de se alimentarem acentuadamente frugal, e quase sempre as mesmas personagens.

Há escritores que deambulam pelo mundo à procura de pontos de apoio. Outros escolhem uma região polar – e instalam-se nela: vivem do gelo e do deserto, do desamparo e da luz que se inclina sobre os rostos fatigados. Exploram até à exaustão a terra que inventaram e aí implantaram objectos, corpos, desenhos marítimos, bolsas de vento. Não será por acaso que a capa da mais recente ficção de Ana Teresa Pereira reproduz um pormenor dum quadro de Caspar David Friedrich intitulado “O Mar de Ciclo’’: brancura fracturada em lajes que restaram de uma catástrofe antiga, formas pontiagudas que perfuram o céu, infinita distância do vazio.

Ana Teresa Pereira pertence a este segundo grupo. Tendo começado por fazer narrativas de índole policial (Sherlock Holmes ou William Irish são referências insistentes), Ana Teresa foi criando um espaço, um tipo de casas, alguns lugares públicos (velhas livrarias, teatros), paisagens invernosas, uma forma de diálogo, um modo de se alimentarem acentuadamente frugal, e quase sempre as mesmas personagens (um homem mais velho, escritor, e alguns amantes de contornos esquivos), um conjunto obsessivo de referências literárias e cinematográficas (às vezes alargadas às artes plásticas), formas de vestuário (camisolas de lã, “jeans”). Há o risco de uma certa monotonia, mas cria-se o contorno dos reencontros, como quem todos os anos pelas férias regressa à mesma praia e aos pequenos bares que a rodeiam e às casas de madeira sobre a areia.

Desta vez, o ambiente é totalmente inglês. Temos um casal de actores, sendo ela Kate e ele Clive. O texto designa-os como “os amantes de Kensington Gardens”. Depois surge a memória de um escritor que Kate conheceu numa livraria, quando ele fazia uma conferência sobre Henry James. E Kate conta como ele a tinha convidado para tomar um copo. E depois tinham ido para “a casa de Portobello Road”. Ana Teresa Pereira gosta de enunciar nomes de lugares, que deixam de ser uma topografia neutra, para ganharem uma espécie de sensualidade (memória, ternura, desejo). Clive pergunta: “Fizeste amor com ele?” E Kate responde com indiferença: “Sim.” “Ele sorriu sem vontade. Foi bom?’ -Acho que sim. Foi há muito tempo.” Kate recorda: “A casa verde de Portobello. Entre a casa branca e a casa cor de telha. O jardim nas traseiras coberto de neve. Os braços do homem à volta da sua cintura. A voz funda, com o sotaque de Oxford, a voz de um actor que faz o público ter vontade de ajoelhar. O desejo.” Aqui introduz-se um novo elemento que imprime as marcas de uma atmosfera: as cores nítidas, concisas, o branco, o verde. A casa verde pode ser estritamente referencial: mas abre uma espécie de fantasia que a imaginação vem ocupar.

Há um arco que atravessa as personagens: elas estão entre o princípio do mundo e o fim do mundo. Tom (nome obsessivo no universo de Ana Teresa Pereira, que dedica a Tom o seu romance) diz a dada altura, ao reaparecer anos depois: “há qualquer coisa na tua beleza que me comove. E assim, com a neve no cabelo, pareces um anjo do princípio do mundo.” A noite Kate vai ouvir um concerto numa igreja. Tocam A Criação de Haydn: “O princípio do mundo. Um anjo do princípio do mundo.”

Aqui entram em cena os amos. Estas personagens inclinam-se entre serem gente que caminha sobre a terra, corpos aconchegados, na recusa de serem deuses, e anjos que abrem a multiplicidade dos céus que cabem na alma de unia pessoa. “Eu encontrei na Rússia os anjos que desdobraram os céus no princípio dos tempos.” E este princípio dos tempos tem a ver com certos livros com naturalmente os de Ana Teresa Pereira. “Em todos os livros há duas pessoas que estão ligadas… mas como já se conhecessem há muito tempo (…) “Desde o princípio do mundo’? Algo assim. E eles encontram-se… – Suponho que em todos os livros… eles se encontram de novo.” É isso que redime a repetição: o que se repete é sempre a primeira vez e é como primeira vez irrepetível que se repete.

Há uma intromissão de “Andrei Roubliev” ou da obra de Tarkovski, um misticismo ardente, uma religiosidade terrestre (que se combina com uma sexualidade displicente e e vagabunda). “Mais tarde ele dissera-lhe que os seus menores movimentos tinham um sentido religioso. Como se fosse um anjo. Um anjo do princípio do mundo, que atravessara os milénios intocado e sem memória. Era por isso que o mundo se transformava num lugar solitário onde quer que ela estivesse: a vaguear na margem do rio, sentada nos degraus da igreja de St. Martin-in-the-Fields, adormecida na relva de um parque, reclinada no balcão de um pub a beber cerveja.” As personagens têm um estatuto insólito: ela vive a navegação brumosa da identidade: “Não sabia quem era quando não estava a representar. Katie, que se transformava em tantas mulheres, Miranda, Stela, Hilde, Cecily, por vezes tinha medo de não ser ninguém. De ter escolhido aquela profissão para fugir ao vazio, à falta de identidade. Talvez com um escritor acontecesse o mesmo. Viver através das suas personagens para fugir ao vazio, ao horror de estar sozinho e não ser realmente ninguém.” Clive é uma paixão leve, um pássaro esvoaçante, um desejo “light”. Tom tem a espessura frontal e enigmática de um ícone: “Um ícone é uma janela para o reino de Deus.” Mas uma palavra inglesa diz que Kate é uma “becomer” (é logo no limiar do livro que esta expressão aparece, e vai reaparecendo ao longo do texto): “Ela era uma ‘becomer’ e transformava-se na personagem que estava a representar. Se Clive a achava parecida com um anjo era porque a amava. Palavras que um homem diz à mulher que ama. O princípio de um livro de William Irish. Um daqueles livros de que eles não se separavam nunca. Não eram muitos. Os poemas de W. B. Yeats e de Rilke, as peças de Shakespeare e de Ibsen, algumas de Tennessee Williams, os romances de Wílliam Irish, os livros de contos de William Irish, as aventuras de William.”

Um dia Marguerite Duras disse que tinha conhecido uma criança que perguntava à mãe o que era o calor. E a mãe respondeu: “É quando a gente estende a mão e se queima.” E a criança voltou a perguntar: “E o que é o calor quando não há ninguém?” Duras acrescentava que os seus livros eram escritos do mesmo modo: “E o que é o amor quando não há ninguém?”

Tom disse a Katie: “Gosto de te ver com a neve nos cabelos.” E dialogam os dois: “- Talvez houvesse neve no princípio do mundo. – Sim. Longas paisagens de gelo.— Como nos teus sonhos? — E nesse mundo feito de gelo ainda não havia homens.” É este o lugar de Katie. É este o olhar dos homens que a amam: “Com um estremecimento ele percebeu que não havia mais nada, só a neve, o gelo, e depois mais neve, e mais gelo, estavam no princípio do mundo, num tempo sem deuses e sem homens. O lugar mais solitário do mundo.”

Obrigado Arlindo.

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