O que alguns chamam vida

Do livro, As Paixões de Julia de Somerset Maugham, ao filme, “Being Julia”, com Annette Bening.

Ana Teresa Pereira
Jornal Público, suplemento MilFolhas, 4 de Junho de 2005

O ar é fresco como no princípio do mundo e as rosas selvagens crescem no vale. Encontramo-nos numa pousada dos Alpes, o Verão está a chegar ao fim. O narrador e uma bela actriz sentem-se intrigados porque Clare Vawdrey mostra um desconhecimento absoluto dos livros que escreve; e Lord Mellifont, que passa pela vida imperturbável como um actor que nunca esquece o seu papel, fica invisível quando se encontra sozinho. Depois de uma investigação, descobrem que o escritor tem um duplo que, fechado no quarto, “no escuro”, escreve os seus livros; e Lord mellifont deixa de existir quando não há alguém a olhar para ele. O conto de Henry James chama-se “A vida privada”.

Julia Lambert, a protagonista de “As Paixões de Julia”, tem algo de Vawdrey, algo de Mellifont. Ela sente que é duas pessoas: a actriz famosa, a mulher mais bem vestida de Londres, uma sombra; e a personagem que representa à noite, um ser material. Mas, se tem consciência desse desdobramento, é apanhada de surpresa pelas palavras do filho Roger: “Não existes, não passas dos inúmeros papéis que interpretaste. (…) Ao ver-te entrar numa sala vazia, senti por vezes vontade de abrir a porta de repente mas tive medo de não encontrar ninguém.” Um minuto depois Julia está a pensar na hipótese de interpretar Hamlet (não seria a primeira actriz a fazê-lo), e responde ao filho com uma frase de uma peça qualquer. Mais tarde pergunta-lhe se não a ama e ele responde: “Talvez amasse se conseguisse encontrar-te. Mas onde é que estás?”

Quando Julia tinha vinte anos, disseram-lhe pela primeira vez que era um génio. Nessa altura ela era uma actriz principiante com muito para aprender. Algum tempo depois apaixonou-se por Michael, um actor da mesma companhia. Michael, extremamente belo, mas um mau actor. Anos mais tarde, quando já eram casados, ela apercebeu-se da morte do desejo, da morte do amor. Um sentimento de tristeza mas também de libertação. Estamos em 1938 e Julia tem quarenta e seis anos, é considerada a maior actriz de Inglaterra. Tem um casamento perfeito, um amante oficial (na realidade um amigo, que a leva a passear pelos parques de Londres, que a leva à National Gallery e à Tate), um filho de dezassete anos com quem toma chá de vez em quando; e sente que está a envelhecer. E então conhece um jovem que começa por ser um admirador e em breve se torna o seu amante. Esta é a história do livro; mas nele fala-se do teatro (o título original é “Theatre” e Somerset Maugham além de um grande romancista foi um dramaturgo de sucesso), da realidade e do tempo.

Na peça “The Dresser” de Ronald Harwood, um velho actor de província vive as suas últimas horas, a sua última actuação como Rei Lear, um papel que representou mais de duzentas vezes. Mas ele agora esquece as linhas do texto, esquece mesmo qual é a peça… Num momento de distracção do criado (que o veste, e lhe lembra as primeiras linhas, e é a única pessoa que o ama de facto) começa a pintar o rosto de preto, como se fosse representar Otelo. Ele diz a uma jovem no princípio de carreira: “Terás que renunciar ao que alguns chama vida”. Aparentemente foi o que ele fez, ele que interpretou Lear e Otelo, Macbeth e o Construtor e no seu último dia de vida não sabe bem quem é. Ele esquece o seu papel e é vencido pelo tempo.

Annette Bening é a protagonista do filme “Being Julia” de István Szabó, e é difícil imaginar Julia com outro rosto, com outra voz. O argumento do filme está muito próximo do livro, mas dá-nos mais uma coisa, a peça no final da história, a peça que é uma vingança. Tudo é permitido na guerra e… eu esqueço sempre a palavra. Numa das cenas cortadas do filme, Julia entra num teatro vazio, olha em volta, respira a plenos pulmões. Aquela mistura de nervosismo e felicidade. O cheiro de um teatro vazio. No final do livro ficamos a conhecer o seu conceito de realidade: só os actores existem de facto. Os outros são as sombras; e são também a matéria-prima. Os actores dão um sentido a essa luta inútil e confusa a que alguns chamam vida. As pessoas dizem que o teatro é um faz de conta. Mas esse faz de conta é a única realidade.

E quando Julia está sozinha no restaurante, quando Annette Bening está sozinha no restaurante, passam tantas coisas pelo seu rosto (o rosto que uma actriz deve ter, o rosto que pode ser qualquer coisa, mesmo belo, o rosto que pode mostrar todos os pensamentos). Ela continua a existir quando não se vê reflectida no rosto dos outros. Ela é uma grande actriz e o tempo está do seu lado. Talvez ainda interprete o Hamlet.

Talvez o tempo do amor tenha acabado. Mas afinal, como Roger descobriu aos dezassete anos, o amor não é lá grande coisa.

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