As lágrimas das coisas

Íris Murdoch é pretexto para uma bela história de amor
por Helena Barbas
suplemento Actual do jornal Expresso de 14 de Janeiro de 2005

Neste novo romance, Ana Teresa Pereira dá largas à sua paixão por Íris Murdoch. A história passa-se em Inglaterra, começa na neve de um Inverno, e as personagens são inglesas – de nacionalidade, modo de vida e idiossincrasias. Mas desenreda-se muito à maneira da escritora portuguesa, numa linguagem encantatória e envolvente.
Murdoch e a sua obra desdobram-se em muitos “leitmotives” sobre os quais o texto se vai construindo. Outros são logo dados no primeiro capítulo: “Talvez seja possível amar uma mulher por causa de um livro, de um poema sublinhado, de um filme a preto e branco, de uma casa, do olhar de um homem quando fala dela, da forma como o seu cão a espera. Da reprodução de um Mondrian na parede da sala.” São palavras atribuíveis ao herói, Byrne, um filósofo de Oxford a escrever um livro sobre Íris, que vai sendo seduzido pelos rastos deixados pela sua senhoria ausente – a aristocrata arruinada e pintora Ashley. Os títulos dos livros de Murdoch equivalem-se às frases deles retiradas, metáforas que se transformam em pistas e caracterizações: “Gabriel era uma das muitas personagens de Íris que se identificavam com tudo, que tinham consciência das “lágrimas das coisas”, e por esse motivo sentiam uma dor quase insuportável. “ Aqui a dor é surda. Nasceu das mortes e separações impostas pela vida. Insinua-se através dos objectos, das associações implícitas entre estes e os momentos de felicidade que testemunharam: uma reprodução de Mondrian na parede, uma toalha de quadrados vermelhos na mesa da cozinha. Por esta via tornam-se paradoxais.: são memória de sofrimentos enquanto marcos da ausência, mas a sua existência basta para que se possam reproduzir outros (os mesmos) momentos de felicidade – novos encontros que são sempre reencontros. Byrne é amado por Rose, Ed ama Ashley que amou e foi amada por Tom. O encontro entre Ashley e Byrne vem contaminado pelo passado de ambos, dando-lhe uma continuidade confirmada por afinidades electivas. As personagens decalcam-se umas nas outras, re-colando-se sobre os mesmos espaços, diante dos mesmos objectos. Estes tornam-se adereços de um cenário em que o drama amoroso pode ser reencenado com a mesma intensidade por actores diferentes. A narrativa tece-se assim da acumulação de repetições, até do mesmo acontecimento de várias perspectivas. Elementos que contribuem para o fabrico não de um puzzle, mais de um mosaico bizantino.
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