A Quatro Mãos-Sábado, 10 de Abril de 2004

Os Lilases

Ana Teresa Pereira

Abril é o mês mais doce, pensou. Tinha a impressão de que escrevera a frase numa das suas novelas, Abril é um mês azul, os lilases, os jacarandás, os lírios. E o mar, que se estendia à sua frente, o mar no qual podiam surgir monstros de olhos verdes. Fechou o livro e pousou-o no muro, estendeu as pernas para o lado das rochas. No livro havia um rio, duas casas, uma em cada margem, e uma pequena ponte que as personagens atravessavam ao longo de toda a história. Desapareciam durante uns minutos e depois tornavam-se visíveis a meio da ponte. Tony, um homem bem-parecido que despertava paixões violentas, Jean, bonita e luminosa, com o cabelo muito louro, e Rose, uma personagem de Ibsen, feia e linda (Tu sabes o que eu sou, e voltaste para isso, finalmente, de muito longe). Era um livro ao qual apetecia voltar (e são os únicos que interessam), pelas casas, os jardins, o rio, e por eles, pela paixão e a violência que estavam tão perto da superfície. “The Other House” era uma novela surpreendente para quem conhecia a obra de Henry James, ali não havia subtileza, rodeios, tudo estava em bruto, ele nunca escrevera assim.

Abril é o mês mais doce. Voltou as costas ao mar e ficou a olhar para o jardim, os lilases estavam em flor, cresciam pelas paredes da casa e pelas árvores em volta, o jardim estava azul, ao longe viam-se as flores dos jacarandás. A casa era cinzenta e tinha uma torre. Também havia lilases na casa do romance que estava a escrever, ficava numa ruazinha de Londres, na parte da cidade de que mais gostava, perto da National Gallery, dos alfarrabistas, dos teatros. Byrne alugara o sótão durante um ano para escrever um livro sobre Iris Murdoch. E ela conhecia o rosto de Byrne, era o de um actor de cinema, durante meses recortara fotografias de revistas, voltara a ver os filmes dele (And I love you, angel), e depois fora a Londres porque precisava de ver quadros e de caminhar na rua onde ficava a casa de Ashley. Uma noite fora ao teatro, a cadeira ao seu lado estava vazia, um homem entrara quando as luzes estavam apagadas; no intervalo vira que o homem sentado ao seu lado era ele. E nem mesmo Henry James seria capaz de fazer isso, pensou. Lembrava-se de palavras que lhe dissera naquela noite, e ele, o protagonista do meu livro, tem o teu rosto, e os teus olhos, e a tua voz, e é irlandês, e tem cinquenta e dois anos. Um sorriso. Then he has nothing to do with me, I am only twenty seven.

Caminhou devagar pelo jardim, deteve-se para fazer uma festa a um gato. Algum tempo depois um escritor que vivia muito longe sonhou com o livro, disse que ainda não chegara o momento de o publicar, acontecera algo de parecido com um filme de Antonioni, e ele não fizera o filme. E havia a história dos anjos que desdobravam os céus no princípio dos tempos. Encontrara referências a esses anjos nos romances de Iris Murdoch, em “Nuns and Soldiers” eles desdobravam os céus, em “The Green Knight” voltavam a dobrá-los, porque chegara o fim dos tempos.

Entrou pela porta envidraçada do escritório, as reproduções de Rothko e de Chagall, as estantes, as pedras, a jarra de lilases. Tirou o manuscrito da gaveta, folheou-o devagar, os versos de Stevenson, as ruas de Londres, os quadros, os parques, a casa de praia e os pássaros. E a neve. E parecia tudo tão calmo, tão inofensivo. O livro ficara inacabado, ela gostava de livros inacabados, de quadros inacabados. Voltou a guardá-lo na gaveta e foi à cozinha buscar uma fatia de pão.

Escolheu um vídeo, um filme a preto e branco de Vincente Minnelli, com Robert Mitchum e Katharine Hepburn. O mar muito calmo. You can’t always see that undercurrent, but it’s there.

Como na vida.

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