A Quatro Mãos-Sábado, 06 de Março de 2004

O Santuário dos Pensamentos

Ana Teresa Pereira

No livro “Il vecchio con un piede in Oriente”, Tonino Guerra fala-nos de uma das suas viagens à Rússia, de um passeio com Paradjanov, à procura de igrejas abandonadas. De vez em quando surpreendiam-se ao encontrar velas acesas nos muros em ruínas. Entraram numa igreja escura, que tinha nas paredes frescos mais ou menos destruídos pela humidade. Um grande S. Jorge, montado num cavalo branco, dava o golpe mortal no dragão. Na escuridão imóvel da igreja algo aconteceu. Por uma fissura da parede entrava um pouco de luz branca. E nessa luz um ramo de nogueira foi agitado pelo vento. As sombras deslocaram-se, o dragão contorceu-se de dor, e Paradjanov começou a dançar porque o movimento também o contagiava. E de repente parou, dominado por um pensamento, que disse em voz alta: “a morte é uma dança imóvel”. O mesmo Paradjanov que numa cama de hospital explicou a Tonino como através da morte de uma cor ia descrever no seu filme a morte de uma mulher; o que contava que as camponesas da Ucrânia bordavam ao luar as suas camisas delicadas; e que ficou com os olhos cheios de lágrimas quando Tonino afirmou perante um grupo de cineastas que o filme “A lenda da fortaleza de Suram” era uma obra-prima. É nesse livro que está “Il cacciatore cieco”, um dos contos mais belos que já li, e a história daquele conde que se enamorou de uma princesa representada num fresco do seu castelo, e por causa desse amor encontrou a morte.

Tenho aqui a fotografia da capela dedicada a Tarkovski, feita por Tonino; lembro-me de “Il libro delle chiese abbandonate” (e como é bela a capa do livro, um pastel do autor, como são belas todas as capas destes livros). Há uma pequena igreja abandonada, sem tecto, dentro da qual cresce uma cerejeira. Em Abril surgem as flores, depois os frutos, que são comidos pelos melros e pelos pássaros selvagens. Quando alguém entra naquele espaço e reza, e uma das folhas cai, a graça é concedida. Mas Andrei Tarkovski, que tinha um pedido muito grande a fazer, passou ali em Novembro, e as folhas já tinham caído todas. Tarkovski e Tonino Guerra trabalharam juntos no argumento de “Nostalghia”. Há poucos meses Tonino disse-me para rever o filme, porque tinha a ver com a nossa história, e com o fresco que ele encontrou num mosteiro da Rússia, o fresco no qual os anjos desdobravam os céus no princípio dos tempos.

Nunca conheci outro escritor que dedicasse um livro a um rio. “Il Viaggio” é um longo e belo poema, há momentos, gestos, cheiros que me são familiares, o mar escondido pela neblina, o homem que segura longamente um seixo na mão, o cheiro da lúcia-lima; há também uma igreja abandonada, onde ardem restos de velas, e um velho padre põe comida e água nos nichos das paredes, para que os pássaros se reúnam ali ao anoitecer. E sempre aquele olhar, e sempre aquele amor, pelas pessoas, as pedras, os sinos, os animais, os pássaros, a água, os anjos; há pessoas que se enamoram da fachada de uma igreja (e pode ser um amor feliz), de uma cerejeira, de um cão azul, dos quadros de um pintor pouco conhecido, dos filmes de um cineasta que passou muito tempo na prisão, dos filmes de um cineasta que morreu antes do pai, de um homem que ao fim de setenta anos ainda sente o mesmo prazer ao afundar as mãos na terra para tirar as batatas.

E depois lembro-me de como ele começou por ser uma personagem num dos meus livros, e de quando falámos um com o outro, e de como entrei nos seus sonhos (nos seus pesadelos), e do fresco que ele viu num velho mosteiro da Rússia, e daquela noite de tempestade em que ele parecia falar uma outra língua. E nada do que nós escrevemos me parece tão estranho como a nossa história.

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