A Quatro Mãos-Sábado, 07 de Fevereiro de 2004

Nossa Senhora da Árvore Seca

Ana Teresa Pereira

Ticiano terminava os quadros com os dedos e não com os pincéis. Giorgio Morandi não deitava fora os pincéis velhos, enterrava-os no jardim. Eu não sei se as duas histórias são verdadeiras, não importa muito. “Cézanne nunca terminou nada. Ia tão longe quanto podia ir, depois abandonava o trabalho. É isso que é terrível: quanto mais se trabalha um quadro, mais impossível se torna acabá-lo.” Nessas palavras acredito, disse-as Giacometti quando trabalhava no retrato de James Lord, e não estava a falar só de Cézanne, mas de si mesmo. Ele dizia que o seu único desejo era reproduzir o que via, mas para ser capaz de fazê-lo teria de morrer.

O meu quarto de hotel não tinha uma janela para a rua, o que tornava a noite e o amanhecer muito estranhos. “Retrato de Giacometti” de James Lord: a partir dos seus apontamentos, Lord reconstitui as dezoito sessões do retrato pintado por Giacometti. Paris, 1964. O estúdio sombrio onde não entrava o sol de Setembro, mesmo ao lado do estúdio de Diego, o gato de Diego, o café onde o artista tomava o seu almoço ritual (dois ovos duros, duas fatias de fiambre com um pedaço de pão, dois copos de Beaujolais e duas grandes chávenas de café), o busto de Diego em que ele trabalhava de vez em quando, tudo se torna muito familiar ao longo das páginas do livro. Mas o mais interessante é seguir os pensamentos de Giacometti: se conseguisse, pelo menos uma vez, pintar uma cabeça, então haveria uma possibilidade de pintar uma paisagem, uma natureza morta; o retrato está muito bom aos olhos dos outros e ele começa a destruí-lo naquele mesmo instante; o rosto na tela tem uma grande parecença com o original, meia hora depois é só uma nuvem cinzenta e vaga; há anos que ele expõe coisas inacabadas, que nunca deveria ter começado; o suicídio que mais o fascina é queimar-se vivo, durante meses falou da possibilidade de queimar-se vivo em frente do estúdio às quatro da manhã; há trinta anos que está a perder tempo, nunca devia ter começado a pintar; é impossível encontrar uma saída, ele devia abandonar a pintura definitivamente; é necessário começar todos os dias a partir do zero; não lhe interessa a natureza individual do modelo, o exterior já é um problema demasiado grande para ter de preocupar-se com o interior; conhece os quadros do Louvre como se os tivesse em casa, lembra-se com precisão de quadros que não vê há trinta ou quarenta anos; há que fazer as coisas desfazendo-as, é preciso muita coragem para dar a pincelada final que faz com que tudo desapareça; há uma saída, é a primeira vez na sua vida que realmente encontra uma saída.

Na manhã seguinte fui passear um pouco, estava sol e frio, as árvores sem folhas, entrei no Thyssen para me despedir de uma pequena pintura sobre madeira de Petrus Christus, da “Nossa Senhora da Aldeia” de Chagall, e depois sentei-me em frente do Rothko, não é possível sentar-me em frente de um Rothko sem me lembrar de personagens dos meus livros, Jane ou Ashley. O fim da manhã com o Rothko, para trazê-lo comigo, para que faça parte de mim, durante muito tempo.

Agora estou em casa, acho que já sinto a falta dos quadros, mas tenho aqui um monte de livros em espanhol, um monte de postais. E lembro-me das palavras de Giacometti, é preciso muita coragem para dar a pincelada final que faz com que tudo desapareça. E começar do zero. Porque há uma saída…

Antes de ir embora tinha comprado o último livro de Mário Rui de Oliveira, “Bairro Judaico” (Assírio & Alvim). É um dos mais belos livros de poemas que já encontrei. “13 moradas em Paris” começa assim: “Alberto Giacometti, n.º 46, Rue Hippolyte Maindron, Paris 14e”.

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