A Noite Dá-me Um Nome


Jornal Público, 31 de Janeiro de 2004

Ana Teresa Pereira

Uma jovem preceptora chega a uma casa de campo nas proximidades de um lago. Os seus alunos, Miles e Flora, são duas crianças encantadoras. Mas ela começa a perceber que no silêncio da casa há “presenças”, um homem e uma mulher que viveram ali há algum tempo; estão mortos e voltaram para levar as crianças com eles.

No conto “The Middle Years”, Henry James escreve: “Trabalhamos no escuro – fazemos o que podemos – damos o que temos. A nossa dúvida é a nossa paixão e a nossa paixão é o nosso trabalho. O resto é a loucura da arte.” O protagonista do conto é um velho escritor que acabou de receber o seu último livro; sentado num banco de jardim começa a folheá-lo e, quase sem se dar conta, a corrigi-lo, como um Bonnard um pouco menos real que aproveita a distracção do guarda de um museu para retocar um dos seus quadros. Henry James pensou em estudar pintura com William Morris Hunt (desistiu e voltou às suas leituras) e no ensaio “The Art of Fiction” fala da relação entre a pintura e a escrita, da importância das imagens e do “ponto de vista”; uma novela (ou um quadro) é um organismo vivo, e em cada uma das suas partes há algo de todas as outras. Num texto sobre literatura fantástica, diz que o ideal é o conto de fadas puro e simples; e o que mais se aproxima do conto de fadas é a história de fantasmas.

“A Volta no Parafuso” é uma “ghost story”; numa véspera de Natal, algumas pessoas reunidas numa casa de campo contam histórias assustadoras, e a referência a algo de estranho que aconteceu a uma criança faz com que um dos convidados, Douglas, se lembre de uma preceptora que conheceu quando era um rapazinho. E depois temos a narrativa da preceptora, na primeira pessoa, o que permite a James usar a técnica do ponto de vista, que faz com que muitos dos seus textos sejam extremamente enigmáticos e ambíguos. Por exemplo, Charlotte Stant, uma das suas personagens femininas mais fascinantes, só nos é mostrada através dos olhos de outras personagens de “The Golden Bowl”. Num conto como “The Friends of the Friends”, vemos os factos pelos olhos da mulher que escreve: um homem e uma mulher parecem feitos um para o outro e por isso mesmo nunca se podem encontrar; até que ela morre; e então começa a sua história de amor, ou pelo menos é o que pensa a narradora. E não sabemos se os fantasmas existem ou não no mundo lá fora. Na escrita de James o mundo interior e o mundo exterior misturam-se muitas vezes, o importante não é o que acontece mas a impressão que fica na consciência de alguém. Em “A Volta no Parafuso” nunca saberemos se os fantasmas existem lá fora ou somente na imaginação da jovem preceptora. A novela deu origem a muitas discussões de críticos (e de psicanalistas): alguns defendem a existência dos fantasmas, outros acreditam que a história é uma série de alucinações da preceptora. Talvez James não tivesse lido Freud na altura em que escreveu “A Volta no Parafuso”, mas devia conhecer os estudos de Charcot sobre a histeria. A ideia inicial parece ter surgido durante uma visita ao arcebispo de Canterbury, em que este referiu o caso de duas crianças perseguidas pela aparição de criados mortos. Talvez James quisesse unicamente contar uma bela história de fantasmas, provocar o assombro, porque para ele uma das coisas mais importantes era assombrar-se; foi um texto no qual só usou valores “brancos” (não escritos), forçando o leitor a imaginar o mal que nunca é nomeado. Eu sempre achei que havia uma terceira leitura da novela, uma outra volta no parafuso: o ponto de vista não é o da preceptora mas o do menino.

Ou seja, a resposta à pergunta que surge logo no início, “por quem estava apaixonada a jovem preceptora”, não é de forma alguma a mais óbvia. E numa entrevista de Jack Clayton, que realizou o filme “The Innocents” segundo um guião de Truman Capote, fiquei com a impressão de que ele sentia o mesmo; no filme Miles oferece flores à preceptora (Deborah Kerr) como se lhe fizesse a corte, e no final há um beijo que pode ter muitos sentidos.

As outras duas hipóteses também são fascinantes. Quint e Miss Jessel, dois amantes malditos, continuam a rondar Bly, a casa silenciosa onde durante a noite se ouvem por vezes passos no corredor ou crianças a chorar, e querem ser vistos (algumas das cenas mais arrepiantes são essas trocas de olhares entre os vivos e os mortos). Os fantasmas não existem: a jovem preceptora apaixonou-se pelo tio das crianças, um homem que só viu duas vezes, e na solidão e no silêncio de Bly encena aquele amor, com os dois duplos que ela mesma criou, o homem rude mas muito belo que veste a roupa do patrão e parece um actor (embora ela nunca tenha visto um actor), a mulher muito bela e melancólica vestida de negro que vagueia perto do lago e se senta à velha secretária para escrever não se sabe a quem. Henry James acreditava na importância das imagens. Não é possível esquecer o fim de tarde em que a preceptora regressava de um passeio pelos campos e viu Peter Quint no cimo da torre; ou o dia em que voltou à sala para procurar as luvas e viu o rosto dele encostado à vidraça; a noite em que se encontraram nas escadas e se olharam longamente (se fossem dois criminosos teriam trocado alguma palavra); Miles e Flora brincando no jardim; a preceptora a ver-se pela primeira vez de corpo inteiro num espelho; o lago de águas frias e agitadas; Miss Jessel vestida de luto passeando junto ao lago. Trabalhamos no escuro… No conto “O Desenho no Tapete” (outro de que os psicanalistas gostam muito), James fala do “segredo” que o autor vai tecendo no próprio corpo do texto, o fio no qual estão enfiadas as pérolas, enfim a verdadeira história que, se o romance ou conto tiver vida, está em todas as partes, e é contada por cada palavra, por cada sinal de pontuação. Claro que se existe um inconsciente do texto, e eu não tenho dúvidas de que existe, o autor pode ser o último a saber ou até nunca saber. Em “A Volta no Parafuso” James deixou falar livremente o seu desejo e o seu medo. Mas é o nosso desejo e o nosso medo que vamos encontrar na novela.

Os fantasmas de Bly são os nossos. Como no poema de Rilke: “a noite dá-me um nome / que nenhum daqueles a quem de dia falei / ouviria sem angústia – / Cada porta cede / dentro de mim…”

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