A Quatro Mãos-Sábado, 13 de Dezembro de 2003

Novembro em Paris

Ana Teresa Pereira

“J’ai terriblement envie de vivre”, diz Platonov, pouco antes de morrer. E lembrei-me de Hedda Gabler que se suicidou porque a vida era pequena de mais para ela. E de Charlie Parker, mas Charlie Parker num conto de Julio

Cortázar de que sempre gostei muito: “El perseguidor”. O livrinho da Folio custava dois euros e chamava-se “L’homme à l’affût”. A história passa-se em Paris, um homem sozinho como um gato, perdido no tempo e na música, no álcool e na marijuana, que lê um livro de poemas de Dylan Thomas, muito velho e muito anotado; mas “at least I am doing it in Paris” (uma frase de “Round Midnight”). Monet e Van Gogh, e Kandinsky (a arte é sempre religiosa, uma ideia de Tolstoy). E aquela salinha do Louvre, os ícones russos (um ícone é uma oração tornada visível), os dois anjos que dobram o firmamento no final dos tempos. Lembrei-me de Tonino Guerra e dos mosaicos que ele viu na Rússia, e das suas palavras: “Io conosco lei dall’inizio del mondo”. E lembro-me da voz dele e de tudo o que aquela voz me faz sentir: “un lontano pensiero vivo”. Os ícones russos e o silêncio da sala, e a impressão de que já vivi aquilo amanhã. Comprei uma edição de “Vergers” e uma pequena biografia de Rilke e não fiquei muito surpreendida ao encontrar a reprodução de um fresco de Andrei Rublev onde um anjo desdobra o céu, é só um fragmento, não posso ver o anjo do outro lado. O protagonista do conto de Julio Cortázar não acredita em Deus (eu também não), e se alguém vê nele um anjo quando está a tocar, ele não tem culpa. (Six, sax, sex, o narrador é um crítico que na verdade não suporta o músico e a forma como se atira contra as paredes, mas por vezes tem a intuição de que ele vê mais fundo, porque se a realidade é aquilo, se a realidade é ser crítico de jazz alguém está a gozar connosco.) Ele só sabe que ao tocar saxofone passa para o outro lado do tempo, e tenta forçar a porta a

abrir-se, a realidade que para os outros é tão óbvia está cheia de fendas, de campos de urnas brancas; e folheia o seu livrinho de Dylan Thomas como eu folheio o de Rilke, e mesmo se não encontrarmos nada pelo menos estamos a

fazê-lo em Paris.”J’ai terriblement envie de vivre”, diz Platonov (ou antes, um actor da Comédie Française chamado Denis Podalydès), mas a realidade não pode ser isto, ter-me transformado num mestre-escola casado e com um filho, e ser amado pelas mulheres e odiado pelos homens, se a realidade é isto alguém está a brincar connosco. E deve ser o que pensava Hedda Gabler, se a realidade é estar casada com um homem qualquer e ter filhos, e o homem que quase amei não é o herói que eu queria que ele fosse, alguém anda a brincar connosco. Charlie Parker toca “Amorous”, se existisse um deus ele estaria naquele estúdio, e depois vai sentar-se num canto e exige que destruam a gravação, porque ele já tocou aquilo amanhã. E o nome da estrela é Absinto; apetece-me encher os bolsos do casaco de folhas, as folhas das árvores que têm todas as cores de que fala Kandinsky, o amarelo e o azul, o quente e o frio, o terrestre e o celestial, e atravessar o rio mais uma vez, ver os nenúfares de Monet, e as íris, e as

catedrais, e aquela solitária meda de feno, e a noite estrelada de Van Gogh, e as telas de Mondrian, caminhar nas ruas e respirar fundo, ler um poema de Rilke junto ao Sena, como Charlie Parker abria o seu livrinho muito velho e

anotado e lia um poema de Dylan Thomas, continuamos a perseguir qualquer coisa que não sabemos o que é, mas não fugimos, é isso que os outros não compreendem, não fugimos, perseguimos sempre, mesmo depois de mortos,

perseguimos qualquer coisa que talvez nem exista, mas pelo menos estamos a fazê-lo em Paris.

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