A Quatro Mãos – Sábado, 15 de Novembro de 2003

The Art Of Fiction

Ana Teresa Pereira

Eu estava em Londres por causa dos quadros, Ticiano e Piero della Francesca na National Gallery, Rothko e Mondrian na Tate, e Whistler numa exposição temporária, uma loja escura, o Tamisa ao amanhecer, uma rua coberta de neve. Uma noite, quando passeava perto da livraria de Michael, reparei nos cartazes de “The Master Builder”. Há uns dois anos que procurava o texto da peça, tinha qualquer coisa a ver com os meus livros, não sabia o quê. Uma menina numa aldeia das montanhas, o Construtor que chegou para inaugurar a torre da igreja, a torre mais alta do mundo. Ela viu-o no cimo da torre e apaixonou-se por ele (esta era a peça de teatro preferida de Freud). A menina está sozinha em casa e o Construtor entra na sala e dá-lhe um beijo, muitos beijos. Ele diz que ela é uma princesa e que irá buscá-la daí a dez anos, como um troll, para lhe dar um reino.

Era estranho ver a peça tantos anos depois, o meu velho conto de fadas num velho teatro de Londres. Quando as luzes se acenderam olhei com incredulidade o homem que estava sentado ao meu lado. Era mesmo ele, os olhos muito azuis, o nariz adunco, a boca, aquela figura um pouco sombria que vivia dentro dos meus livros e nos filmes de Bille August, de Bryan Singer, de Jarmusch. E ele sorriu; tínhamos tantas coisas para contar um ao outro, os quadros e a Irlanda, as peças de Ibsen e, o mais estranho de tudo, ele era o protagonista do meu romance e estava a escrever um livro sobre Iris Murdoch. E ele perguntou, tu leste “The Sea, the Sea”? Hilde dizia ao Construtor que viera lembrar-lhe a sua promessa, tinham passado dez anos e ela queria um reino. O Construtor tinha sentimentos de culpa em relação à mulher, pensava que ela ficara despedaçada pela morte dos filhos, mas ela conta a Hilde que só sente a falta das coisas que perdeu no incêndio da casa (são as pequenas coisas que nos partem o coração), os quadros, os vestidos, as jóias e, acima de tudo, as suas bonecas, ninguém se lembrara de salvar as bonecas…

E ele tem o teu rosto, e os teus olhos, e a tua voz, e é irlandês… Ele dizia-me que gostara de ser o demónio num filme, fazer do demónio um homem comum, porque o mal está em todos nós, nas pessoas por quem passamos na rua.

E disse-me para ler um livro, é estranho ouvir o actor de um filme dizer que o livro é melhor, o realizador era bom, os actores também, mas os estúdios queriam um thriller; os olhos dele pareciam mais escuros ao falar do livro, eles têm trinta palavras diferentes para neve… (Não sei o que acontece a uma escritora que encontra a sua personagem, só sei que não voltei a escrever…)

O Construtor fingia lembrar-se da história de Hilde e prometia dar-lhe um castelo; disse-lhe que já não construía igrejas, já não trabalhava para Deus; e falou-lhe dos demónios, há os demónios brancos e os demónios negros, e é difícil saber quais são os que nos conduzem… O troll dentro de nós. E Hilde pergunta, tens a certeza de que o troll dentro de ti não chamava por mim? As flores no jardim, as cadeiras de vime, e o Construtor, que tem vertigens, sobe a escada da torre, porque ela lhe pediu para fazer mais uma vez o impossível; mas, como dez anos antes, ele não está sozinho no cimo, discute com alguém ou alguma coisa… As luzes acenderam-se e ele levantou-se, eu procurei o casaco e quando me voltei ele tinha desaparecido no meio das pessoas que saíam, vesti o casaco devagar, não é possível que tudo tenha terminado aqui… Levantei-me por fim e sentia-me vazia ao descer os degraus, havia poucas pessoas na entrada, mas então vi-o junto à porta, estava à espera, e quando me avistou sorriu abertamente, o troll em mim chamava por ti, pensei, o troll em mim, e quase corri ao seu encontro.

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