A Quatro Mãos – Sábado, 13 de Setembro de 2003

Titian Blue

Ana Teresa Pereira

Byrne perguntou a si mesmo se começava a parecer-se com o Conde. O Conde gostava de caminhar sozinho pelas ruas cobertas de neve, comprava castanhas quentes que lhe aqueciam as mãos e depois fechava-se em casa a ouvir rádio o resto da noite. Ouvia tudo, noticiários, folhetins, música. Não sabia nada de música mas, como Caliban, deixava-se encantar. Byrne sorriu. Não, não se parecia com o Conde, nunca acreditara no argumento ontológico, o amor não pode criar o seu objecto, e nunca amara alguém da forma que o Conde amava Gertrude, até sair de si mesmo, como diante de um quadro. Passara a tarde na Foyles, era bom perder-se lá dentro, seguir as setas de caminhos que conhecia desde miúdo; folheara longamente as “Enéadas” de Plotino, não se trata de ver Deus mas de tocá-lo, Iris citava essa frase mas ele ainda não a encontrara. No fundo, quase não deixara de pensar no romance, o Conde, Tim, Gertrude e Anne… “Nuns and Soldiers”. Estava a reler os livros de Iris Murdoch para escrever um ensaio. Dois meses antes alugara um sótão numa casa perto da National Gallery (perto dos quadros “dela”); os andares de baixo estavam vazios, nunca encontrara ninguém. A sala era um pouco escura, as reproduções de Turner e de Whistler, os livros, as pedras azuis e cinzentas arredondadas pelo mar, gostava da cozinha com a toalha de mesa aos quadrados vermelhos e brancos, a janela que dava para o pátio que agora estava coberto de neve.

Sentou-se nos degraus da National Gallery e comeu algumas castanhas. “Nuns and Soldiers”, a casa entre as vinhas, as rochas que pareciam observar a casa, a rocha sagrada e o lago imóvel onde Gertrude nadara sozinha, Tim dançando com Gertrude no meio dos demónios, o canal onde a água corria a uma velocidade terrível, Tim arrastado pelas águas e saindo do outro lado do túnel, as águas calmas e o cão que ele tentara salvar afastando-se pela margem como se nada tivesse acontecido. Tim vagueando ao amanhecer na neblina dos parques, como se estivesse no campo, roubando flores; Tim caminhando sozinho pelas ruas, enchendo sacos de folhas, as primeiras do Outono. Tim e Gertrude beijando-se numa sala do British Museum.

Byrne deteve-se por momentos em frente de “A morte de Actéon”, era talvez o Ticiano de que mais gostava, mas havia também “Noli me tangere”, Cristo e os fariseus, o azul do manto, sentou-se diante de “Baco e Ariadne”, de novo aquele azul, lembrou-se de que o pesadelo recorrente de Tim era estar numa National Gallery de onde todos os quadros tinham desaparecido, de que Gertrude dizia que em quatro segundos pode mudar-se o mundo.

E foi então que viu a mulher. Era alta e delgada, o cabelo castanho estava mal cortado, vestia jeans e uma camisola de um azul igual ao do quadro que olhava, a Virgem com o Menino e S. João Baptista. Ela voltou-se e fitaram-se por instantes, tinha o rosto bronzeado de quem passara muito tempo perto do mar, afastou-se lentamente, olhando para trás, não para ele mas para os quadros. Byrne levantou-se e começou a segui-la, saiu da galeria, ela vestira uma gabardina preta, demasiado leve, metera as mãos sem luvas nos bolsos, minutos depois parava junto a uma loja de livros infantis, procurou uma chave na mochila e abriu a porta que ficava entre a loja e um café.

Byrne tirou do bolso da gabardina o saco com o resto das castanhas, já frias, daí a pouco viu a luz acender-se no primeiro andar, no sótão a luz estava apagada mas podia ver a cortina azul que deixara afastada; os flocos de neve caíam à sua volta, silenciosos, lembrou-se de Anne no livro de Iris Murdoch, pensou que era como se os céus se abrissem, estendendo-se infinitamente diante de Deus.

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