A Quatro Mãos – Sábado, 12 de Julho de 2003

A sombra do passado

Ana Teresa Pereira

“Quantas máscaras encontramos durante o dia?” dizia a voz. As cadências eram impregnadas de pesar e espanto, mas não sem uma pontinha de agrado. “Quantas caras banais com dois olhos, nariz e boca? O homem do autocarro, o caixeiro por detrás do balcão, todos têm o seu segredo. E alguns há, cujo segredo não é inocente. Mas têm de usar a máscara até morrerem. Eu chamo-lhes: os Insuspeitos.”

“Conheço esse homem.” Assim falava Luther Grandison. “Sim, conheço um homem que cometeu o mais grave e interessante de todos os crimes, o de morte, e de quem ninguém suspeitou. Há anos que usa a máscara, que vive normalmente entre nós (…)

A casa de Grandy era isolada, ficava no extremo norte da pequena cidade, numa rua que era quase uma estrada de aldeia. Luther Grandison, antigo director de teatro e de cinema, coleccionador de arte, continuava a fazer o seu programa de rádio, no qual contava histórias de crimes. Grandy vivia com duas sobrinhas: Althea, loura e muito bonita, que não tinha um vintém, e Mathilda, morena, de pernas compridas, herdeira de uma grande fortuna, e

que ele desde sempre chamara de “patinho feio”. Mathilda partiu para as Bermudas, o navio afundou-se e todos pensam que ela se afogou. Entretanto, a secretária de Grandy, Rosaleen, aparece morta no estúdio dele. Mathilda

afinal está viva, e ao regressar encontra à sua espera um homem de quem não se lembra, que afirma ter casado com ela poucos dias antes da viagem, e que vive também na casa de Grandison. Sabemos desde o princípio que Francis não é de facto marido de Tyl, é amigo de infância e noivo de Rosaleen; usou aquele estratagema para introduzir-se na casa e provar que ela não se suicidou, foi assassinada por Grandison. Mas Tyl não sabe de nada e encontra-se dividida entre Grandy, que ama desde criança, que a modelou com a sua voz persuasiva e quente, com as suas palavras, e Francis, que diz estar apaixonado por ela, que a acha bonita e não um “patinho feio”, e tenta convencê-la de que Grandy, o insuspeito, é capaz de matar para ficar com a sua fortuna. Um dia Francis desaparece e ela segue a sua pista até a cave onde foi feito prisioneiro. E estamos em pleno conto de fadas, em breve a princesa terá de escolher entre o pai, monstro (Grandy), e o príncipe, cavaleiro (Francis).

O livro chama-se “O Insuspeito” (Vampiro nr. 66), foi escrito por Charlotte Armstrong em 1946 e adaptado ao cinema por Michael Curtiz em 1947. Para quem o conhece desde criança (a casa rodeada de jardins; a cozinha onde Grandy prepara as refeições, com um barrete de cozinheiro, feliz no meio dos tachos, das abóboras e das cebolas, e Althea faz pão com maçãs assadas e canela; o quarto de Tyl e as suas conversas com Grandy pela noite dentro; o jardim onde Francis se encontra com Jane; Tyl seguindo o rasto dos

chocolates nas ruas calmas com casas no fundo de jardins; a cena na lixeira, quando Grandy chama por Tyl com a sua voz débil e Francis está amarrado dentro de uma mala, no meio do lixo, quase a ser atirado para a incineradora) o filme sabe a pouco. Mas Claude Rains é excelente como Grandy e o momento em que, depois de dar a Tyl o copo com o veneno, ele diz “I’ve never been closer to you” é inesquecível.

Adolfo Bioy Casares disse numa entrevista que há grandes livros que ficam esquecidos por serem policiais. Uma sugestão de leitura para as férias: números antigos da Vampiro, a colecção Xis (que publicou de Charlotte

Armstrong “A sombra do passado” e “Veneno”). Alguns desses romances fazem pensar numa frase de Bataille que Fernando Savater usa como epígrafe num dos seus livros: “A literatura é a infância finalmente recuperada”.

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